STF derruba lei que exigia consulta à Assembleia para processar governador

Jackson Nogueira com informações da assessoria de imprensa do STF

Ações Diretas de Inconstitucionalidade, ADIs, as 4781 e 4790, movidas pelo Conselho Federal da OAB nacional (Ordem dos Advogados do Brasil), foram acatadas por decisão do Supremo Tribunal Federal, o STF. Ou seja, daqui em diante, as assembleias legislativas estaduais não podem mais impedir que um governador de Estado seja processado por crimes comuns em ações penais que seguem para o Superior Tribunal de Justiça, o STJ. As ADIs devem ser aplicadas em Mato Grosso do Sul e no estado do Pará.

Aqui em MS já ocorreu de o então governador André Puccinelli, PMDB, ter a investigação interrompida por força de decisão da Assembleia Legislativa. Hoje, contudo, sem mandato, ele é investigado por ao menos sete crimes, entre os quais lavagem de dinheiro, crime financeiro e organização criminosa. Por medida imposta pela Justiça Federal, Puccinelli anda com tornozeleira eletrônica desde a semana passada.

Texto publicado na tarde desta segunda-feira (15), pela assessoria da corte máxima do país, diz que o ministro também declarou a inconstitucionalidade de normas desses estados [PA e MS] estabelecendo regras de processo e julgamento dos governadores, inclusive as que determinam o afastamento automático do chefe de governo no momento do recebimento da denúncia.

O relator, diz a assessoria do STF, observou que a exigência de autorização prévia da Assembleia Legislativa para processamento e julgamento de governador de estado por crime comum perante o STJ traz como consequência o congelamento de qualquer tentativa de apuração judicial das eventuais responsabilizações criminais dos governadores por cometimento de crime comum. Segundo ele, essa previsão fere o princípio republicano consagrado no artigo 1º, caput, da Constituição Federal.

O ministro destacou, ainda, diz a assessoria, ofensa ao princípio da separação dos Poderes, pois a exigência de prévia autorização para processamento pelo STJ estabelece uma condição não prevista pela Constituição para o exercício da jurisdição pelo Poder Judiciário. Segundo o relator, esse tipo de restrição ao exercício da jurisdição é sempre excepcional e deve ser expresso pela Constituição da República. “Vale dizer, o Superior Tribunal de Justiça, órgão do Poder Judiciário, fica impedido de exercer suas competências e funções até que se proceda à autorização prévia do Poder Legislativo estadual”, argumentou.

Fachin sustentou também que o estabelecimento de condição de procedibilidade para o exercício da jurisdição penal pelo STJ consiste em norma processual, matéria de competência privativa da União e impossível de ser prevista pelas constituições estaduais. Apontou, ainda, afronta à cláusula geral de igualdade, estabelecida no artigo 5º da Constituição Federal, uma vez que estabelecer a exigência de autorização para processar significa alçar um sujeito à condição de desigual, “supostamente superior, por ocupar relevante cargo de representação, posição, no entanto, que deveria ser antes de tudo o de servidor público que é”.

O ministro observou que, no caso de presidente da República, a exigência de autorização legislativa prévia para seu processamento e julgamento decorre norma expressa da Constituição Federal. Entretanto, em relação aos deputados federais e estaduais, a Emenda Constitucional 35/2001 suprimiu essa exigência, devendo o mesmo entendimento de valorização da igualdade e da responsabilização dos representantes do povo ser seguido em relação aos governadores, abandonando-se as exigências prévias que se constituem em privilégios e restrições não autorizados pela Constituição.

Decisão monocrática
Em sua decisão, o ministro Edson Fachin explicou que, embora a competência para julgar ações diretas de inconstitucionalidade seja do Plenário, no julgamento da ADI 4798, o Tribunal deliberou no sentido de autorizar os ministros a decidirem monocraticamente a matéria em consonância com o entendimento firmado naquela ação, vedando às Assembleias Legislativas a instituição de normas que condicionem a instauração de ação penal contra o governador, por crime comum, à autorização prévia da Casa Legislativa.

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