Solidariede francesa. Para inspirar os brasileiros

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Tão logo surgiram as primeiras notícias do atentado terrorista em Paris, um misto de consternação e solidariedade tomou conta das redes sociais. Foi o que bastou para fazer surgir uma intensa disputa nas redes sociais onde pessoas criticaram aquelas que colocaram nas redes a sua solidariedade aos franceses ou que aplicaram um filtro na foto do perfil com as cores da bandeira francesa. Isto porque não se viu os brasileiros fazendo tal coisa quando da tragédia em Mariana.

Atos de solidariedade não podem ser contestados, pois é um ato de bondade com o próximo. Quem se irritou com as demonstrações de solidariedade com o povo francês errou o foco. Quem deveria ser o alvo das contestações teriam que ser as autoridades brasileiras e os donos da empresa Samarco que pouco ou nada fizeram para evitar a tragédia em Mariana.

A tragédia de Mariana já é considerada o maior acidente da História em volume de material despejado por barragens de rejeitos de mineração. Os 62 milhões de metros cúbicos de lama que vazaram dos depósitos da Samarco no dia 5 representam uma quantidade duas vezes e meia maior que o segundo pior acidente do gênero, ocorrido em 4 de agosto de 2014 na mina canadense de Mount Polley, na Colúmbia Britânica,

Em Minas Gerais, a tragédia ocorreu por causa do rompimento da barragem do Fundão, que fica no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 km do centro do município de Mariana. O povoado literalmente desapareceu sob a lama. Dez pessoas morreram. Doze estão desaparecidas. As águas do Rio Doce, que abasteciam 500 mil pessoas, viraram lama. A outra barragem, a de Santarém está por um fio.

Quem conhecia o lugar temia que algo de ruim pudesse acontecer. Bastava ver a precariedade das contenções de um imenso mar de lama. O inevitável aconteceu. Em 2013 uma instituição civil sem fins lucrativos ALERTOU o Governo e a Samarco que as barragens de Bento Rodrigues poderiam se romper. NADA foi feito. Nenhuma atitude foi tomada. O Ministério Público embargou a obra, mas logo depois ela foi liberada. Há três anos o governo federal não enviava técnicos do Departamento Nacional de Produção Mineral para vistoriar a barragem que se rompeu. Somente 13% do valor previsto para o programa de fiscalização das atividades minerárias foi disponibilizado pelo governo, alegando questão de “contingenciamento”. Por isto falhou na prevenção, por ter deixado de fiscalizar se a empresa estava seguindo todos os padrões de segurança exigidos.

Cobramos tanto de quem postou mensagens em solidariedade aos ataques em Paris em detrimento dos danos em Mariana, mas a nossa Presidente levou mais de 24 horas para comentar, nas redes sociais, e demorou uma semana pra verificar “in loco” os estragos da lama em Mariana.

 

O que ocorreu em Mariana não foi fatalidade. Não foi obra da natureza. O que aconteceu em Mariana foi resultado da ganância e descaso dos donos da empresa que não adotaram medidas que pudessem impedir a tragédia combinado com a negligência do governo em fiscalizar o perfeito funcionamento das barragens. Ambos são culpados. E devem ser responsabilizados por isto.

 

Temos que ficar chocados, tristes, revoltados com o que aconteceu em Mariana. Mas precisamos exigir que empresários e governos cumpram com suas obrigações e evitem fatos como este, até porque existem no Brasil 401 barragens de rejeito, sendo 317 só em Minas Gerais, e sem fiscalização é difícil dizer qual o estado delas e se tal tragédia não acontecerá de novo.

 

 

Certamente os brasileiros que se solidarizaram com a França fizeram isso para demonstrar compaixão, solidariedade mesmo, ou porque, os brasileiros, como outros povos, assistem diariamente tragédias na sua rua, no seu bairro, na sua cidade, e sabemos o quanto dói saber que seu amigo, irmão, pai, tio foi morto por um motivo bestial, como agora em Paris. Assistimos a todo o momento órgãos que deveriam fiscalizar e não fazem isso. Não se sabe o motivo. Ou sabemos e nos conformamos. Aí as comportas se deterioram e sufocam, com a lama verdadeira, vidas de pessoas e dizimam um lugar inteiro, matam um rio e seus peixes dizimando o sustento de milhares de pessoas, além de causar pânico nos habitantes de cidades vizinhas e de outros estados.

 

 

E, convenhamos, solidariedade não se demonstra somente pela rede social. Temos que tornar real a nossa solidariedade e ajudarmos realmente os irmãos mineiros neste momento. E orarmos, rezarmos pelos franceses, porque o que aconteceu em Paris foi um crime de ódio, e o terrorismo não tem fronteiras. Não podemos nos esquecer que ano que vem teremos as Olimpíadas no Rio de Janeiro e delegações de várias partes do mundo estarão em solo brasileiro, incluído aí os franceses, americanos, ingleses e alemães, que hoje lideram as ações contra o grupo terrorista Estado Islâsmico.

 

 

Mas Solidariedade quem demonstrou foram os próprios franceses após os ataques terroristas. E temos que aprender com eles. Na sexta-feira à noite, no dia dos ataques, foi criada uma hashtag #PorteOuverte (#PortaAberta, em tradução livre) dominou o Twitter, com mais de 200 mil compartilhamentos. O intuito era acolher temporariamente quem não conseguia voltar para casa devido às medidas de segurança adotadas após os atentados, que incluíram a interrupção de serviços de transporte público e o bloqueio de ruas. Durante a madrugada, os taxistas de Paris desligaram os taxímetros para levar o maior número possível de pessoas para casa.

Em frente ao Hospital Saint-Louis, perto dos restaurantes, a vizinhança fazia fila para doar sangue aos feridos. Logo depois, as autoridades de saúde fizeram um comunicado pedindo para que a população de Paris não fossem mais fazer doações porque as bolsas de coleta já tinham acabado devido ao grande número de doações de sangue que já tinham sido feitas.

Infelizmente, no Brasil foi um pouco diferente. Como o Rio Doce e os reservatórios de água foram tomados pela lama a maior necessidade em Mariana passou a ser água potável. Pois bem, policiais civis e militares de Governador Valadares estão, desde a semana passada, percorrendo estabelecimentos comerciais da cidade para orientar e prender em flagrante os comerciantes que aumentaram o preço da água mineral. Galões de 20 litros que antes custavam oito reais estão sendo vendidos, depois da tragédia, por vinte reais. Um absurdo!

 

 

Precisamos aprender a cobrar responsabilidade e exigir resultados melhores dos governantes, mas precisamos melhorar também como cidadãos. Não é normal ficarmos quieto sabendo que 53 mil pessoas morrem por ano, 153 por dia, vítimas da violência no Brasil. Sabe o que isto quer dizer? Que todos os dias somos vítimas de ataques terroristas. E o que fazemos? O que fazemos para exigir melhora na educação? O que fazemos para exigir uma assistência à saúde decente às pessoas e que realmente preserve vidas? O que fazemos para exigir punição a quem comete atos de corrupção generalizada que desviam rios de dinheiro? O que fazemos para exigir que cidadãos não sejam mortos por criminosos que estão nas ruas ou que estavam presos, mas saíram sem cumprir toda a pena e estão no crime de novo? O que fazemos para mudar a lei que permite que menores de idade possam cometer os crimes mais horríveis e ainda assim serem tratados como crianças indefesas? O faremos em relação ao desastre em Mariana? Temos que cobrar punição e exigir que tais eventos não mais aconteçam. Quem falhou merece ser punido. Todos eles. Sem exceção.

 

 

A lama mal cheirosa acabou com o futuro, o passado e tornou o presente doloroso em Mariana. Nós também estamos morrendo sufocados pela lama. Pela lama da corrupção, da violência, da educação deficiente. É a lama do descaso histórico com uma nação chamada Brasil.

 

 

A tragédia de Mariana e os ataques terroristas em Paris possuem um único sentimento: a tristeza. Por isso não menosprezemos os atentados em Paris em detrimento da tragédia ocorrida em Mariana. O repúdio a uma das duas tragédias não irá diminuir ou anular o repúdio à outra. Não briguemos por isso.

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