“Ser cego é, no máximo, uma limitação”, diz Cido, da UEMS

Foto Divulgação
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Não fosse pela bengala, sua companheira inseparável, vendo sua desenvoltura ao circular pelos corredores da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), em Campo Grande, bem como ao manusear com maestria os modernos equipamentos de tecnologia assistiva existentes no Laboratório de Pesquisas em Educação Especial e Acessibilidade da Universidade, ninguém suspeitaria que ele é cego. Uma deficiência que, segundo suas próprias definições, não se trata de um impedimento. “Para mim, ser cego é, no máximo, uma limitação”. Este é José Aparecido da Costa, Cido para os amigos, que não são poucos.

Cido é a personificação da diferença que há na forma de expressar o tratamento pessoal entre “lidar” e ”relacionar”. Para ele, pessoas com nível de instrução, pelo menos razoável, que têm contato com semelhantes, entendem que “lidar é com animais irracionais”. Com Cido, todas as pessoas, quer sejam cultas ou não, se relacionam, e muito bem.  Entretanto, o próprio Cido já ouviu pessoas falarem que não sabem como “lidar” com deficientes.

Professores da Universidade encaram com indignação esse tipo de atitude. Veem a situação como inadmissível na atualidade, em pleno século 21, e que é um tema para ser discutido, principalmente em ambientes acadêmicos. Entendem ser necessário “contar para todo mundo que as pessoas são diferentes e que cada um tem um jeito de aprender, de gostar um do outro”.

Na infância, década de 90, Cido iniciou seus estudos no Instituto Sul-mato-grossense para Cegos Florivaldo Vargas (Ismac), travando seus primeiros contatos com o sistema braile e participando das atividades da vida diária que, para ele, foram muito importantes na organização e busca por autonomia. Teve acesso também à orientação em mobilidade (curso para utilização da bengala com segurança) e de como encarar o desafio de conviver com o trânsito que, até hoje não tem sinalização adequada.

Naquela ocasião eram poucas as escolas que ofereciam condições às pessoas com deficiência, principalmente no caso de deficiência visual. Mesmo assim, no segundo ano se transferiu para uma escola “regular”. Cursou magistério e se submeteu a concurso no Estado, passando a atuar como professor por cerca de 26 anos. Hoje é mestre em educação, pela UEMS.

Com cargo técnico na UEMS, Cido tem a noção exata de que é necessário implementar serviços complementares dentro de uma perspectiva de progressão desde a educação básica.  “Agora, até em função da legislação, as universidades têm incumbência de montar seus laboratórios. Aqui (na UEMS) a gente está implementando no sentido de poder dar apoio ao acadêmico que busca essa formação”, comenta.

Equipamentos

Em se falando de condições e tecnologia assistiva, a UEMS está dotada e de um Laboratório de Pesquisa em Educação Especial e Acessibilidade, na unidade de Campo Grande, cujo funcionamento está a cargo do técnico José Aparecido da Costa, o Cido, que domina a operacionalização da Linha Braile, um equipamento considerado de alto custo e que, em se falando de modernidade, até onde se tem conhecimento, em nível de Estado, só existe no laboratório da UEMS.

Trata-se de um equipamento com diferencial em relação aos similares. Nele pode ser gravado material digitado ou digitalizado cuja reprodução pode ser feita por meio de um cartão, não havendo necessidade de tê-lo plugado em um computador, o que significa autonomia, ou seja, qualquer lugar que se leve essa “linha” – e o cartão vai inserido, com os livros – é possível ter acesso ao braile imediatamente. Esse é o principal diferencial em referência a similares existentes no Estado – que são em pequena quantidade –  é que para as outras é necessário ter um computador para reproduzir o texto digitado ou digitalizado, que estará gravado no HD.

José Aparecido comenta que “mesmo que se possa considerar que o equipamento é de alto custo, deve-se se levar em conta o custo benefício, bastante relevante. Em outras situações, para se fazer a impressão de um livro em braile é necessário se ter formulário contínuo, transcritor braile, mais um profissional – o revisor em braile – e, além disso, vai demandar tempo maior e, às vezes, produto não chega com tempo hábil ao estudante. Com a Linha braile, não. Qualquer material que se tenha digitado, digitalizado ou mesmo escaneado, pode ser utilizado imediatamente pelo estudante. Aí reside a principal vantagem”.

Além da linha braile, o laboratório está tem também uma impressora braile, que assegura que o material impresso ao usuário, acadêmico em maior número, e o scanner com voz. Nesse caso, todo material – livros em sua maioria – impresso (com tinta, uma vez que há também a impressão em braile) colocados no scanner, imediatamente é reproduzido em voz. Assim, o usuário que não tem acesso ao braile pode ter o conteúdo gravado em áudio para sua utilização.

Pesquisas

De acordo com a professora Celi Corrêa Neres, coordenadora de Mestrado em Educação e também responsável pelo Laboratório de Pesquisas em Educação Especial e Acessibilidade, a Unidade está ligada ao Centro de Pesquisa, Ensino, e Extensão em Educação, Diversidade e Linguagem e tem por finalidade subsidiar pesquisas na área de deficiência visual, principalmente, mas engloba também outros tipos de deficiências.

Como público usuário dos equipamentos, de maneira direta, estão os alunos do curso de Pedagogia e de licenciaturas, uma vez que cada curso que forma professores na UEMS – Pedagogia e licenciaturas – em disciplina de educação especial. Entretanto, segundo a professora, “podem se utilizar, também, pesquisadores no desenvolvimento de suas pesquisas ou na realização de projetos de extensão para a comunidade, atendendo, também, de forma indireta, por meio de assessoria, consultoria e prestação de serviços à comunidade de maneira geral, as secretarias de educação, dentro das suas necessidades e, os alunos que têm deficiência visual, na universidade”.

Celi esclarece que o laboratório não se destina, “apenas, aos deficientes visuais porque o estudante de licenciaturas, que vai ser professor, também precisa conhecer os equipamentos e saber usá-los uma vez que com a atual política de inclusão, os alunos com deficiências estão matriculados em escolas comuns e não só nos serviços especializados”.

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