Prisões não encerram investigações sobre morte de Marielle, diz delegado

VEJA/JP

Delegado Giniton Lages durante coletiva sobre operação que prendeu suspeitos de participação nos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro – 12/03/2019 (Alessandro Buzas/Futura Press/Folhapress)

As prisões de dois suspeitos de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes não encerram as investigações sobre o crime. Em entrevista coletiva nesta terça-feira, o delegado Giniton Lages, da Delegacia de Homicídios do Rio, falou pela primeira vez sobre detalhes do inquérito que levou à detenção do policial Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz.

Segundo o delegado, esta é a conclusão da primeira etapa do inquérito, e outras hipóteses serão investigadas em um segundo momento. Entre as linhas de apuração ainda em curso está a que tenta descobrir a origem do carro usado no crime. O policial não forneceu mais detalhes sobre novas fases e se limitou a repetir uma informação que já era conhecida: trata-se de um carro clonado, cuja identificação da placa está sob sigilo.

Segundo o delegado, imagens de câmeras de segurança espalhadas pelo Rio de Janeiro permitiram refazer o trajeto do veículo desde as 17h24, quando ele começou a ser monitorado na Barra da Tijuca. O crime ocorreu por volta das 21h10 do dia 14 de março de 2018.

Lages destacou que os suspeitos não deixaram o carro em nenhum instante que permitisse que eles fossem identificados no dia do crime — só para aguardar a saída de Marielle do evento onde estava, na Lapa, a dupla aguardou dentro do carro por cerca de duas horas. “Eles não erraram”, afirmou o de em relação à ação. “O sonho de todo investigador é que os suspeitos saiam do carro para comprar uma água, façam uma ligação. Não fizeram nada disso.”

O delegado também descartou a hipótese de que câmeras de monitoramento próximo à cena do crime tenham sido desligadas de propósito. “Mesmo se todas as câmeras estivessem funcionando, não seria possível solucionar o caso”, afirmou Giniton.

Pesquisas

Diante da dificuldade de identificação dos autores pelas informações disponíveis no dia do crime, o delegado explicou que o planejamento da ação deixou vestígios que permitiram à polícia chegar a Lessa e Queiroz. Entre as evidências colhidas estão pesquisas sobre o endereço onde Marielle vivia e o armamento usado.

Giniton também afirmou que o autor dos disparos tinha “obsessão” por personalidades que militam à esquerda e que seu perfil demonstrou que sua única forma de resolver qualquer diferença ideológica seria com violência. O delegado, entretanto, evitou ligar qualquer motivação ao crime de ódio.

‘Delação’

Na abertura da entrevista coletiva o governador Wilson Witzel (PSC) afirmou que os suspeitos poderão fazer delação premiada que levem ao eventual mandante do crime. “Esses que foram presos hoje certamente poderão pensar em uma delação premiada e isso faz parte da investigação. Foi um avanço surpreendente da Lava Jato, utilizando essas técnicas de investigação”, disse o governador.

Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz são suspeitos, respectivamente, de atirar e conduzir o veículo usado no crime. Eles foram denunciados pelos homicídios qualificados de Marielle e Anderson Gomes e tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, assessora da vereadora que sobreviveu.

O MP-RJ considera que o crime foi planejado de forma “meticulosa” nos três meses que antecederam as execuções. Além dos mandados de prisão, a chamada Operação Lume cumpre mandados de busca e apreensão em endereços dos dois acusados, para apreender documentos, telefones celulares, computadores, armas e acessórios. Ronnie Lessa é policial militar reformado e Elcio foi policial militar, tendo sido expulso da corporação.

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