‘Pior da epidemia de zika pode ter passado’, diz pesquisador

Apesar de ter sido o primeiro país do hemisfério ocidental a registrar uma epidemia do zika vírus – que também está sendo associada a um aumento expressivo de casos de microcefalia –, o Brasil pode não ser, atualmente, o país mais perigoso para viajantes, segundo um pesquisador do Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC).

“O Brasil foi o país do continente que primeiro teve uma epidemia de zika. Mas pode ser razoável assumir que o pior já tenha passado, enquanto que em outros países, ainda pode estar começando”, disse à BBC Brasil Lyle Petersen, o diretor da Divisão de doenças transmitidas por vetores do CDC – principal agência voltada para proteção da saúde pública nos Estados Unidos.

“O que tende a acontecer em surtos desse tipo é que um número muito grande de pessoas é infectada na primeira onda, quando o vírus atinge a população. Depois disso, o nível de transmissão pode tornar-se bem menor. Os dados que temos mostram que o maior número de casos de zika, especialmente no nordeste do Brasil, aconteceu no começo de 2015. Por isso estamos vendo os casos de microcefalia agora”, disse.

“Então é possível que o nível de transmissão já tenha atingido seu pico ao menos nessa parte do país.”

Nesta sexta-feira, o CDC deve divulgar um alerta para que viajantes dos Estados Unidos evitem países da América Latina e do Caribe onde há a possibilidade de contrair o vírus.

Petersen não quis adiantar detalhes sobre o alerta do CDC. O jornal New York Times disse que este poderia trazer recomendações específicas para que mulheres grávidas não viajassem “ao Brasil e outros países da região em que mosquitos estavam espalhando o zika vírus, ligado à má-formação de cérebros em recém-nascidos”.

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O jornal diz que esta poderá ser a primeira vez que o CDC recomenda que mulheres grávidas evitem uma região específica durante um surto.

Além da epidemia no Brasil, já foram registrados casos de zika em Colômbia, El Salvador, Guiana Francesa, Guatemala, Haiti, Honduras, Martinica, México, Panamá, Porto Rico, Paraguai, Suriname e Venezuela.

Petersen afirma, no entanto, que ainda não se sabe em qual desses países pode haver uma epidemia com a proporção da brasileira, por causa da dificuldade em diagnosticar a doença.
“Não há uma boa vigilância para a zika nas Américas neste momento. A doença se parece com outras, como a dengue. Então sem muita capacidade de fazer testes de laboratório é difícil determinar quantas infecções pelo zika vírus estão acontecendo nos países.”

Vírus nos EUA
Na última quarta-feira, a confirmação de que uma mulher de Harris County, no Texas, estava com zika após uma viagem a El Salvador preocupou as autoridades americanas.

No final de dezembro, a chegada do vírus a Porto Rico também soou o alarme na imprensa, que especula a possibilidade de uma epidemia associada à microcefalia semelhante à brasileira no país.

Petersen, no entanto, diz que o caso do Texas não foi o primeiro registrado da presença zika vírus – do tipo asiático, como o que estaria presente no Brasil – nos EUA.

“Há alguns anos identificamos pessoas que chegam aos Estados Unidos infectadas com o vírus, principalmente da região do Pacífico. É uma doença que se espalha por viajantes, então casos ‘importados’ assim são esperados e esse número deve crescer”, afirma.

“Identificamos 11 pessoas que chegaram ao país com zika entre 2010 e 2014. E como muitas pessoas não têm sintomas, o número dos que vêm com a virose deve ser bem maior.”

Segundo o pesquisador, a explicação para que a presença do vírus nos EUA – e possivelmente em outros países do continente americano – não tenha causado epidemias até então não é simples.

“O vírus pode ser introduzido em uma área muitas e muitas vezes antes de a infecção local começar. É um caso de má sorte, de certo modo. Se a pessoa infectada entra no país e não é picada por um mosquito, nada acontece. Então o vírus provavelmente entrou nas Américas muitas e muitas vezes antes de as condições serem as ideais para uma epidemia.”

Mas Petersen acredita que, a julgar pelo histórico de outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti , que só está presente nas regiões mais ao sul dos Estados Unidos, é menos provável que o problema lá tome a mesma proporção que tem no Brasil.

“Ainda não detectamos transmissão local aqui. Estamos preocupados com essa possibilidade, mas se o vírus seguir o mesmo padrão da dengue, poderemos ter transmissão local e surtos menores, mas não uma epidemia gigante como a que se vê no Brasil ou em outras regiões tropicais”, afirma.

“Foi exatamente o que aconteceu com a chikungunya. Houve milhões de casos nas Américas, mas nos Estados Unidos tivemos cerca de uma dúzia.”

Boatos
Após confirmar que o zika vírus foi encontrado em bebês brasileiros com microcefalia mortos após o nascimento, o CDC acredita estar mais perto de comprovar a conexão entre a doença e a má-formação, segundo o cientista. “Eu diria que a chance de a microcefalia não ter sido causada pelo zika vírus é extremamente pequena.”

Um grupo de patologistas do CDC examinou quatro amostras coletadas no Rio Grande do Norte e enviadas ao centro americano pelo Ministério da Saúde. Duas delas eram de bebês microcéfalos que morreram 24 horas depois de nascer. As outras duas eram de placentas de mulheres que tiveram abortos espontâneos de fetos com microcefalia.

Os testes encontraram o vírus tanto no tecido cerebral dos bebês quanto nas placentas das mães.

Para o pesquisador, os dados já reunidosd eixam pouco espaço para teorias como a de que vacinas ministradas em gestantes ou contato com agrotóxicos poderiam ter causado o aumento de casos da má-formação.

O Ministério da Saúde já negou ambas as possibilidades, mas as teses ainda circulam nas redes sociais brasileiras.

“Acho que a chance disso é bastante pequena por algumas razões. A primeira é que nenhuma vacina ministrada em mulheres hoje foi associada a nada do tipo. Temos anos de experiência e milhões de pessoas testadas. E eu nunca vi algo assim com nenhuma vacina”, afirma Petersen.

“A segunda razão é que, dado o fato de que o aumento de casos também aconteceu na Polinésia Francesa após um surto de zika, a ideia de que algum agrotóxico local possa ter causado isso não faz muito sentido. Teria que ser um químico presente nos dois países e que tenha agido ao mesmo período da epidemia do zika vírus.”

“Além disso, quando você examina imagens dos cérebros das crianças, elas têm semelhanças com o que se vê em casos de infecções como a rubéola. Por isso, parece mesmo ser uma má-formação causada por infecção.”

Mesmo assim, ele diz que mais estudos serão necessários para estabelecer definitivamente a relação entre o vírus e o sintoma nos bebês.

“Ainda não podemos falar em 100% de certeza, mas estamos chegando lá. O Ministério da Saúde brasileiro está certo, mas ainda queremos ver mais evidências como esta que acabamos de encontrar. Estes são alguns casos no meio de mais de 3.500 bebês (com suspeita de microcefalia) no país.”

O CDC vai colaborar com pesquisadores brasileiros em novos estudos que tentarão dimensionar os riscos de mães que tiveram o zika vírus na gravidez de terem bebês com microcefalia.

“Esses estudos poderão responder a perguntas como: ‘Quão grande é a chance de o bebê ter microcefalia se a mãe teve zika? É certeza que isso acontecerá ou é uma chance em 100?”, diz.

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