“Pimenta no Cunha dos outros é refresco” vira bloco em Brasília

As tensões e o folclore que marcaram a política em 2015 se tornaram um prato cheio para a criatividade de foliões e viraram temas de sátiras e marchinhas de Carnaval. Um dos principais alvos dos blocos de rua deste ano no Distrito Federal é o próprio presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O peemedebista inspirou a criação do bloco “Pimenta no Cunha dos outros é refresco”, que sairá no próximo dia 8 na Asa Norte, em Brasília, com uma sátira f.

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Com o mandato ameaçado por um processo que se arrasta desde outubro no Conselho de Ética por falso testemunho e por omissão de patrimônio em declaração de bens,  Cunha também integra a lista de políticos acusados de participar do esquema de corrupção na Petrobras desvendado pela Operação Lava Jato.

O “Pimenta no Cunha dos outros é refresco” foi idealizado por um grupo de 20 amigos que têm em comum o descontentamento com as atitudes do presidente da Câmara. “É o bloco que a gente não vai poder repetir ano que vem, porque ele vai cair este ano”, aposta um dos organizadores. “Também é um bloco anticoxinha. Não tem coxinha no bloco, não tem [admiradores de] Bolsonaro, não tem nada disso”, garante. Os amigos criaram uma série de marchinhas cujas letras são marcadas pelas críticas ao impeachment de Dilma, e sátiras aos chamados “coxinhas” – termo popularizado nas redes sociais, utilizado para categorizar aqueles que são contrários à presidente e à gestão petista.

“Credito não, credito não / conta na Suíça e não tem investigação/ Pimenta no Cunha dos outros é refresco/ coxinhas espalhadas pelo chão/ A fome jaz para o meu povo / Impeachment, meuzovo!” Confira o ensaio do bloco:

O bloco também sairá no pré-Carnaval, no próximo domingo (31), na Funarte, junto com o “Bloco Libre”, que homenageará, também inspirado em Cunha, a Suíça. O produtor cultural Márcio Apolinário explica que tradicionalmente o grupo homenageia um país. A escolha deste ano tem uma explicação. “A nossa pauta principal é o direito à cidade, à diversidade cultural e à consciência ambiental. Mas a gente achou interessante fazer essa crítica justamente pelos documentos que a Suíça enviou para o Brasil”, afirma Marcio. A própria embaixada da Suíça disponibilizou alguns brindes que serão distribuídos pela organização.

O produtor cultural se refere à colaboração entre o Ministério Público Suíço e a Procuradoria-Geral da República. No dossiê enviado pelas autoridades suíças, extratos bancários, cópias de passaporte e comprovante de residência indicando que Cunha e seus familiares eram beneficiários finais de quatro contas em instituição financeira suíça, o banco Julius Baer. No saldo, 2,4 milhões em francos suíços (cerca de R$ 8,8 milhões, pelo câmbio de 7 de dezembro). Investigadores da Operação Lava Jato informaram que possivelmente as contas eram irrigadas com propinas oriundas de venda de um campo de petróleo da Petrobras em Benin, na África.

Cunha também estará “presente” no enredo do bloco da Sociedade Armorial Patafísica e Rusticana, o conhecido Pacotão. Formado majoritariamente por jornalistas, o bloco é conhecido por levar críticas políticas para as ruas desde o final dos anos 1970. Nos dias 7 e 9 de fevereiro o Pacotão sairá na quadra CLN 309 com a marchinha “Suruba no alto escalão”, que fala sobre a aliança entre o vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara. O concurso para a escolha da marchinha deste ano foi realizado no último sábado (23), e contou com 28 inscritos.

“Mixéu Mixê é aprendiz de Judas / Parece até que é michê do Cunha / O infiel quer ‘impichar’ a titular / Mixéu e Conha são dois sem vergonhas”

Com 38 anos de tradição, tanta irreverência já foi alvo de hostilidades, conta Joka Pavaroti, 75, um dos organizadores do bloco. “O Pacotão  tem a característica da irreverência, da crítica. A gente já teve muito problema com isso, mas nunca desanimamos”, lembra.

Ele nega

Cunha nega todas as acusações que inspiraram os foliões. Entre as desculpas já apresentadas, o peemedebista diz ser perseguido pelo governo, que, segundo ele, age mascarado pelas investigações do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Primeiramente, ele refutou com veemência que possuísse contas no exterior. Depois, disse que era apenas “usufrutuário” de ativos mantidos na Suíça. Para justificar a origem do dinheiro não declarado à Receita, Eduardo Cunha afirmou que os recursos foram obtidos com a venda de carne enlatada na África e com operações no mercado financeiro. (Congresso Em Foco)

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