Número de mortos após erupção do Vulcão de Fogo sobe para 69

NYT, REUTERS, AFP e AP

ALOTENANGO, GUATEMALA – A erupção vulcânica mais violenta na Guatemala em mais de um século pegou a todos de surpresa: autoridades, especialistas e moradores da região. Ao menos 69 pessoas morreram, dezenas estão desaparecidas e 4 mil ficaram desalojadas. No domingo, o Vulcão de Fogo na Guatemala, localizado 35 quilômetros a sudoeste da Cidade da Guatemala, um dos mais ativos da América Central, expeliu por mais de 16 horas uma nuvem de cinzas, lama e pedras que devastou os vilarejos mais próximos.

Vítima do Vulcão de Fogo no vilarejo de San Miguel Los Lotes Foto: AFP PHOTO / Johan ORDONEZ

O poder de destruição do Vulcão de Fogo levou especialistas a compará-lo ao Vesúvio, na Itália, em sua erupção no ano de 79 d.C., que soterrou as cidades de Pompeia e de Herculano. Os chamados fluxos piroclásticos, que são misturas rápidas de gás muito quente e matéria vulcânica, precipitaram-se pela encosta da montanha e engoliram aldeias sem aviso prévio.

A chuva de cinza percorreu dezenas de quilômetros, causando o fechamento do aeroporto da capital. O presidente guatemalteco, Jimmy Morales, decretou três dias de luto nacional pela catástrofe. Nesta segunda-feira, outra nuvem de cinzas e de material vulcânico provocou alarme. A costa da Guatemala também foi atingida por um terremoto, mas não havia relatos de danos.

“Estávamos a 3.700 metros de altitude, na montanha do vulcão, em busca de um desaparecido, quando tudo escureceu. Pensei que havia começado a chover, mas ouvi algo bater no meu capacete e percebi que eram pedras. Centenas de pedras, algumas com até 5 centímetros, caíam sobre nossas cabeças”, contou Jorge Luis Altuve, membro da brigada de salvamento da montanha onde está o Vulcão de Fogo.

Vista de área afetada por vulcão na comunidade de San Miguel Los Lotes em Escuintla, Guatemala Foto: REUTERS/Luis Echeverria

Altuve e a equipe conseguiram escapar depois de quatro horas de descida da montanha. Outros não tiveram a mesma sorte. “Tive de pegar meu filho mais novo e correr quando percebi aquela nuvem de cinzas vindo em nossa direção. Meus dois filhos mais velhos ficaram em casa”, contou ao jornal britânico The Independent Efrain Gonzalez. Ele teve de fugir às presas de El Rodeo de Escuintla, o principal povoado ao pé do vulcão. “Não pude voltar para resgatar meus filhos.”

Manuel López, de 22 anos, lembra o momento em que ele e a família ficaram presos em casa por uma corrente de lava que desceu do vulcão após a erupção. “Tudo entrou pelas portas e janelas. Fazia muito calor, não dava para respirar, isso aqui fervia”, relatou Manuel à agência France Presse.

“Conseguimos sair quebrando as paredes da casa e rompendo cercas até chegar aos bombeiros”, contou o sobrevivente. Sua filha de 4 anos foi levada para o hospital com queimaduras nas pernas.

Fuga. “Deu medo. Nunca tinha acontecido em mais de 40 anos”, afirmou Cleotilde Reyes, uma senhora nascida na aldeia e acostumada com as constantes erupções do vulcão. Ela conseguiu fugir momentos antes com sua filha e dois netos na caminhonete de um vizinho, que as alertou sobre o deslizamento que se aproximava.

“Tenho medo de voltar”, disse Erick Ortiz, enquanto cuidava da mulher e dos dois filhos pequenos. “Eu me assustei ao ver o breu das cinzas que vinha para baixo e disse para a minha mulher que saíssemos antes que nos pegasse. Foi a nossa sorte.”

Pompeia. “O impacto da erupção do Vulcão de Fogo sobre a população é parecido com o de Pompeia”, disse à France Presse o vulcanologista Piergiorgio Scarlato, do Instituto Nacional Italiano de Geofísica e Vulcanologia.

A lava do Vulcão de Fogo atingiu uma temperatura de ao menos 700ºC, derretendo tudo o que encontrou pela frente, de árvores a rochas. O material vulcânico se moveu a uma velocidade de 100 km/h, provocando mortes ao chegar nos centros urbanos.

Segundo ele, o Vulcão de Fogo expeliu colunas de cinzas e gás de 3 km a 4 km, além de fluxo piroclástico, ou seja, uma mistura de gás e material vulcânico. “O Vesúvio, na erupção de 79 d.C., produziu uma coluna de gás e cinzas de 20 km a 25 km que, colapsando sobre si mesma, também criou um fluxo piroclástico parecido com o Vulcão de Fogo”, compara.

Esta é a segunda erupção do Vulcão de Fogo somente este ano. Com 3.763 metros de altura, ele fica entre os Departamentos (Estados) de Escuintla, Chimaltenango e Sacatepéquez, localizados na região da Cidade da Guatemala, capital do país, onde vivem cerca de 1,7 milhão de pessoas.

O Grupo de Doadores, integrado por Alemanha, Canadá, Espanha, Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Suécia, Suíça, França, União Europeia, além do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização dos Estados Americanos e o sistema da ONU na Guatemala, expressou solidariedade e apoio para o país superar a tragédia.

O governo de Israel enviou comida, cobertores e remédios para o país. Em seguida, o Ministério das Relações Exteriores israelense afirmou que vai estender sua assistência através da embaixada de Israel na Guatemala. Os dois países se tornaram mais próximos nos últimos anos. Em maio, a Guatemala seguiu os passos dos EUA e moveu sua embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém, tornando-se o segundo país a fazer a mudança.

Em setembro de 2012, o Vulcão de Fogo provocou a última emergência por erupção no país, o que resultou na retirada de 10 mil habitantes em localidades ao sul do vulcão.

 

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