“Não sonho com a presidência do Senado e nunca sonhei”, diz Simone Tebet

Em entrevista ao jornal O Globo, a senadora Simone Tebet (MDB-MS), garantiu que não pensa em disputar à presidência da Mesa Diretora do Senado

Atual presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Casa, ela falou de vários assuntos, inclusive sobre o processo sucessório.

“Meu papel não poderia ser outro que estar na presidência da CCJ. Não ter sido a presidente do Senado faz com que eu contribua ainda mais com o País. A gente está ali comandando as pautas que mais interessam. Não conseguiria fazer esse trabalho se não tivesse lá. É um tabuleiro de xadrez e tem gente que precisa ser peão. Nesse tabuleiro, tenho de estar onde o país precisar. Não sonho com a presidência do Senado e nunca sonhei”.

A senadora Simone Tebet, durante entrevista a O Globo (Foto: O Globo)

Aliada do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP , a senadora critica destaque a pautas corporativas e ações para ‘dois senhores’, se referindo à votação dos vetos do presidente Jair Bolsonaro à Lei de Abuso de Autoridade, em entrevista ao jornal O Globo .

Segundo a senadora a esperança no presidente, que viria para representar a renovação, não está acontecendo. Para Tebet, o caminho do Senado “é o da boa política, da transparência, do direito público, do combate à corrupção, de uma agenda desenvolvimentista”.

A senhora se decepcionou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEMSP), por adiar a reforma da Previdência, em meio à derrubada de vetos à lei de abuso de autoridade e a busca contra o líder do governo, Fernando Bezerra Coelho?

A minha indignação é que prevaleceu uma pauta interna, corporativa, em detrimento de uma pauta de país (Previdência). O fortalecimento do Senado é a porta de saída para a crise. Sabemos como a Câmara funciona. Não dá para trabalhar com 500 e tantos. Tem o centrão. Se você enfraquece o Senado perante

a sociedade, enfraquece a democracia.

O episódio afastou o Senado dessa porta de saída?

O caminho do Senado é o da boa política, da transparência, do direito público, do combate à corrupção, de uma agenda desenvolvimentista. Cada passo equivocado sinaliza para a sociedade que tudo permanece como está. Mas houve mudança. A eleição do Davi representou uma ruptura. Mas veio esse episódio pernicioso. Davi procura agradar a todos, e não adianta. Você não serve a dois senhores. São duas agendas antagônicas. Não vão se encontrar nunca. Onde um lado tiver, o outro não estará.

A visita dele ao STF, acompanhado de líderes, foi boa iniciativa?

Péssima. É um erro de estratégia, seja porque era o momento da Previdência na CCJ, seja porque fizeram aquele ato público. Ele tinha de ter ido como presidente de um Poder. Se aconteceu na quinta, tinha de ter ido na sexta, mas institucionalmente, num diálogo saudável entre os Poderes.

Qual sua posição em relação ao excludente de ilicitude?

O Código Penal já é claro. Qualquer cidadão, não só policial, é absolvido, se for em legítima defesa ou no legítimo cumprimento do dever e do ofício. Não há necessidade de mexer nesse tema agora. Talvez, a saída seja reestruturar na Justiça, criar uma estrutura mais clara para, em julgamento de policiais, se

tenha mais segurança.

Como a senhora vê o enfraquecimento do ministro Sergio Moro?

Acho que está acontecendo o inverso. Tivemos um enfraquecimento do Moro, mas o governo perdeu muitas fichas. Enquanto a economia não reage, o presidente, que perde popularidade, vai precisar se valer da única bandeira que lhe restou. Chegando a um ano de governo, a sociedade começa a ficar

impaciente. Ele vai ter de oferecer uma solução nessa pauta de segurança pública. Vai ser a saída dele.

Qual é a responsabilidade do governo na crise?

Essa crise já estava sem controle, quando o governo assumiu. O que falta ao presidente é descer do palanque de candidato. Ele tem de entender que, embora tenha posições radicais, isso tem de ficar de lado. Não é prioridade para o país.

Como a senhora viu o mandado de busca e apreensão contra o líder de governo, Fernando Bezerra, em gabinetes do Senado?

Não dá para avaliar sem saber o que tem nos autos. Não sei o que levou, por exemplo, o ministro Barroso, que é muito experiente e preparado, por mais que falem que é tendencioso, a autorizar a entrada da Polícia Federal em outro poder. Causa estranheza num primeiro momento, porque se não houver fatos

novos estamos falando de uma questão pretérita, antiga.

É hora de instalar a CPI dos Tribunais Superiores?

A CPI é um direito das minorias, mas ela poderia se dar a partir do ano que vem.

Poderia haver um diálogo do presidente do Senado com o grupo para abrir no ano que vem, março abril, depois das reformas, após termos entregue tudo aquilo que o país precisa para voltar a respirar. Colocar uma CPI neste momento, prestes a entregar uma reforma previdenciária, e podendo entregar uma reforma tributária até dezembro, é complicado.

O MDB deve eleger o deputado Baleia Rossi no próximo mês para a presidência do partido, quais os rumos do partido?

Vou dar o benefício da dúvida ao deputado Baleia Rossi. Na única conversa que tive com ele, ele disse que não tem compromisso com erros e com esse presente e passado fisiológico do partido. Eu queria uma renovação, mas não achamos. Não via como dividir um partido já rachado. Ia transformar o MDB em partido menor. Vou aguardar para ver.

O Alcolumbre se afastou do grupo que o elegeu?

Quero dar o benefício da dúvida. Quero crer que nada mais é que a personalidade do Davi. Ele é uma pessoa que, além de humilde e que dialoga com todos, procura sempre agradar a todos. Tem dificuldades de dizer não, mas vai ter que aprender. Seja para mim ou qualquer parlamentar. O Davi tem que

entrar no terno de presidente do Senado. É preciso que ele sinalize para a sociedade o que é esse Senado renovado.

A população se sente enganada com o discurso da “nova política”?

A esperança no presidente Bolsonaro, que viria para representar a renovação, não está acontecendo. Essa agenda começou a ser frustrada pelo presidente, seja com relação a seus filhos, à postura, à contradição com o que dizia e o que faz. A população está trazendo isso e vai desopilar. E vai ser no lado mais fraco, que é o Congresso. Não temos o direito de errar. É nossa última chance.

Qual vai ser a pauta da CCJ depois da reforma?

Temos que andar com o pacote anticrime, em paralelo com a Câmara, para quando o projeto venha para cá, possa andar mais rapidamente. Não adianta confrontar a Câmara. Ficar em um vaivém. É preciso chegar a um consenso.Temos também os projetos do pacto federativo, tão importante quanto a reforma

tributária.

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