Músico que tocou para Lampião comemora 100 anos com shows em SP

Portal G1

“Você toca o meu toque?”, perguntou a então lenda do cangaço nordestino Lampião para um menino que segurava trêmulo um pífano, na década de 20, no sertão de Pernambuco. A criança era Sebastião Biano, que não só tocou a música “de ouvido”, como impressionou com seu talento o cangaceiro mais temido do Brasil. Hoje aos cem anos de idade, Seu Biano continua tocando o instrumento com a mesma maestria com que conta suas muitas histórias. Sem pensar em aposentadoria, ele participará de dois shows em São Paulo neste final de semana em comemoração ao centenário.

Sebastião Biano é único integrante vivo da formação original da Banda de Pífanos de Caruaru, que influenciou movimentos como a Tropicália e o Manguebeat. Apelidado pelo cantor Gilberto Gil de “Beatles de Caruaru”, o grupo também ganhou um Grammy Latino em 2004.

O mestre do pífano Sebastião Biano continua tocando aos cem anos — Foto: Fábio Tito/G1
O mestre do pífano Sebastião Biano continua tocando aos cem anos — Foto: Fábio Tito/G1

Em 1972, Gil gravou com a banda uma música de autoria de Sebastião chamada “Pipoca Moderna”, que posteriormente ganhou letra de Caetano Veloso. Também tocaram com eles Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Geraldo Azevedo e outros grandes nomes.

“O Sebastião é uma peça rara, um patrimônio vivo da cultura brasileira e da música. Ele continua passando seus conhecimentos, celebrando a vida. Isso é muito inspirador”, diz Junior Kaboclo, integrante da quarta geração da Banda de Pífanos de Caruaru.

Quem ouve Seu Biano alcançando diferentes escalas e brincando com as notas, não imagina que ele não teve estudo musical formal algum. Autodidata, aprendeu a tocar aos cinco anos de idade enquanto ajudava seu pai na roça junto com o irmão em Mata Grande, no Sertão de Alagoas onde nasceu.

“Quem me ensinou a tocar foi nosso pai [Deus]. Não teve mestre para mim de jeito nenhum. Mas teve o começo. Meu pai me levou para a roça junto com meu irmão. A gente ia para casa tocando uns ‘caninhos’ da flor de jerimum. Saía aquele ‘apitozinho’ tão engraçado, coisa de criança mesmo. Ele vendo aquilo falou: ‘se vocês fazem um som desse num pedacinho de folha desse ‘tamainho’, no ´pife´ o que não vão fazer?”, lembra Sebastião.

Sebastião Biano e Junior Kaboclo tocam pífanos — Foto: Fábio Tito/G1
Sebastião Biano e Junior Kaboclo tocam pífanos — Foto: Fábio Tito/G1

O que é pife?

Espécie de flauta transversal, o pífano é um instrumento de sopro que pode ser fabricado de diferentes materiais. No Nordeste, geralmente é feito a partir da madeira de bambu e usado em bandas tradicionais acompanhado da percussão do bumbo e zabumba.

“O nome dele certo mesmo no Nordeste é ‘pife’. Agora a imprensa achou mais nome para botar aqui neste instrumento. Colocou ‘pífaro’ ou ‘pífano’. Mas o certo é ‘pife’, quatro letrinhas só”, diz Sebastião.

Depois que ganhou o primeiro de seu pai, Manuel Biano, Sebastião começou também a fabricar o pife. “Eu sou caprichoso, faço um instrumento desse dar certinho com a flauta da fábrica. E olha que meu pife ganha no tom. É mais alto”, afirma rindo.

Se hoje Seu Biano não consegue mais entrar na mata para procurar “a taboca boa que só nasce em terra de brejo”, ele continua usando a mesma criatividade de criança com o jerimum. Teve a ideia de transformar o cano da própria bengala em um pife, que usará em uma parte do show em São Paulo.

A madrugada é a hora preferida de Sebastião para compor as músicas que ele diz que “já vêm prontas” na sua cabeça. “De 4h a 6h tem essa bondade para o artista. Vem todo tipo de música no seu ouvido. Mas não pode dormir senão perde”, afirma.

A inspiração também vem dos sons da natureza. “A carreira de um animal, o compasso do som chocalho no pescoço, tudo inspira música”, diz.

O mestre do pífano Sebastião Biano mostra CDs da carreira solo — Foto: Fábio Tito/G1
O mestre do pífano Sebastião Biano mostra CDs da carreira solo — Foto: Fábio Tito/G1

O toque para Lampião

Retirante da seca, a família Biano se mudou de Alagoas para os arredores de Caruaru, em Pernambuco, onde se estabeleceu por muitos anos. Foi lá que Manuel Biano, que também era lavrador e vaqueiro, criou a primeira formação da banda de pífanos junto com os dois filhos pequenos.

Nessa época ocorreu o encontro da família com Virgulino Ferreira, o Lampião. Sebastião conta que o cangaceiro tinha ido pagar uma promessa durante a celebração da novena e encontrou as crianças sentadas em um banco com os instrumentos na mão.

“Ele apareceu de dentro da mata com 50 cangaceiros para chegar na igreja. A gente já tava todo molhado. Eram três meninos e meu pai, que era o único homem formado que tinha na banda. Ninguém falava nada, a língua ficou enrolada dentro da boca de medo. A gente já tinha medo de Lampião quando estava a 10 léguas de distância, imagina pertinho assim”, diz.

Segundo Sebastião, Lampião então pediu que os garotos tocassem a música do seu bando. “’Vocês são tocador, né? Vocês sabem tocar meu toque?’”.

“Deus ajudou, até que acertemos os dedos na nota do pife, porque parecia que não tinha buraco nenhum. O medo é fogo. Mas aí toquemos. Quando parou, Lampião disse assim para os dois capangas: ‘Vocês tão vendo esses meninos como é que tocam? E vocês, dois cavalões desses, não tocam piroca nenhuma’. Ele deu valor. Foi a palavra que ele disse. Até hoje está guardada na minha cabeça”, conta Seu Biano.

Sebastião Biano mostra o Grammy Latino que ganhou em 2004 com a Banda de Pífanos de Caruaru — Foto: Fábio Tito/G1
Sebastião Biano mostra o Grammy Latino que ganhou em 2004 com a Banda de Pífanos de Caruaru — Foto: Fábio Tito/G1

Homenagens aos cem anos

Depois de construir carreira no Nordeste junto com a banda da família, Sebastião se mudou para a cidade de São Paulo ainda nos anos 70. Hoje vive com uma de suas filhas – dos 16 que teve – em Suzano, na Grande São Paulo.

Como parte das comemorações do centenário, Seu Biano voltou a Caruaru no dia do seu aniversário, em 23 de junho, para receber uma homenagem na tradicional festa de São João do município. Três anos antes já havia recebido o título de “Cidadão Caruaruense”.

“Foi bonito, viu? Foi uma festa que nunca tinha visto daquele jeito. Eles pediram que eu fosse fazer meu aniversário em Caruaru. Porque meu pai é enterrado lá, também meu irmão. E talvez, quando eu falecer, eu vá para lá de novo”, diz.

Mas se depender dele, esse dia ainda vai demorar. “Cem anos não são cem dias. É um bocadinho de chão. Mas Deus vai me dar muito mais do que isso ainda”, afirma.

Shows no Sesc Pompeia

As apresentações da Banda de Pífanos de Caruaru em comemoração ao centenário de Sebastião Biano acontecerão no sábado (27) e no domingo (28) no Sesc Pompeia, na Zona Oeste de São Paulo. O ator Gero Camilo estará no palco, nos dois dias, interpretando “causos” de Seu Biano. No sábado, o show terá participação de Zeca Baleiro. No domingo, da banda A Barca.

Data: Sábado (27) às 21h. Domingo (28) às 18h
Local: Sesc Pompeia – R. Clélia, 93 – Água Branca, São Paulo
Ingressos: De R$ 9 a R$ 30
Mais informações: site do Sesc Pompeia

Comentários