MP denuncia ex-presidente do Inter e mais 13 pessoas por suspeitas de desvios no clube

Globoesporte.com

Após dois anos das primeiras denúncias, o Ministério Público do Rio de Grande do Sul concluiu a primeira parte da investigação que apurou irregularidades no Inter durante a gestão do ex-presidente Vitorio Piffero, entre 2015 e 2016. O ex-presidente colorado e outras 13 pessoas, entre ex-dirigentes e empresários, foram denunciados por crimes como organização criminosa, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

Segundo o Ministério Público, as investigações apontam desvios superiores a R$ 13 milhões no clube no período em benefício dos envolvidos. Além do ex-presidente, foram denunciados outros três ex-dirigentes da gestão: Pedro Affatato (ex-vice de Finanças), Emídio Ferreira (ex-vice de Patrimônio) e Carlos Pellegrini, (ex-vice de Futebol).

Outras pessoas indiciadas são empresários do ramo da construção civil e do futebol, como Giuliano Bertolucci, Fernando Otto, Rogério Braun e Carlos Alberto de Oliveira Fedato, entre outros. A reportagem do GloboEsporte.com busca contato com todos os nomes citados (veja os contrapontos abaixo).

Todos os denunciados

  • Vitorio Piffero, ex-presidente do Inter
  • Pedro Affatato, ex-vice de Finanças do Inter
  • Emídio Ferreira, ex-vice de Patrimônio do Inter
  • Carlos Pellegrini, ex-vice de Futebol do Inter
  • Carlos Eduardo Marques, engenheiro do Inter
  • Arturo Affatato, empresário e irmão de Pedro Affatato
  • Paola Affatato, empresária e irmã de Pedro Affatato
  • Adão Silmar de Fraga Feijó, contador
  • Ricardo Bohrer Simões, empresário da construção civil
  • Carlos Alberto de Oliveira Fedato, empresário de futebol
  • Giuliano Bertolucci, empresário de futebol
  • Fernando Otto, empresário de futebol
  • Rogério Braun, empresário de futebol
  • Paulo Cezar Magalhães, ex-jogador e tio do ex-lateral do Inter de mesmo nome

As suspeitas de desvios no Inter se tornaram públicas em 2017, após um relatório de uma auditoria contratada pelo clube apontar indícios de irregularidades nas contas, como pagamentos por obras que nunca foram realizadas. Em dezembro do ano passado, o MP cumpriu mandados de busca e apreensão em vários endereços dos envolvidos e apreendeu documentos.

O quem dizem os denunciados

  • Vitorio Piffero, ex-presidente do Inter

Nei Breitman, advogado de Vitorio Piffero, diz que o ex-presidente não tinha conhecimento dos fatos que teriam ocorrido e que não há nada objetivo que comprove envolvimento dele.

  • Pedro Affatato, ex-vice de Finanças do Inter

Andrei Zenkner Schmidt, advogado do Pedro Affatato e dos familiares dele denunciados, diz que a defesa não teve acesso à denúncia e só vai se manifestar nos autos do processo.

  • Emídio Ferreira, ex-vice de Patrimônio do Inter

Não atendeu as ligações e e não respondeu as mensagens da reportagem.

  • Carlos Pellegrini, ex-vice de Futebol do Inter

Jorge Teixeira, advogado de Carlos Pellegrini, nega que seu cliente tenha recebido qualquer valor em negociação de jogadores do Inter e diz que isso será provado no decorrer do processo.

  • Fernando Otto, empresário de futebol

O advogado do empresário, Jonatas Silva de Souza, diz que a defesa vai se manifestar quanto tiver acesso à denúncia.

  • Giuliano Bertolucci, empresário de futebol

“Estou faz 25 anos no mercado e jamais tivemos qualquer problema nesse sentido. Cumpre esclarecer que compareci na audiência e prestei as informações que me foram solicitadas. Estou à disposição da Justiça para prestar todos os esclarecimentos necessários e deixar evidente que tudo que eu fiz, foi dentro da lei e dentro das normas tributárias vigentes”.

  • Rogério Braun, empresário de futebol

“Aury Lopes Jr, advogado do empresário, afirma que seu cliente não cometeu nenhum crime, é inocente e vai provar na Justiça. Ele afirmou ainda que o Ministério Público fez uma interpretação equivocada em relação as condutas de seu cliente”.

  • Paulo Cezar Magalhães, ex-jogador

Admite ter feito um depósito na conta de Carlos Pellegrini a pedido do ex-vice de Futebol, mas nega envolvimento em qualquer irregularidade e diz ter consciência tranquila.

  • Ricardo Bohrer Simões e Adão Silmar de Fraga Feijo

Rafael Ariza, advogado do empresário da construção civil e do contador, diz que a defesa deles vai se manifestar depois de ter acesso ao teor das denúncias.

Pedro Affatato, ex vice de Finanças Inter — Foto: Tomás Hammes / GloboEsporte.com
Pedro Affatato, ex vice de Finanças Inter (Foto: Tomás Hammes / GloboEsporte.com)

As denúncias foram apresentadas à 17ª Vara Criminal de Porto Alegre nesta terça-feira. Em entrevista coletiva na sede do MP, os promotores deram mais detalhes das investigações. A operação, batizada de “Rebote”, foi dividida em várias partes. Nesse primeiro momento, foram denunciados apenas as pessoas ligadas aos núcleos de finanças e patrimônio e futebol do clube.

De acordo com as investigações, em mais de 200 vezes, os denunciados usaram notas fiscais falsas e documentos fraudulentos para justificar obras que não foram realizadas e desviar recursos dos cofres do Inter. Pedro Affatato teria feito 145 saques diretamente na tesouraria do clube, no valor total de R$ 9,6 milhões, com a anuência do então presidente do clube.

“O regime era presidencialista. As decisões eram tomadas por ele (Piffero). Ele tinha ciência, era um presidente participativo, não era um presidente alheio. Nesses termos é que se considerou a participação dele como decisiva nos crimes que foram imputados na denúncia” (Flávio Duarte, promotor de Justiça)

– Conseguimos apurar uma série de circunstâncias a partir do que foi encaminhado pelo Inter. (As irregularidades) foram amplamente comprovadas e estendemos ao futebol, objeto de denúncia separada – disse o promotor Flávio Duarte, antes de falar sobre a participação de Piffero. – O regime era presidencialista. As decisões eram tomadas por ele. Ele tinha ciência, era um presidente participativo, não era um presidente alheio. Nesses termos é que se considerou a participação dele como decisiva nos crimes que foram imputados na denúncia – completou.

Emídio Ferreira teria desviado R$ 53,4 mil para sua conta pessoal e de sua empresa. Enquanto Carlos Pellegrini, ex-vice de futebol, obteve mais de R$ 230 mil como comissões para efetivar a contratação dos jogadores Paulo Cezar Magalhães (sobrinho do ex-jogador denunciado), Cláudio Winck, Alisson Becker, Ariel Nahuelpan e Réver.

Carlos Pellegrini, ex-vice de Futebol do Inter — Foto: Tomás Hammes
Carlos Pellegrini, ex-vice de Futebol do Inter (Foto: Tomás Hammes)

Entenda o caso

As investigações sobre as suspeitas de irregularidades no Inter começaram em 2017, no ano seguinte ao rebaixamento do clube para a Série B. Em abril, o Conselho Fiscal do clube emitiu parecer recomendando ao Conselho Deliberativo a reprovação das contas da gestão Piffero.

Em decisão inédita, o Conselho do clube acolheu ao parecer e reprovou as contas do clube, pela primeira vez na história. Na ocasião, o presidente do Conselho Fiscal Geraldo Costa da Camino pediu abertura de sindicância para apurar “graves falhas de controles internos” apontadas por uma auditoria externa.

Em setembro, um relatório sobre as finanças do Inter detectou uma “inconsistência” de R$ 9 milhões em contratos não realizados com cinco empresas do ramo de construção civil. O documento apontava o pagamento suspeitos para obras que não haviam sido realizadas. Os conselheiros criaram uma comissão especial para investigar os gastos na gestão anterior.

Mais de um ano depois, em decisão considerada histórica, o Conselho Deliberativo do Inter votou pela inelegibilidade de Piffero e outros três ex-dirigentes por 10 anos. O ex-presidente, o ex-vice de Finanças, Pedro Affatato; o ex-vice de Patrimônio, Emídio Ferreira; e o ex-vice de Administração, Alexandre Limeira, foram considerados culpados por gestão irregular e temerária no biênio 2015/2016.

Em dezembro do ano passado, o Ministério Público deflagrou a “Operação Rebote” e cumpriu mandados de busca e apreensão contra ex-dirigentes da gestão Piffero. Foram apreendidos documentos e outras informações que resultaram nas denúncias feitas pelo Ministério Público.

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