Moda do “ser saudável” estimula empreendedorismo vegetariano na Capital

Apesar de já serem 9% da população brasileira, cerca de 15 milhões de pessoas, segundo pesquisa do IBOPE, ser vegetariano nas grandes cidades ainda é sinônimo de desafio quando o assunto é encontrar comida pronta e boa quando bate a fome.

Foi justamente a falta de opções que levou as amigas vegetarianas Isadora Mayrink (24) e Stephani Guerra (27) acabarem tornando-se empreendedoras do ramo. Tocando há 3 anos a “Flor do Mato Cozinha Vegetariana”, as sócias contam que começaram meio ao acaso, depois que amigos as convidaram para vender quitutes veganos, sem derivados de origem animal em um evento, “Era difícil achar o que comer, então ou comia chipa, que é o de sempre, ou levava pronto de casa”, explica Stephani.

Depois desse dia vieram as encomendas de almoço, para atender cursos e eventos, e o com o crescimento da demanda, hoje elas já apresentam aos clientes um cardápio exclusivo com entrega delivery, de alimentos feitos sem ovos, leite, ou qualquer proteína de origem animal, “Nossos bolos doces são os mais procurados porque são os mais difíceis de encontrar”, observa Isadora. Ela corrige que o único produto em que usam matéria-prima animal é um bombom de mel, e que mesmo assim, se o cliente preferir, elas podem substituir por melado de cana, sem prejuízo no sabor.

Trabalhando na cozinha da própria casa, elas afirmam que a atividade já se tornou a base financeira das duas, e que apesar de contratempos encontram cada vez mais estabilidade. O desejo de se formalizar, por exemplo, esbarra na necessidade de ter um espaço próprio, o que segundo elas no momento é inviável, “Poderíamos até fazer um empréstimo, mas não podemos nos comprometer ainda. O trabalho paga seu custo e a mão de obra, mas ainda não trabalhamos com sobras”, avalia Isadora. Por este motivo elas decidiram trabalhar em outros empregos até conseguirem o dinheiro necessário.

“Ser saudável está na moda”

Há 30 anos no mercado de alimentação ovo-lacto-vegetariana, Alfredo Barbosa (67), já foi dono de restaurantes e loja de verduras orgânicas. Fundador do restaurante “Viva a Vida”, que hoje é administrado por suas filhas, ele conta que largou a carreira de pró-reitor de universidade quando viu a possibilidade econômica do setor. Tudo começou com licitações do governo que não encontravam empresas para fornecer alimentação em cursos de formação policial. Como sua irmã em São Paulo já era dona de um estabelecimento do tipo, ele teve a ideia de implantar o serviço na Capital, “Foi um passo arriscado na terra da carne você não acha? No início houve um pouco de resistência, mas fluiu!”, explica.

Alfredo acredita que o estímulo para o aumento do número de vegetarianos, e consequentemente de estabelecimentos, foi uma grande conscientização da necessidade de qualidade de vida, “Falamos de refeições mais balanceadas e menos preconceito com a soja e os grãos”.

Nos últimos anos, no entanto, ele explica que começou a servir duas opções de carne no buffet para abarcar mais clientela, “Em se tratando de negócios, como empreendedor eu tenho que achar soluções viáveis, não dá para ficar tão puro”. Servindo entre 200 e 250 refeições diárias, o público do restaurante ainda é 90% vegetariano, segundo Alfredo. Outra estratégia criada foi o cartão de fidelidade, onde a cada 10 refeições o consumidor tem direito a 1 grátis.

Com um perspectiva diferente, Isadora, afirma que o maior número das pessoas que procuram a ‘Flor do Mato’ não são as vegetarianas, “Ser saudável está na moda e isso agrega preço ao produto”, salienta. Em 2007 o Instituto de Pesquisa Ipsos divulgou que 28% da população brasileira pretendia reduzir o consumo de carne. Outro motivo, segundo ela, seriam as dietas de emagrecimento, a intolerância a lactose e alergia ao glúten. Mesmo sem dados oficiais, ela observa que grupos em redes sociais sobre vegetarianismo e veganismo, da Capital, tem se expandido de forma constante.

Superando mitos e tabus

No Estado onde impera a cultura da carne, dúvidas como ‘comida vegetariana é mais cara?’ ou ‘a pessoa pode ficar sem comer carne?’, vem aos poucos sendo superadas segundo a nutricionista Mariana de Souza, pela própria regra de oferta e procura, “O que se percebe é que existe mais procura e então aparecem mais fornecedores e assim o custo de algumas coisas que antes eram mais caras começam a se tornar mais acessíveis”.

Sobre a parte nutricional, ela explica que é totalmente possível viver sem carne, “Existem diversas fontes vegetais super interessantes que bem combinada dão todo o aporte proteico que a pessoa precisa”.

Luana Campos

 

 

 

 

 

 

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