Lourdes Rondon: Rainha de todos os carnavais

“Eu fui a moça mais feliz do mundo. E fui a mulher casada casada mais feliz do mundo. Pena que meu casamento tenha durado tão pouco tempo: só 35 anos!” A frase com que Lourdes Rondon, 90 anos, Miss Carnaval de Campo Grande de 1948, resumiu sua história em entrevista ao Página Brazil, fala muito sobre a personalidade contagiante desta testemunha da história de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Campo Grande.

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A foto do porta-retrato representa bem o espírito de Lourdes Rondon, 90 anos, Miss Carnaval de Campo Grande de 1948, testemunha de muitos “causos” da história de Mato Grosso uno, de Mato Grosso do Sul e Campo Grande, de ‘outros carnavais’. Foto: Silvio Ferreira

Extremamente lúcida aos 90 anos, dona Lourdes contou um pouco sobre as lembranças da vida em meio à natureza da fazenda na infância marcada pelos períodos das cheias do Pantanal; da educação católica em um colégio interno de São Paulo; a juventude entre Campo Grande e o Pantanal e a “brincadeira sem maldade” dos blocos carnavalescos da época. Já dancei até com um padre”, brincou dona Lourdes, frisando: “com a permissão e o olhar atento do marido”, fique bem claro.

Foto: Arquivo Pessoal

“Se dançar fosse pecado, eu ia morrer pecando”, brincou a rainha, que só deu uma pausa em sua frequência nos bailes da melhor idade dos quais sempre participou em Campo Grande, por conta de problemas de saúde, nos últimos dois anos. Pela energia de dona Lourdes, apenas um breve recesso.

Na conversa solta e gostosa com a senhora de 90 anos, de espírito alegre e entusiasmado, a Miss Carnaval de Campo Grande de 1948 falou sobre muitos assuntos além dos “assaltos” de Carnaval, termo usado na época para nomear cada dia ou noite da tradicional folia de origem europeia.

Infância e história: Dona Lourdes nasceu em 14 de março de 1925, em uma das mais famílias mais tradicionais do antigo Mato Grosso (que somente em 1977 viria a dividir-se nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul): a Rondon. O integrante mais ilustre da família, o militar e sertanista Cândido Mariano Rondon, foi responsável por uma das mais importantes etapas do processo de integração nacional, ao levar às regiões de fronteira do Centro-Oeste brasileiro a linha telegráfica que conectaria Mato Grosso e Goiás, ao resto do país.

A fazenda Rio Negro, patrimônio histórico de Mato Grosso do Sul, onde Lourdes Rondon nasceu e passou boa parte de sua vida – Foto Arquivo Pessoal

Os olhos brilham quando ela fala da fazenda Rio Negro, onde nasceu e cresceu: “Onde inclusive foi gravada a novela Pantanal” – fez questão de frisar – ao lembrar com orgulho da produção da extinta TV Manchete, líder absoluta de audiência e um marco da TV brasileira no início dos anos 90, que superava a até então imbatível Rede Globo. (Na ocasião, a exuberância das imagens – do Pantanal e de sua fauna -, foi exposta à exaustão pela novela que quebrava padrões da teledramaturgia brasileira, até então costumeiramente focada na realidade dos grandes centros e em novelas de época.)

“Fazenda que recebeu inclusive, o presidente Roosevelt [Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos entre 1901 e 1909], que esteve lá com o marechal Rondon. Foi a primeira fazenda que teve telégrafo. A primeira fazenda que teve campo de aviação. O primeiro avião que desceu lá foi um hidroavião. Enfim, meu Deus, a Rio Negro foi uma fazenda que marcou a vida do Pantanal”, lembrou nostálgica.

Um dos raros registros de seu reinado, com os trajes típicos de foliões da época - Foto Arquivo Pessoal

“Rainha do Carnaval” – Nas lembranças que fluem em uma velocidade impressionante dona Lourdes descreveu, falando sobre outros carnavais, “a paixão pela dança e pela alegria sem maldade, que não existem mais hoje”. Lembrou dos pais como “pessoas muito evoluídas”: “Eles nos acompanhavam com todo carinho, com todo o humor. E não havia essa maldade que há hoje em dia. A nossa casa vivia cheia de rapazes e moças porque meus pais acolhiam todo mundo de braços abertos. Então tivemos uma infância e mocidade maravilhosos.”

Dona Lourdes lembrou: “Meus pais vibravam com tudo aquilo que acontecia conosco. Eles nos acompanhavam com todo prazer. A gente sempre pedia, quando dançávamos com alguma pessoa desconhecida: ‘Passe por perto de mamãe’, porque ela adorava ver a gente dançando. Não havia maldade, não havia esconderijo, não havia tapeação naquele tempo. Era tudo muito aberto.”

Com o marido, Juracy  com quem, nas palavras de dona Lourdes: “fui a mulher casada mais feliz do mundo, apesar do pouco tempo que vivemos juntos: 35 anos”

Casamento – “Causo” após “causo” em uma conversa marcada por risos abertos -, dona Lourdes ressaltou várias vezes o quanto foi e é feliz. Contou que o marido, Juracy de Oliveira Pinheiro, era um “gentleman”, mas tinha ciúmes da esposa. Assim, seu ‘reinado’ como Miss Carnaval foi bastante discreto. “No baile [depois da coroação], ele me fez sentar de costas para o público”, revelou dona Lourdes. Ela revelou inclusive, que “a pedido do marido se desfez de boa parte das fotos da época”.

Por mais que possa soar exagerado hoje em dia, dona Lourdes faz questão de garantir que o ciúme do marido era compensado pelo grande amor, ao ponto de declarar:

“Depois que Juracy partiu [em 1986], eu achei que o mundo ia acabar, mas não acabou. Eu continuei vivendo. Da melhor forma possível.” E lembra, emocionada, que disse ao marido: ‘Meu bem, não se preocupe comigo, Deus me carrega no colo!’ ”

E carregou mesmo: A alegria que dona Lourdes descreve e transmite em sua vida tem mesmo algo de divina. “Graças a Deus, hoje eu sou muito feliz também, apesar da falta de meu marido e de meus filhos estarem todos longe: nos Estados Unidos, em Portugal, em Brasília e São Paulo e uma filha adotiva aqui em Campo Grande. Nós tivemos três filhos nascidos do meu ventre e criamos cinco filhos. Então, nós tivemos uma vida muito boa, graças a Deus!”

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O encontro com essa figura alegre e emblemática é mérito de outro ícone da história de Mato Grosso do Sul: o fotógrafo Roberto Higa. Responsável por um dos maiores acervos fotográficos sobre a história dos estados de MT e MS, em ‘garimpos’ de amigos também fãs da história Higa recebeu uma cópia de um jornal da época que falava da coroação da ‘rainha’. Foto: Ivan Silva

Super ativa, as atitudes do cotidiano falam muito sobre ela. “Na última vez que fui à praia”, contou, “plantei bananeira”. Detalhe: aos 88 anos. Antenada com as novidades tecnológicas, dona Lourdes tem perfil no facebook, usa Skype para falar com os filhos e ri bem alto quando brincamos que ela é “totalmente conectada”.

Sem vontade nenhuma de interromper a entrevista, tentamos – por conta do tempo limitado já que transmitíamos a entrevista ao vivo via aplicativo Periscope -, encerrar várias vezes, mas a conversa era contagiante. Afinal, paramos por ali, com um recado cheio de carinho da “rainha”. O consolo é que com a realeza tão conectada às redes sociais, seus súditos não precisam terminar as conversas por aqui.

Silvio Ferreira

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