Jovem com implante crânio-facial de titânio conta como superou acidente

Jéssica Alves Farias Cussioli, 23, recebeu o primeiro implante crânio-facial de titânio do Brasil no último dia 26 de maio. Ela foi submetida ao procedimento após cair de moto e bater a cabeça contra uma caçamba em setembro do ano passado, em Araçatuba, no interior de São Paulo, e ficar muito próxima da morte.

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Jéssica Alves Farias Cussioli, primeira a receber implante crânio-facial de titânio no Brasil Foto Enersto Rodruigues/Folhapress

A cirurgia foi feita no Hospital de Clínicas da Unicamp, em Campinas, e criou um novo protocolo para os médicos e agora deve ser realizada em outros hospitais do país. Agora a jovem quer retomar sua vida, terminar a faculdade e dar seu testemunho. Ela teve alta na última quarta-feira (3).

DEPOIMENTO

Passa um filme na minha cabeça quando lembro do acidente. É o filme de um milagre. Eu estava indo para a faculdade de manhã, no dia 5 de setembro, e tinha um buraco na rua, antes da caçamba. Passei pelo buraco e desequilibrei com a moto. A caçamba estava mal posicionada, estava no meio da rua. Foi onde eu bati. Eu estava de capacete, mas ele rachou.

Eu sinto medo de lembrar do acidente. Bem na hora, passava o neurocirurgião da minha cidade [Rodrigo Mendonça]. Ele me socorreu, chamou o Samu. Ele que fez a primeira cirurgia. Se não fosse o doutor Rodrigo passando na hora, eu não teria sobrevivido. Ele estava atrasado para uma cirurgia na Santa Casa.

O paciente já estava na mesa da cirurgia, mas ele cancelou tudo para me atender.

Tive fratura do crânio, da parte orbital e facial. Lesionei o nervo ótico. Perdi a visão do olho direito e tudo isso lesionou a [artéria] carótida. Por isso, na cirurgia tive um AVC (acidente vascular cerebral). Os médicos agiram rápido para estancar a hemorragia da artéria. Era tudo ou nada.

MILAGRE

Acordei no hospital depois de quatro dias em coma. Fiquei dez dias na UTI (unidade de terapia intensiva). Foram 30 dias de hospital.

Acordei bem desorientada. Não sabia onde estava, o que estava acontecendo. Foi quando minha mãe [a enfermeira Evanir Alves Farias Cussioli, 44] me contou que eu tinha sofrido um acidente. Ela conversava comigo, eu ouvia e fazia sinais de que estava bem.

Mas, logo depois da cirurgia, os médicos disseram que eu não ia sobreviver. Disseram que eu tinha 2% de chance e que, se eu sobrevivesse, ia ficar em estado vegetativo, porque tive perda de massa encefálica. Mas foram muitas as orações. Um milagre aconteceu na minha vida.

Tenho plena convicção de que a minha recuperação foi um milagre de Deus. Por que justo naquele dia ele [médico] estava atrasado, naquela hora, passando logo depois de mim?

Não é fácil passar pelo que eu passei. Durante a recuperação, tive muita dificuldade. Por mais que Deus tenha feito um milagre na minha vida, a gente se pergunta ‘por que aconteceu comigo?’.

Mas agora a coisa que eu mais penso é em me recuperar, ter a minha vida de volta. Porque ela foi interrompida por um acidente, uma fatalidade. Quando recebi alta do hospital, sentia fortes dores na cabeça pelo trauma. Só eu sei o que eu passei.

Além da questão estética, tinha uma questão maior, funcional. O médico disse que as dores só passariam com uma cirurgia de implante. Passava muito mal com as dores, vomitava… Então, a questão mais importante para mim não era a estética. Era fazer a cirurgia para passar as dores.

Tinha a opção do cimento ortopédico, com reconstrução manual. Mas minha mãe começou a pesquisar e descobriu a Biofabris (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biofabricação, sediado na Unicamp). Ela mandou e-mail, eles responderam e começou todo o processo.

Como a gente já tinha tudo, raio-X, tomografia 3D, um molde do crânio, o processo foi rápido. Foram duas consultas e fizemos a cirurgia agora, no dia 26.

ESPERANÇA

A prótese são três placas de titânio que foram parafusadas nos meus ossos.

Fiquei bem ansiosa com a cirurgia, mas fiquei feliz, porque eu estava sofrendo muito com as dores. Nos minutos antes da cirurgia eu só pensava: ‘tomara que dê certo!’.

Mas, lá no fundinho, estava com medo, com frio na barriga. Foram oito horas de cirurgia. Era para ser menos, mas tive um inchaço na cabeça. À noite, porém, voltei para a cirurgia depois que os médicos detectaram uma hemorragia. Agora estou bem.

Já tive alta e estou me recuperando. Só sinto uma dorzinha onde foi feita a cirurgia.

Agora sou a famosa cabeçuda, cabeça dura.

Tudo o que eu quero agora é melhorar e retomar minha vida. Quero terminar a faculdade de psicologia. Eu estava no último ano, faltavam dois meses para me formar.

Quero também voltar a trabalhar. E vou dar palestras, dar meu testemunho, que é um testemunho de vida.

Folha.com

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