Inadimplência de idosos é a que mais cresce, segundo Banco Central

Jovens nas faixas dos 20 e 30 anos são maioria nos cadastros de maus pagadores do país, mas é entre os idosos que os negativados mais crescem. Empréstimo consignado para ajudar famílias está entre os vilões no endividamento do brasileiro

Endividamento entre idosos é o que mais cresce, segundo Banco Central – Foto: Arquivo

Em tempos de recessão, desemprego em alta e salários comprimidos pela inflação resistente, poucos conseguem escapar das dívidas e das contas em atraso. Hoje, um quarto da população do país engrossa os cadastros de devedores inadimplentes, apontam os serviços de proteção ao crédito. Segundo o Banco Central (BC) só para o setor bancário os brasileiros devem R$ 1,4 trilhão. Mas, afinal, quem é esse devedor? A cara da dívida é híbrida. Enquanto os jovens são os responsáveis pelo maior volume de endividamento, é entre os idosos que ele mais cresce.

Dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) revelam 56,5 milhões de inadimplentes, no país, o que representa 38,6% da população na faixa dos 18 aos 95 anos. Jovens entre 18 e 39 anos detêm mais de 53% das contas em atraso, e 29,15% desse total está entre os que têm mais de 30 anos. “Nessa fase da vida os gastos como a compra de imóveis, carros e despesas com os filhos são bastante consideráveis”, justifica a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti.

As pendências atribuídas a idosos entre 85 a 94 anos, contudo, foram as que mais cresceram na comparação anual, com variação de 10,18%. Na faixa dos 65 aos 84 anos, a inadimplência aumentou 9,10%, o segundo resultado anual mais alto da pesquisa. “Desde o início da série histórica, essas dívidas têm altas taxas de crescimento. Houve uma mudança no padrão de qualidade de vida”, destaca Marcela. “Os mais velhos estão gastando mais e têm mais facilidade de tomar empréstimo consignado com as aposentadorias.”
Os números também revelam uma atitude condenada por especialistas em finanças pessoais: os idosos estão emprestando mais o nome para familiares conseguirem crédito barato no consignado. A manobra é responsável por 13% da inadimplência, atrás apenas do desemprego (31%) e do descontrole financeiro (28%), segundo pesquisa da Boa Vista Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). O estudo também aponta que 62,7% dos inadimplentes que pagam suas dívidas voltam a atrasar as contas depois de um ano.

Provedores
Um levantamento inédito da Serasa Experian, com base na segmentação Mosaic Brasil, que leva em conta 11 grupos dominantes da sociedade brasileira, mostra que entre as pessoas acima de 60 anos, cerca de um terço é chefe de família e sustenta os gastos da casa no país, o que justificaria o aumento da inadimplência em um momento em que a economia nacional passa por uma grave crise. Nessa segmentação, o jovem adulto da periferia surge como o maior devedor brasileiro, com uma participação de 28,27% no total nacional.

De acordo com a Serasa, 55,6 milhões de brasileiros devem mais de R$ 234 bilhões, com inadimplência média de R$ 4,2 mil, número muito próximo do registrado pelo SPC Brasil. O superintendente da SerasaConsumidor, Júlio Leandro, explica que a inadimplência é maior entre jovens da periferia, “que são mais impulsivos, têm desejo de consumir, de impressionar, mas têm salários mais baixos e ainda são imaturos”.

A segunda categoria com mais dívidas não pagas (19,08%), de acordo com o Mosaic Brasil, são os trabalhadores urbanos, jovens adultos de até 35 anos, em início de carreira e, portanto, com salários ainda baixos. “Esse grupo está lutando para se firmar e não tem situação tão confortável, embora tenha mais maturidade”, diz Leandro. A lista segue com adultos estabelecidos (12,35%), entre 30 e 60 anos, com boa escolaridade e que atingiram um padrão de vida relativamente confortável. “São os chefes de família, com todo o peso e responsabilidade da classe média, colégio, carros. Este perfil tem tendência a se endividar”, afirma o superintendente do SerasaConsumidor.

Em quarto lugar estão empresários na faixa dos 25 aos 55 anos. “O problema com essa categoria são os empreendimentos pequenos, cujas finanças se confundem com as pessoais. Há risco e vontade de vencer, o que faz a tomada de crédito às vezes passar do limite”, avalia Leandro.

Nome sujo
Estar endividado, no entanto, é diferente de ter o nome sujo no mercado e pode ser um bom negócio. Trocar o aluguel por um financiamento de 20 anos da casa própria, por exemplo, é um excelente investimento. “Os números do BC continuam subindo se considerar o crédito habitacional, que é de longo prazo e com juros mais baixos. Já os empréstimos começam a cair porque o crédito está mais restrito, há retração no consumo, queda nas vendas”, compara Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC. Mas se o assunto é dívida em atraso, a tendência é de alta. “E o quadro vai se deteriorar até o fim do ano, porque estamos num período de desemprego, recuo na renda e alta de juros”, afirma Calife.

Desempregado desde setembro, Júlio Ricardo Mendes, 41, havia comprado uma tevê a prazo e atrasou uma das prestações de R$ 150. Pagou mas continuou com o nome no SPC. “Por o nome na lista é rapidinho, mas para tirar é uma enrolação”, desabafa.

A economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC) Marianne Hanson assinala que, embora o percentual de famílias com dívidas tenha recuado, de 62,4% em maio para 62% em junho, as contas em atraso estão subindo. E o que é mais preocupante: o número de famílias afirmando que não terão condições de saldar os compromissos aumentou. “O custo de vida subiu, o mercado de trabalho se deteriorou e a renda caiu. Quando a família contrata crédito, compromete renda. Se a inflação sobe, sobra menos para pagar”, diz Marianne.
Insegurança

Com a alta do custo dos serviços básicos, é entre esse tipo de despesa que está ocorrendo o crescimento da inadimplência, revela Marcela Kawauti, do SPC Brasil. “Os brasileiros estão devendo mais a serviços como água, luz e telefone”, afirma. É o caso do copeiro Luis Carlos Gomes, 33, que teve o nome incluído no SPC por não pagar uma conta de telefone, de R$ 67. Assustado com o aumento dos preços, ele conta que nem usa mais o cartão de crédito. “Hoje, nunca se sabe se o emprego vai estar lá amanhã”, reflete.

Fonte: Correio Braziliense

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