Imigrante russo agradece as primeiras ajudas recebidas

Depois da entrevista publicada pelo Página Brazil no dia 29 de maio, que contou a história da família do russo, técnico em eletrônica, computadores e sistemas de segurança, Vladimir Trubinov (42), várias famílias campo-grandenses e até de outros estados, sensibilizadas com a história, procuraram ajudar os imigrantes. Desde 2011 a família russa tem peregrinado entre a terra natal, Israel e Brasil em busca por tratamento médico para Timoteu Trubinov (9), filho mais velho do casal Vladimir e Olga (36).

Vladimir Trubinov e a filha Abigail
Vladimir Trubinov e a filha Abigail Trubinova, de 2 anos, que nasceu na cidade bíblica de Nazaré, em Israel – onde Jesus viveu cerca de 30 anos -, durante a peregrinação da família russa em busca de tratamento para o filho mais velho da família Trubinov – Foto: Silvio Ferreira

Durante a entrevista, a segunda filha do casal Trubinov, a bela Abigail Trubinova, de dois anos, tímida e muito apegada ao pai, permaneceu o tempo todo no colo de Vladimir. Foi difícil conseguiu tirar algumas fotos da pequena de belos olhos azuis, que nasceu na cidade bíblica de Nazaré, em Israel, durante o período em que a família Trubinov permaneceu naquele país tratando o filho.

Babel – Vladimir contou ao Página Brazil que apesar da boa vontade dos brasileiros, a barreira linguística ainda atrapalha muito. De acordo com Nancy Teodoro de Souza (conhecida da família russa, que disponibilizou os números de telefones para o contato de pessoas interessadas em ajudar na reportagem anterior), “um comerciante do Mercadão Municipal entrou em contato para oferecer trabalho para o Vladimir, mas senti que ele hesitou um pouco ao saber que o Vladimir não fala nem inglês”, contou.

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Nos braços do pai, uma fração de segundo em que a tímida Abigail Trubinova se deixou fotografar – Foto: Silvio Ferreira

Nancy informou ainda que “outras pessoas entraram em contato para a doação de roupas, de uma geladeira e de uma cama, mas ainda não foi possível receber as doações porque nem a família, nem nós temos condições de buscá-las”, lamentou.

“Uma pessoa de São Paulo ligou interessada em fazer uma doação em dinheiro”, contou Nancy. “Outras pessoas têm entrado em contato. Estou aguardando um currículo do Vladimir para encaminhar para outro interessado em lhe oferecer um trabalho”, contou a filha de Nancy, Talita Teodoro de Souza. 

Se depender do russo, o problema com a Língua Portuguesa vai deixar de existir em breve: “Eu quero muito aprender logo a falar português para não perder a oportunidade de trabalhar, porque eu quero ficar no Brasil”, falou entusiasmado. “Não acredito em coincidências e se Deus nos trouxe até Campo Grande é porque Ele quer que eu realize algo importante aqui”, declarou cheio de fé.

IMG_20150606_091733Na vila de kitnets modestas na região da Vila Jacy, em Campo Grande, Vladimir contou que “ao mesmo tempo em que várias pessoas têm procurado a família para ajudar – como o religioso adventista que alugou a casinha por um ano para a família e ainda pagou pelo primeiro mês – outros parecem se aproveitar da dificuldade da família”, disse constrangido. “Por três vezes, entrei em contato com a imobiliária responsável pela casa que aquele senhor alugou para gente”, contou Vladimir. “A casa tem buracos nas telhas e quando chove começa a chover dentro. Ligamos para a imobiliária pra tentar resolver o problema, que mandou funcionários três vezes aqui para consertar. Eles vêm, ficam por aqui, dizem que consertaram e vão embora, mas depois chove de novo e continua tudo igual”, lamentou o russo, ao constatar que nem tudo são flores por estas plagas.


Repercussão nas redes sociais – Pelas redes sociais, alguns leitores do Página Brazilinclusive de origem russa, agradeceram a quem se dispor a ajudar seus compatriotas e ainda pediram meios de contato direto com a família. Eglon Pietrowski, de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que é de origem russa, chegou a propor que Vladimir e a família mudem para o Sul do País: “Ele não fala português. Em Santa Maria tem tudo para que ele possa trabalhar”, propôs.

A leitora Kristina Kazantseva, também de origem russa, escreveu: “agradecemos muito a Página Brazil por ter publicado esta matéria. Estamos em São Paulo e pedimos aos moradores de Campo Grande que ajudem a família de Vladimir”. O leitor Genaldo Souto, que também é do estado de São Paulo, lembrou que o relato da luta da família Trubinov apresenta um dilema comum ao enfrentado por um grande número de refugiados no Brasil: “Aqui em São Paulo, por exemplo, bolivianos, peruanos e haitianos, nigerianos, chineses etc e mesmo comunidades inteiras [passam por situações semelhantes], mas nos comove ver um pai de família em busca de tratamento para seu filho, por trabalho, abrigo e um pouquinho da paz”. Genaldo ainda parabenizou “o ucraniano Oleg Kuhtinov por ter estendido os braços a um irmão russo” e finalizou dizendo acreditar que “Deus usará todo aqueles que se dispuserem a colaborar com essa família, independente de sua condição financeira ou social”.

Doações – Orientado pela família de descendentes de japoneses que ajudou a família a deixar a fazenda no Interior do Estado – em que Vladimir e a família ficaram por meses, próximo à fronteira com o Paraguai, como relatado na reportagem anterior -, Vladimir conseguiu abrir uma conta bancária. O serviço é disponibilizado para refugiados pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal. O número da conta bancária está em destaque no final desta reportagem, para quem quiser ajudar à família Trubinov.

 

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Os Trubinov: Timoteu (9), Vladimir (42), Abigail (2), Olga (36) e a caçula campo-grandense, Elisabeta, que nasceu no dia 16 de maio – Foto: Oleg Kukhtinov

Entendendo o caso – A família Trubinov trilhou um caminho cheio de percalços desde a Rússia, de onde saiu em abril de 2011 para buscar tratamento em Israel, para o filho Timoteu Trubinov (9), que é autista. Os altos custos dos tratamentos, assim como o final da validade do visto de permanência e dos recursos para o tratamento do filho no país do Oriente Médio, fizeram com que a família russa voltasse ao seu país de origem. E depois viajasse para o Brasil, onde oa pais de Timoteu ouviram falar que seria possível tentar tratar o filho na rede pública de saúde.

Chegando ao país a família Trubinov conheceu um casal de paulistas. Eles os convidaram a morar por um período em uma fazenda em Mato Grosso do Sul. Lá, os russos relataram terem sido mantidos em condições análogas às de trabalho escravo.

Na primeira oportunidade que tiveram, deixaram a fazenda próxima à fronteira com o Paraguai com a ajuda de uma família de descendentes de japoneses, que os trouxeram à Campo Grande, em meados de janeiro. Na capital, foram acolhidos primeiro por religiosos católicos e depois por um adventista, que os ajudaram a, respectivamente, encontrar um abrigo temporário e finalmente alugar uma kitnet na Vila Jacy, região Sul da capital.

Em Campo Grande, a esposa de Vladimir, Olga deu a luz ao terceiro filho do casal, Elisabeta Trubinova, no dia 16 de maio. Com o nascimento da caçula em território brasileiro, a família Trubinov espera obter o visto de permanência definitivo no país, que já havia sido solicitado à PF em São Paulo, através de um pedido de refúgio.

Refúgio
– Outra leitora do
PaginaBrazil, Vlada Correa, que vive em Brasilia e é de origem ucraniana, questionou a justificativa dada pela família Trubinov para o pedido de refúgio, com base na crise Rússia-Ucrânia, já que “a cidade de Norilsk situa-se a cerca de 240 km ao norte do Círculo Polar Ártico e a Crimeia, na costa norte do Mar Negro”, ponderou.

De fato: em se tratando de Rússia, quase todas as distâncias são gigantescas (o país tem o maior território do planeta, cobrindo mais de um nono da superfície terrestre). A distância entre Norilsk e Kiev (capital da Ucrânia) é enorme: 3.602 km. Entre Norilsk e Simferopol (capital da Crimeia) é maior ainda: 3.984 km.

Assim, é provável que o movimento separatista na Crimeia nunca se alastre ao ponto de levar um conflito armado para a região. O conflito gerou uma crise diplomática envolvendo os países que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Rússia, em decorrência das acusações de que a Moscou financiou e armou os separatistas. Mas vendo a pequena Abigail em paz no colo do pai, no parque Elias Gadia, em Campo Grande, há poucas quadras de onde a família russa conseguiu encontrar uma casinha modesta, onde eles tem esperado com fé por uma oportunidade de emprego, não é difícil entender os motivos dos Trubinov. Para quem viveu ou vive em países beligerantes, a possibilidade de viver o resto da vida em um país – que apesar de todos os problemas crônicos que tem o Brasil – não tem esse perfil, deve ser bem animadora.

Mais uma vez contamos com a ajuda do ucraniano Oleg Kukhtinov. O professor de russo e inglês, que deixou seu país há pouco mais de cinco meses para buscar refúgio no Brasil, depois de testemunhar massacres cometidos durante a guerra civil na Ucrânia. Oleg continua sendo praticamente o único canal de comunicação da família russa com os brasileiros. Com a ajuda do ucraniano, o russo Vladimir voltou a agradecer aos leitores do Página Brazil“A Palavra de Deus diz que aquilo que o homem semear, ele colherá. Peço a Deus que abençoe muito a quem puder nos ajudar”, concluiu.

Serviço

Quem quiser entrar em contato com Vladimir Trubinov, pode enviar um e-mail para: [email protected] Doações podem ser feitas na conta:

Vladimir Trubinov
Banco do Brasil
agência: 3321-9
conta-corrente: 56.761-2

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