Humanidade já usou todos os recursos da Terra para este ano

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Queimada em Apuí, no Amazonas: Desta segunda, 29, em diante, a natureza não consegue mais regenerar ainda este ano tudo o que a humanidade consumir (Foto: Bruno Kelly/Reuters)

A partir desta segunda-feira, 29, a humanidade passará a consumir mais recursos do que a Terra pode produzir neste ano sem ônus ao meio ambiente. Em 2019, o limite foi atingido ainda mais cedo do que em anos anteriores, segundo cálculo realizado pela organização Global Footprint Network.

O chamado Dia de Sobrecarga da Terra (Overshoot Day) é calculado anualmente pelo think tank americano. Ele marca a data exata em que os recursos naturais produzidos pelo planeta não são mais suficientes para suprir o consumo da humanidade e absorver os resíduos produzidos.

A Terra atingiu pela primeira vez a sobrecarga em 1970, no dia 29 de dezembro. Desde então, a data se antecipa no calendário a cada ano.

Em 2019, o limite bateu um recorde: 29 de julho. No ano passado, a barreira dos recursos foi atingida em 1º de agosto. Há 10 anos, o dia da sobrecarga foi em 18 de agosto; 20 anos atrás, em 29 de setembro.

“Eu gosto de usar a analogia do cheque especial: imagine que você receba todo seu salário anual em janeiro e gaste tudo nos primeiros meses”, explica Renata Camargo, especialista em Conservação do WWF-Brasil, organização parceira da Footprint Network. “A partir de hoje, excedemos nossa capacidade natural e entremos no vermelho, estamos em dívida com o planeta.”

As consequências de entrar no cheque especial do planeta são graves. Escassez de água potável, erosão do solo, perda de biodiversidade e acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera são apenas alguns dos resultados do esgotamento gradativo dos recursos da Terra.

Há ainda os efeitos que são mais facilmente perceptíveis no dia a dia do planeta, como secas mais severas, grandes inundações e aumento na quantidade e intensidade dos incêndios florestais ou furacões.

“Há também grandes consequências do ponto de vista social e econômico”, diz Renata. “Além das perdas humanas, podemos esperar cada vez mais perda de safras, preços mais altos dos alimentos, maiores chances de contrair doenças e perda de bens.”

O cálculo 

Para se chegar a data exata do Dia da Sobrecarga, a Global Footprint Network calcula o número de dias exigidos da biocapacidade da Terra (a quantidade de recursos ecológicos que o planeta é capaz de gerar naquele ano) para atender as necessidades da população.

Para elaborar essa estimativa, é usado o conceito da pegada ecológica da humanidade, que mede a quantidade de área terrestre e marinha necessária para produzir todos os recursos consumidos por uma população e para absorver seus resíduos.

Segundo a ONU, para manter o mesmo padrão de consumo atual da humanidade, seria necessário usar 1,75 planeta Terra todos os anos.

Projeções moderadas para o aumento da população e do consumo indicam ainda que em 2030 precisaríamos da capacidade de duas Terras para acompanhar nosso nível de demanda por recursos naturais.

O WWF-Brasil calcula ainda que se for possível postergar o Dia de Sobrecarga da Terra em 5 dias a cada ano, em menos de três décadas a humanidade estará dentro dos limites do planeta.

Brasil

O cálculo também é feito para os países: quando o Dia da Sobrecarga da Terra cairia se toda a humanidade consumisse como as pessoas daquela nação. No caso do Brasil, atingiremos nosso limite em 31 de julho.

Para efeito de comparação, o México ultrapassará a barreira dos recursos naturais em 17 de agosto e a Argentina chegou neste ponto na última sexta-feira, 26 de junho.

Já o Qatar, o último da lista, atingiu o limite logo no começo do ano, em 11 de fevereiro.

Em várias partes do mundo, o principal fator de pressão para a exploração desenfreada dos recursos naturais é o crescente nível de consumo, mas no caso brasileiro o problema está na acentuada queda na biocapacidade.

O Brasil atinge seu limite cedo por conta da destruição de seus próprios recursos naturais com o desmatamento de florestas, Unidades de Conservação (UC) e reservas indígenas.

O desmatamento na Amazônia subiu 88% em junho em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foi devastada uma área de 920,4 quilômetros quadrados. Em 2018, o valor era de aproximadamente 488 quilômetros quadrados.

O WWF-Brasil alerta que a percepção de que o Brasil é país que mais preserva o ambiente no planeta é equivocada. Segundo a organização, é necessário implementar com mais rigor as regras de proteção ambiental construídas ao longo das últimas décadas, as quais ainda são muito frequentemente deixadas de lado.

Em 2018, o Brasil atingiu seu limite ainda mais cedo do que neste ano, em 19 de julho. O cálculo que definiu a data de sobrecarga de 2019 não levou em conta os índices de desmatamento registrados nos primeiros meses do ano atual.

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