Homem diz que matou 90 mulheres e é maior assassino dos EUA

THE NEW YORK TIMES

Samuel Little confessou ter executado mulheres em vários Estados nos anos 80 e 90, fornecendo detalhes para que só o serial killer seria capaz de saber; investigadores dizem que vítimas eram torturadas e estranguladas

Quase diariamente, durante semanas, um homem de cabelos brancos, coração fraco e corpo arruinado pela diabete foi levado em cadeira de rodas de sua cela de prisão no Texas para a sala de interrogatório. Ia fortemente escoltado. Seus crimes eram muitos.

Samuel Little, de 78 anos, cometeu mais de 90 assassinatos numa sequência que começou, segundo investigadores, há quase meio século. Ele é o maior serial killer da história dos EUA.

Samuel Little ao deixar tribunal em Odessa, no Texas: serial killer americano com mais de 90 mortes Foto: Mark Rogers/Odessa American via AP

Dia após dia, o homem deu detalhes de assassinatos cometidos anos e anos atrás. Descreveu rostos, lugares, diagramas de cidadezinhas. Contou como seduzia mulheres vulneráveis em bares, boates e ruas e as estrangulava no banco traseiro do carro.

Samuel Little já cumpre três penas de prisão perpétua pela morte de três mulheres em Los Angeles nos anos 1980, mas a polícia suspeita que tenha assassinado mulheres em pelo menos 14 Estados. Os policiais disseram que já foi provada sua participação em cerca de 30 assassinatos – e não têm motivos para duvidar de suas confissões.

“Podemos adiantar que, quando tivermos acabado, Samuel Little estará confirmado como um dos maiores serial killers da história americana”, disse Bobby Bland, promotor distrital do Condado de Ector, no Texas, onde Little está preso.

Até agora, o serial killer Gary Ridgawy, o Matador de Green River, é o detentor do maior número de condenações por assassinato na história dos EUA: 49. Seus crimes foram cometidos em Washington nos anos 1980/90.

É difícil imaginar como um assassino em série segue matando durante anos sem que ninguém tenha conseguido estabelecer um padrão sobre seu modo de agir. Talvez seja porque mesmo os mais eficientes departamentos policiais dos EUA solucionem apenas três quartos dos homicídios, o que significa que milhares de assassinos escapam sem punição a cada ano. Além disso, os crimes que Little confessou foram cometidos em muitas cidades e Estados. Acrescente-se que as mulheres mortas eram na maioria pobres, muitas delas alcoólatras e viciadas em drogas, pessoas que às vezes desaparecem sem que ninguém dê por sua falta.

Amostras de DNA coletadas ao longo dos anos pelo sistema judiciário foram os primeiros indícios que ligaram Little a mulheres assassinadas. Mas o grande avanço nas investigações ocorreu neste ano, quando um policial estadual do Texas chamado James Holland visitou Little e ganhou sua confiança. As confissões começaram então a jorrar, levando à transferência do matador para o Texas e a interrogatórios sobre antigos casos não solucionados.

Parte do ímpeto confessional de Litte se deve, segundo investigadores, ao fato de ele preferir uma cela tranquila no Condado de Ector ao ambiente geralmente caótico das prisões de Los Angeles. Os investigadores acrescentaram que Little também parece estar gostando das atenções que desperta ao revelar fartos detalhes de crimes cometidos há décadas – detalhes que somente o assassino poderia conhecer.

A Justiça do Texas não permitiu que Little fosse ouvido para esta reportagem. À medida que se passavam as semanas e novos casos e detalhes eram revelados, mais de uma dezena de investigadores, além de agentes do FBI (polícia federal americana), foram aoTexas para falar pessoalmente com Little.

Segundo as autoridades, ele não dá sinais de remorsos ao falar dos assassinatos. E fornece detalhes precisos, como sobre um local em que desovou corpos anos atrás: uma lixeira debaixo de uma nogueira, perto de um chiqueiro.

Os investigadores disseram que ele está perfeitamente consciente de suas ações e às vezes até brinca sobre os crimes. Outras vezes, fala tão rapidamente e com tanto entusiasmo que os interrogadores têm dificuldade em entender.

Samuel Little ao deixar tribunal em Odessa, no Texas: serial killer americano com mais de 90 mortes Foto: Mark Rogers/Odessa American via AP

“Em nossas carreiras, só nos defrontamos com o verdadeiro mal algumas poucas vezes”, disse Tim Marcia, detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles especializado em crimes não solucionados (“cold cases”). Ele interrogou Little sobre as três mulheres mortas por na cidade nos anos 1980. “Ao olhar nos olhos de Little, vi o mal em seu estado puro”, afirmou o detetive.

As investigações sobre Little começaram em 2012, quando Marcia e sua parceira, a detetive Mitzi Roberts, localizaram o fugitivo em um abrigo para moradores de rua no Estado de Kentucky. Seu DNA havia batido com o encontrado em duas mulheres assassinadas em Los Angeles nos anos 1990.

Até 2012, Little havia cumprido menos de 10 anos de prisão, embora tivesse sido preso cerca de cem vezes em vários Estados nas últimas décadas. As acusações contra ele incluíam rapto, estupro e roubo à mão armada.

“Ele foi preso e solto inúmeras vezes”, disse Beth Silverman, a promotora do Condado de Los Angeles que conseguiu as três condenações contra Little. “Muitos departamentos de polícia falharam ao investigá-lo.”

Em outubro, o sargento Michael Mongeluzzo, detetive do Condado de Marion, Flórida, interrogou Little sobre o assassinato de Rosie Hill, de 20 anos, em 1982 (Little confessou o crime). Mongeluzzo ficou assombrado com a capacidade do assassino de lembrar detalhes de um crime ocorrido 36 anos antes. “Ele se lembrou com clareza de lugares, nomes, rostos. Foi assustador.”

Segundo detetives, Little é um “psicopata carismático” que surrava brutalmente suas vítimas antes de estrangulá-las. Ex-pugilista, ele batia com tanta força que uma vez, ao dar um soco no estômago de uma das vítimas, quebrou-lhe a espinha.

Durante o interrogatório, Mongeluzzo perguntou como Little conseguiu driblar a prisão por tantos anos.“Em meu mundo, ninguém me incomodava”, disse o serial killer, referindo-se a bairros nos quais pobreza, drogas e assassinatos não solucionados são rotina. “Já no seu mundo, não me arrisco.”

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