Esquema de corrupção de João Amorim envolve empresa até na Europa

Investigações da Polícia Federal pela operação Lama Asfáltica mostram que Elza Cristina Amaral, secretária do empreiteiro João Amorim, chegou a sócia de várias empresas do grupo, inclusive na Europa, em menos de cinco anos. Elza é apontada como a operadora financeira do esquema e, segundo a PF, era ela quem pagava propina para servidores públicos favorecerem os negócios do grupo.

Elza Amaral pagava propina para servidores públicos (Foto: Reprodução TV Morena)
Elza Amaral pagava propina para servidores públicos (Foto: Reprodução TV Morena)

O advogado de João Amorim, Benedicto de Figueiredo, disse à TV Morena que não vai se pronunciar. A TV Morena tentou contato com os citados nesta reportagem, mas não obteve retorno.

A responsável pelo cafezinho mais cobiçado de Mato Grosso do Sul. É assim que Elza Amaral, secretária da Proteco Construções, é conhecida entre servidores públicos da prefeitura e do estado. Acontece que o café, para os investigadores da operação Lama Asfáltica, é a senha para propina. Elza é considerada, pela polícia, a operadora financeira dos negócios do empreiteiro.

Elza Amaral: (risos) Rapaz, tô numa correria sem fim. Mas eu estou aqui na empresa, vem tomar um café.

Marcos Puga: Eu vou dar uma passada daqui a pouco aí.

Elza Amaral: Tá OK então. Tô te esperando. Um abraço, tchau.

Segundo o relatório da investigação, essa gravação telefônica mostra Elza convidando o fiscal terceirizado da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul) Marcos Puga para ir até a sede da Proteco receber propina. A gravação foi feita no dia 7 de janeiro. No mesmo dia, Puga foi à sede da empreiteira e, na saída, foi interceptado pelos agentes. Na revista ao veículo, foram encontrados R$ 20 mil em dinheiro.

Elza entrou para o grupo em 2002, como secretária da Proteco. Em 2007, ela se torna uma das sócias da empresa de João Amorim. De acordo com a PF, tempos depois ela também se torna sócia de outra empresa denominada Ask Consultora Financeira. Na sequência, ela constituiu empresas na Holanda.

São duas offshores com sede em Amsterdam, a Arklyleius e a Kamerof. A primeira detém 99,5% do capital social da segunda. A polícia informa que Elza nunca viajou para a Holanda.

Conforme a investigação da PF, a criação dessas empresas fora do país foi uma artimanha criada pelo grupo de João Amorim para enviar ilegalmente recursos para o exterior. Como essas empresas atuam geralmente em operações de grande volume de dinheiro, a hipótese é que sejam usadas para operar recursos públicos.

Na outra offshore, Kamerof, o sócio de Elza é João Baird, que já foi condenado em 1999 por desvios de mais de R$ 1,28 milhão do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).

O empresário é dono da Itel, responsável por toda a informática da prefeitura de Campo Grande. Em nome dele está um jatinho usado por João Amorim. Os policiais acreditam que o empreiteiro seja o verdadeiro dono da aeronave. Quem cuidou de toda a documentação do avião foi Elza Amaral.

Escutas

No dia 23 de julho, o MSTV 1ª Edição divulgou diálogos de João Amorim com Osmar Jeronymo, então chefe da Casa Civil na gestão do ex-governador André Puccinelli (PMDB) e atual conselheiro do TCE/MS (Tribunal de Contas do Estado), e Edson Giroto, ex-secretário estadual de Obras Públicas e de Transportes.

Também no dia 23, o MSTV 2ª Edição divulgou gravações que revelam Puccinelli e o ex-secretário-adjunto estadual de Fazenda André Luiz Cance falando sobre esquema envolvendo contratos do governo e que mostram ‘bate-boca’ e negociata sobre o Aquário do Pantanal entre João Amorim e o diretor comercial da Egelte, Egídio Vilani Comin.

O MSTV 1ª Edição do dia 25 de julho mostrou que João Amorim tem, na casa dele, salas secretas e compartimentos lacrados com portas de ferro e aço. No mesmo dia, no MSTV 2ª Edição, gravações revelaram que vereadores de Campo Grande combinaram votos para a sessão que cassou o mandato do então prefeito Alcides Bernal (PP) em 2014. Além disso, João Amorim, de acordo com a PF, participou de uma manobra teatral para a indicação do ex-deputado estadual Antônio Carlos Arroyo (PR) a uma vaga de conselheiro do TCE-MS.

No MSTV 1ª Edição do dia 29 de julho, gravações revelaram que o grupo chefiado por João Amorim também exercia forte influência sobre a fiscalização de obras do governo. Na prática, integrantes do esquema escolhiam fiscais que deveriam aprovar obras e pagamentos. O MSTV 2ª Edição do mesmo dia mostrou que fiscais recebiam propina para fraudar medições de obras do governo.

Operação

A operação Lama Asfáltica foi deflagrada em 9 de julho, cumprindo 19 mandados de busca e apreensão em residências de investigados e em empresas. A Polícia Federal e a Receita Federal também foram à Secretaria de Estado de Infraestrutura.

Funcionários não puderam entrar para trabalhar e foram dispensados. De acordo com o secretário estadual de Governo e Gestão Estratégica, Eduardo Riedel, quatro servidores foram afastados.

Em nota, a assessoria do governo do estado disse que o afastamento foi por determinação judicial e que “vai tomar todas as providências administrativas cabíveis para averiguar os fatos e garantir a lisura de todos os procedimentos realizados pelo órgão”.

Na nota, a assessoria diz ainda que a operação não tem relação com a atual gestão e que o Executivo está “totalmente à disposição” para apoiar a investigação e vai acompanhar a evolução das apurações.

Fraude

Conforme a Receita Federal, as investigações que resultaram na operação Lama Asfáltica começaram há dois anos. Naquela época houve a suspeita de que importante empresário do estado e pessoas ligadas a ele estaria corrompendo servidores públicos, fraudando licitações e desviando recursos públicos.

De acordo com divulgado pela Receita, o grupo agia voltado a licitações. A suspeita é de que empresários recebiam valores supostamente superfaturados e, em contrapartida, repassavam parte dos lucros que, por sua vez, eram entregues a servidores coniventes com tal direcionamento e com os sobrepreços.

Segundo a PF, os prejuízos aos cofres públicos somam, aproximadamente, R$ 11 milhões, de um montante de R$ 45 milhões fiscalizados. Foram identificadas ainda vultuosas doações de campanhas à candidatura de um dos principais envolvidos.

Nos dois anos de investigação foram encontrados indícios de prática de diversos crimes, tais como sonegação fiscal, formação de quadrilha, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva e fraudes à licitação.

A operação é desencadeada pela Receita Federal do Brasil, PF, CGU (Controladoria-Geral da União) e pelo MPF (Ministério Público Federal). O nome da operação faz referência a um dos insumos utilizados nas obras identificadas durante as investigações com evidências de serem superfaturadas.

Segundo a PF, a suposta organização criminosa atua no ramo de pavimentação de rodovias, construção de vias públicas, coleta de lixo e limpeza urbana, entre outros.

Com Informações G1

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