Enquanto Obama pede desarmamento, Brasil eleva em 46% venda de armas aos EUA

Venda de armas brasileiras aos EUA movimentou ao menos R$ 543 milhões em 2015 Foto: AP
Venda de armas brasileiras aos EUA movimentou ao menos R$ 543 milhões em 2015 Foto: AP

Alvo de restrições recém-anunciadas pelo presidente Barack Obama, o comércio de armas de fogo nos Estados Unidos tem gerado receitas crescentes para empresas do Brasil.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, entre janeiro e novembro de 2015 as exportações de armas e munições brasileiras para o mercado americano somaram US$ 134,8 milhões (R$ 543 milhões), alta de 45,8% em relação ao mesmo período de 2014.

O volume de vendas é ainda maior, já que a legislação brasileira permite que parte das transações permaneça sob sigilo. Os Estados Unidos são o principal destino de exportações de armas leves brasileiras (principalmente pistolas e revólveres econômicos para uso civil e militar).

Analistas que estudam o comércio de armas dizem considerar improvável que as exportações nacionais sejam afetadas pelas novas restrições de Obama. Mas cobram maior transparência no intercâmbio e apontam riscos de desvios e mau uso de armamentos destinados aos americanos.

Armas nas mãos erradas

Na terça-feira, Obama anunciou, em um discurso com direito a lágrimas, que o governo americano exigirá que vendedores de armas nos Estados Unidos chequem os antecedentes de cada cliente – mesmo em transações pela internet ou feiras – e modernizará o sistema de checagem de dados de compradores.

As medidas têm caráter executivo (dispensam a chancela do Congresso) e buscam, segundo o presidente, evitar que armas caiam nas mãos erradas, como as de criminosos e pessoas mentalmente instáveis.

No curto prazo, porém, é possível até que as exportações de armas brasileiras para os Estados Unidos cresçam ainda mais.

Ao anunciar restrições ao comércio, Obama chorou ao lembrar vítimas de armas nos EUA Foto: BBC

Um levantamento do jornal The New York Times apontou que, após Obama defender um maior controle sobre o comércio de armas em novembro passado, as vendas de armamentos explodiram no mês seguinte, atingindo um dos maiores valores em duas décadas.

Dados da Taurus – maior empresa brasileira de armas leves – também apontam um bom momento nas transações com os Estados Unidos.

Em relatório a acionistas, a companhia diz que suas vendas para o país nos nove primeiros meses de 2015 cresceram 75,4% em relação ao mesmo período de 2014, gerando R$ 356,5 milhões em receitas. O valor representa mais que o dobro das vendas da Taurus no Brasil e 63% de suas receitas totais no período.

A empresa atribui parte do crescimento à desvalorização do real frente ao dólar.
Com o crescimento das exportações em 2015, a indústria brasileira de armas recuperou parte das perdas no ano anterior, quando as vendas para os Estados Unidos caíram 48,5%.

Comércio entre Brasil e EUA é ainda maior, pois parte das vendas ocorre em sigilo Foto Getty Images

‘Vendas obscuras’

Segundo a Small Arms Survey, organização que monitora o comércio global de armas, o Brasil é hoje um dos quatro maiores exportadores de armas leves (de uso individual) do mundo.

Para Ivan Marques, diretor da Instituto Sou da Paz, a projeção do Brasil no segmento torna mais urgente que o Congresso Nacional aprove o Tratado Internacional sobre o Comércio de Armas (ATT).

O país foi um dos primeiros a assinar o tratado, em 2013, mas o documento ainda precisa da chancela do Congresso para entrar em vigor.

O ATT impõe maior transparência ao comércio de armas e institui mecanismos para que armamentos não sejam vendidos a países violadores de direitos humanos.

“A exportação de armas é bastante relevante para a pauta comercial do Brasil, mas hoje ela ocorre de maneira bastante obscura”, diz Marques.

Ele afirma que armamentos brasileiros – inclusive alguns banidos por convenções internacionais, como minas terrestres e munições cluster – já foram encontrados em vários países com histórico de violações de direitos humanos.

Hoje, a venda de armas para o exterior segue as diretrizes da Política Nacional de Exportação de Material de Emprego Militar, aprovada na ditadura militar e que garante o sigilo de operações quando requerido pelos negociantes.

Segundo Daniel Mack, consultor independente que estuda violência armada, o ATT estabelece uma conexão de responsabilidade entre o exportador e violações graves que venham a ser cometidas com as armas.

“Ainda que os Estados Unidos não sejam o típico país com graves violações de direitos humanos, vale perguntar quantas das mais de 30 mil mortes anuais por armas de fogo – entre homicídios, suicídios e acidentes – naquele país ocorrem com armas brasileiras”, diz.

Mack questiona ainda quantos armamentos brasileiros estão entre as mais de 200 mil unidades que, estima-se, são traficadas anualmente dos Estados Unidos para o México e a América Central para uso pelo crime organizado.

“Nesse sentido, o risco de exportar armas para os Estados Unidos é muito maior do que para qualquer outro país considerado desenvolvido.”

Fonte: BBC Brasil

Comentários

comentários