Em MS, pesquisadores realizam caracterização de doenças bovinas e determinam impacto econômico

Com o quarto maior rebanho de bovinos e bubalinos do país –  21,5 milhões de cabeças (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2017) – as doenças que avançam sobre os animais em campo ou confinamento em Mato Grosso do Sul representam perdas que podem ser significativas, em especial para os pequenos produtores.

Professor Ricardo Lemos, coordenador da pesquisa. Foto: UFMS.

Essa preocupação levou os professores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Famez), em parceria com o Instituto Nacional de Investigação Agropecuária (INIA), do Uruguai, a conduzirem, até 2022, o projeto de pesquisa “Caracterização epidemiológica, clínica e patológica e determinação do impacto econômico das doenças de ruminantes e equinos em Mato Grosso do Sul”.

De acordo com o professor Ricardo Antônio Amaral de Lemos, do Laboratório de Anatomia Patológica, coordenador do projeto de pesquisa, “o diagnóstico rápido e preciso das doenças é a maneira mais segura para evitar sua disseminação, assim como o conhecimento da epidemiologia é o único meio eficiente de evitar a introdução de doenças em uma região anteriormente livre”.

Por isso, o projeto pretende fazer a avaliação epidemiológica, clínica e patológica das principais doenças que acometem os bovinos, enquanto determina o impacto econômico das perdas, com base em estudo retrospectivo de 1995 a 2016 e prospectivo entre 2017 e 2018.

 Diagnóstico

No Laboratório de Anatomia Patológica, os pesquisadores realizam o diagnóstico de doenças de todos os animais, mais especificamente de animais de produção. “Começamos a ver que tínhamos bastante dados, mas não conhecíamos o impacto econômico que essas doenças causavam. Existem outros estudos feitos no Brasil, contudo, resolvemos desenvolver uma metodologia própria no intuito de calcular o percentual de perdas no estado”, explica o professor.

Dessa forma, a pesquisa busca uma metodologia que consiga avaliar essas perdas. “Começamos a pegar os dados, dos nossos surtos, e acompanhar do começo ao fim, fazendo uma outra base de cálculo em cima do que efetivamente do que as propriedades perdem”.

Diferentemente de anos anteriores, quando a maior parte das notificações (cerca de 80%) eram repassadas por órgão governamental (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal – Iagro) à Famez, a maioria das notificações chega hoje aos pesquisadores diretamente das propriedades rurais no estado, seja pela informação do próprio produtor, seja pelo médico veterinário que atende na propriedade ou pelos surtos que os próprios pesquisadores registram quando são convidados a irem diretamente às fazendas.

Os pesquisadores recebem material colhido por colegas veterinários, entretanto, também se propõem a de deslocarem até as propriedades rurais para fazerem a coleta, pois assim podem identificar a ocorrência de algumas doenças.

Realizam a necropsia e colhem vários tipos de materiais para os exames patológicos que irão apontar alterações nos órgãos dos bovinos. Se for identificada a necessidade de outros exames, os pesquisadores encaminham para outros laboratórios que fazem exames complementares.

“Hoje temos cálculos para cada propriedade, onde sinalizamos, além do prejuízo dos bovinos perdidos, o valor do trabalho que o proprietário teve com esses animais, o custo de vacinas, medicamentos, pasto que o animal ficou ocupando durante a vida, entre outras questões. Isso funciona bem para a fazenda, ainda não é conclusivo todo o resultado econômico calculado até o momento para o estado de Mato Grosso do Sul, em relação a quanto as perdas representam, porém com o avanço das análises esses resultados serão atingidos e precificados no futuro”, afirma Ricardo Brumatti, responsável pela avaliação econômica.

Doenças

Raiva, Botulismo, Carbúnculo sintomático e intoxicação por Vernonia rubricaulis são quatro importantes causas de mortalidade bovinas no estado sob estudos no projeto. As três primeiras são doenças infecciosas que podem ser prevenidas por vacina.

“Calculamos, por não vacinar, quanto o proprietário pode perder. A vacina, no caso da raiva, custa em média R$ 1,00 (duas doses). Então, dependendo do tamanho do rebanho, e no caso de médios e pequenos produtores, com o valor da perda de um ou dois animais para a doença, seria possível vacinar o rebanho inteiro”, aponta Ricardo Brumatti.

No caso de Botulismo, por exemplo, é até possível se prevenir o surto da doença sem vacinação, desde que sejam tomadas algumas medidas. A doença ocorre quando o animal ingere algo contaminado com a toxina botulínica, como restos de carcaça, já que a toxina está presente em matéria animal ou vegetal em decomposição. O contágio pode ser também em água com resto de carcaça, matéria orgânica em decomposição em silagem ou alimento mal armazenado.

Se o bovino é criado a campo, no pasto, e se o proprietário conseguir controlar bem a carcaça, oferecendo um bom sal mineral para que os animais não comam ossos, é possível evitar a doença sem a necessidade de vacinação.

Mas em áreas como o Pantanal, onde há muita água parada, e é mais difícil a eliminação das carcaças, já é mais aconselhável a vacinação. “Mesmo nas menores perdas, a vacinação se mostrou mais barata”, diz o pesquisador.

Mais de 2,5 mil produtores rurais já foram orientados pela equipe da Famez. “Temos uma fidelização. A maioria dos que nos procuram retorna. O índice de satisfação deles com o nosso trabalho é muito bom. E queremos expandir a divulgação dessa da atuação do laboratório, porque acreditamos que muitos ainda não a conheçam”, expõe o professor, que recebe procura de pequeno a grande produtor.

Para os pesquisadores, são necessárias políticas públicas de conscientização, de orientação, principalmente em pequenas propriedades, porque os dados coletados mostram que quem perde mais são os menores. “Produtores de menor renda, às vezes, têm perdas bem importantes para doenças que seriam de fácil controle”, completa o coordenador.

Raiva

A raiva, doença neurológica aguda, fatal, transmitida pela da saliva do morcego-vampiro, é a que causa maiores perdas econômicas no estado de Mato Grosso do Sul.

Em publicação na Revista Pesquisa Veterinária Brasileira, em 2018, pesquisadores da Famez e da Iagro, apontaram no artigo “Raiva em bovinos: perdas econômicas e sua mitigação através da vacinação antirrábica”, estudo que abrangeu o estado com análise de dados mostrou que, de janeiro de 2010 a dezembro de 2016, ocorreram 52 surtos de raiva bovina em 23 dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul, com 305 mortes de bovinos raivosos. Quase metade do rebanho em Mato Grosso do Sul está em áreas onde ocorre a raiva e, portanto, exposto ao risco.

Os casos de raiva bovina aconteceram em fazendas pequenas e grandes, com rebanhos de 10 a 6.210 bovinos. “A relação entre o custo estimado da vacinação antirrábica de todo o rebanho e a perda econômica por propriedade foi, em média, de 9,74%. E a relação entre o custo total da vacinação e a perda econômica total, somando-se a todas as propriedades estudadas, foi de 5,8%”, conforme o levantamento.

Os pesquisadores concluíram que essa doença neurológica é uma das principais causas das perdas econômicas para a pecuária no estado. “A vacinação é uma medida sanitária economicamente viável para minimizar as perdas, independentemente do tamanho do rebanho. É necessário melhorar a eficiência na coleta de dados pelo sistema de vigilância da raiva, a fim de melhor avaliar as perdas econômicas nos surtos”.

Intoxicação por Vernonia rubricaulis

Responsável pela intoxicação, geralmente fatal, em bovinos, a Vernonia rubricaulis é uma das plantas hepatotóxica que muito preocupam os pesquisadores. No artigo “Perdas econômicas causadas pela intoxicação por V. rubricaulis em bovinos”, publicado na revista Pesquisa Veterinária Brasileira, em 2018, pesquisadores da Famez apresentam levantamento realizado entre janeiro de 1999 e dezembro de 2016, que registrou 33 surtos por intoxicação com essa planta, com a morte de 1.509 animais.

A pesquisa apontou que a maioria dos surtos aconteceu em propriedades com até mil bovinos, onde constataram os impactos econômicos significativos. Do total de mortes o prejuízo foi calculado em US$ 764,8 mil, média de 3,05% do total do patrimônio dos rebanhos onde houve surtos.

“A planta pode causar prejuízos mais severos em propriedades com menos de 500 bovinos, podendo chegar a 50% do total do valor do rebanho. Plantas tóxicas, como a V. rubricaulis, podem causar prejuízos econômicos significativos na pecuária extensiva, sendo importantes tomadas de decisões e manejos profiláticos para evitar a ocorrência de intoxicação nos rebanhos”, dizem os pesquisadores.

De acordo com o professor Ricardo Lemos, uma vez orientados, os produtores rurais buscam manejar adequadamente as pastagens de suas propriedades, reduzindo os riscos para o rebanho.

*Com informações da Assessoria

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