‘É uma tragédia que isso aconteça’ com Delcídio do Amaral, diz Berzoini

Ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, avalia que a prisão do senador Delcídio Amaral teve grande impacto pelo bom trânsito que ele mantinha na base aliada e na oposição. A nova meta fiscal acabou não sendo votada, o que travará a máquina. Leia a entrevista:

Ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini (Foto: Marcelo Camargo)
Ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini (Foto: Marcelo Camargo)

O senhor ficou surpreso com essas revelações envolvendo o senador Delcídio Amaral?

A gente fica, né? Primeiro, ele vai prestar esclarecimentos sobre aquilo que parece, ouvindo as gravações. Mas a gente nunca imaginou que o Delcídio pudesse estar, digamos, preocupado com a delação de Cerveró nesse nível. Da nossa parte, é surpresa e tristeza por envolver uma pessoa que convivia conosco semanalmente. A oposição registrou no Senado que também estava triste, porque a relação sempre foi muito civilizada, cordial. Ele é uma pessoa que gosta de costurar acordos, não é um líder só de enfrentar, mas também de dialogar.

E a presidente Dilma Rousseff, como se sente?

Da mesma forma que eu, que o Jaques (Wagner). O sentimento é assim: é uma tragédia que isso aconteça com uma pessoa que tinha um relacionamento bom na situação e na oposição.

O que o governo vai fazer, já que não cumpriu a meta fiscal?

Nossa preocupação é cumprir a lei, mas não deixar que haja transtorno para as pessoas que precisam dos serviços do governo. Nós não queremos, por exemplo, que faltem recursos para fiscalização ambiental, Polícia Federal e para os órgãos que exercem atividades de Estado e precisam continuar funcionando. Não são despesas obrigatórias, são despesas discricionárias, mas essenciais. Um contingenciamento com válvula de escape.

É uma situação que lembra o shutdown dos Estados Unidos.

Lá nos EUA tem uma disputa política. Aqui, eu não acho que esse tema tenha o mesmo nível de disputa política. Embora a oposição vá fazer o embate legítimo, eu acho que a própria oposição sabe que isso não interessa ao país. É legítimo que eles façam o embate no processo de votação, e a base tenha consciência de que só depende dela, só depende de nós. Nós queremos deixar claro que não é bom para o país, mas não queremos que isso seja encarado como pressão, e sim como explicitação do problema, para a gente trabalhar com calma e votar. Até porque acho que votaria esta semana, se não houvesse o episódio do Delcídio.

Como o governo está lidando com o caso Delcídio?

Foi um problema que não foi provocado nem atingiu o Poder Executivo. Os fatos divulgados não são da atividade dele de líder do governo. Ele vai responder por isso, certamente vai prestar esclarecimentos, e o Poder Judiciário e o Ministério Público vão tomar as medidas que acharem corretas. É um fato que obviamente nos entristeceu, nos deixou chateados, mas nossa função é governar o país. Então, nós temos que continuar nosso trabalho e deixar que isso seja tratado pelas instâncias do Judiciário e do Ministério Público.

O governo está abandonando o senador Delcídio?

Nós não temos nenhuma razão para tratar o assunto dentro do governo, porque não se refere a atividades de governo. Não houve nenhum tipo de “Ah, ele tava fazendo uma coisa que tinha a ver com a função dele de líder”. Não. Não tinha a ver. É só ver o que está na degravação, e você vê claramente que era uma ação dele como pessoa, não uma ação do líder do governo.

Se ele se sentir abandonado, não pode representar ameaça ao governo?

Não vou especular sobre isso porque não tenho nenhuma base para ter esse tipo de especulação ou fazer futurologia. No que se refere à sua atividade como líder, ele sempre foi muito correto e transparente na relação com o governo. Sempre agiu seguindo as orientações do governo e sempre conduziu com responsabilidade seu papel no Senado. É isso que a gente pode dizer sobre ele.

Sem Delcídio, vai ser possível retomar o trabalho de recompor a base?

Vamos trabalhar para isso. Vamos ouvir os líderes na segunda-feira, para depois apresentar sugestões de nomes à presidente Dilma. Mas acho que sim (é possível reconciliar a base). As pessoas todas são importantes, mas, diante da necessidade de substituir, vamos procurar a melhor pessoa possível.

Já existe um nome mais provável?

Não tem. A gente evita falar de nomes justamente porque ninguém foi sondado. O líder do governo tem que ser uma pessoa com bom trânsito entre os líderes dos partidos. Depois, se possível, que também tenha bom trânsito com a oposição. E que tenha muita capacidade de diálogo, que perceba rapidamente quais são os impasses para alcançar os objetivos nas votações.

Há alguma restrição a alguém do PT?

Não. Nem há também a necessidade de que seja alguém do PT. Pode ser do PT ou de qualquer partido da base. Algumas pessoas dizem que o PT tem postura dúbia: quando as acusações são de corrupção feita “em nome do partido”, há um acolhimento do acusado; quando é por atos privados, há um abandono.

A nota que Rui Falcão soltou tem caráter eminentemente partidário e responde à percepção daquele momento. Se houver qualquer consideração diferente, ele pode reavaliar. A nota deixou claro que não havia nenhum assunto partidário sendo tratado. Nenhum petista, nem o Rui Falcão, trabalha com a lógica de julgá-lo (Delcídio) por essas atitudes sem que ele tenha o direito de defesa. É claro que o que veio à tona é grave, mas é preciso que se tenha o contraditório.

Mas a nota criou um constrangimento para a bancada, que votou para tirá-lo da prisão?

Não, porque a nota não condena Delcídio. Ela simplesmente esclarece a natureza da relação com o partido. Os assuntos de caráter partidários não devem, necessariamente, condicionar os votos dos parlamentares. Os parlamentares estavam apreciando não uma questão individual de Delcídio, mas se a decisão do Supremo feria prerrogativa do Parlamento, que é a inviolabilidade do mandato. Em nenhum momento eles julgaram se Delcídio é culpado ou inocente.

Pode ter aberto um precedente perigoso para o Congresso?

É um debate muito difícil de fazer. De um lado, estava todo mundo chocado com a degravação, mas, por outro, há necessidade de ser muito vigilante com a prerrogativa parlamentar. O debate foi muito duro.

O GLOBO

 

 

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