Do impeachment à Lava Jato: entenda a crise política que ferve o Corinthians

André Negão, R. de Andrade, Jorge Kalil e Andrés Sanchez após vitória na eleição (Daniel Augusto Jr / AgCorinthians)
André Negão, R. de Andrade, Jorge Kalil e Andrés Sanchez após vitória na eleição (Daniel Augusto Jr / AgCorinthians)

Não bastassem os resultados ruins dentro de campo, o Corinthians volta a viver uma enorme crise política depois de quase dez anos. Desde a saída de Alberto Dualib, em 2007, o Timão não atravessa um período tão turbulento em sua administração. Desta vez, os problemas extrapolam os limites do Parque São Jorge e atingem em cheio o presidente Roberto de Andrade e o ex-mandatário Andrés Sanchez, maior liderança política do clube última década.

Todos os caminhos da crise alvinegra levam a Itaquera. A construção da arena na zona leste de São Paulo é cercada de números que não fecham e ganhou ainda mais evidência com o envolvimento da construtora Odebrecht na Operação Lava Jato. Na quinta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)  Teori Zavascki autorizou a abertura de um inquérito para investigar Sanchez, hoje deputado federal (PT-SP), pelo crime de corrupção passiva.

A investigação apura o suposto pagamento de propina de R$ 500 mil relacionada à construção da Arena Corinthians. O vice-presidente do Corinthians, André Luiz de Oliveira, chegou a ser alvo de uma condução coercitiva na 26ª fase da Lava Jato, em março, e negou envolvimento.

Andrés Sanchez também garante que não recebeu nenhuma quantia pelas obras, mas virou alvo dentro e fora do Parque São Jorge. O dirigente teve papel determinante na elaboração do projeto e nas negociações com o ex-presidente Lula para colocar o estádio como palco da abertura da Copa do Mundo de 2014. Além disso, o deputado foi gestor da arena e responsável por discutir contratos de naming rights, que nunca foram vendidos.

A investigação agrava ainda mais a já conturbada história da arena. O Corinthians realiza nas últimas semanas uma auditoria nas obras para saber quais etapas não foram realizadas. A Odebrecht alega que encerrou a construção assim que atingiu os R$ 985 milhões previstos em contrato. Somados os juros, o custo total já supera R$ 1,2 bilhão, valor que o clube precisará pagar nos próximos anos.

Guerra nos bastidores
Os problemas em Itaquera e na administração do Corinthians caminham lado a lado a partir da formalização dos acordos para as obras. Segundo a revista Época, Roberto de Andrade assinou uma ata de reunião e o contrato do estacionamento da arena no período em que ainda não havia sido eleito presidente – Mário Gobbi Filho foi o antecessor.

Andrade recebe agora forte pressão de oposicionistas e pode até passar por um processo de impeachment. Além das assinaturas caracterizarem falsidade ideológica, o estatuto do Corinthians prevê o afastamento do presidente se ficar comprovado que o clube teve prejuízo com as decisões.

Líderes da oposição colhem assinaturas de associados no Parque São Jorge para entregar, provavelmente na próxima semana, um requerimento ao Conselho Deliberativo pedindo o afastamento de Roberto de Andrade. O processo ainda irá pelo Comitê de Ética para que o dirigente se defenda das acusações e só depois passará por votação dos conselheiros.

A possível saída de Andrade pode aumentar ainda mais a crise política no clube. Segundo o estatuto, o primeiro vice-presidente assumiria a função. O cargo, hoje, é ocupado por André Luiz de Oliveira, o André Negão, também investigado na Lava Jato. Oliveira, aliás, já cogitou deixar a diretoria. Jorge Kalil é o segundo vice e aparece logo abaixo na linha sucessória.

A crise política representa também um duro golpe no grupo político liderado por Andrés Sanchez e que comanda o Corinthians desde 2007. Mais do que o desgaste da relação entre as alas, não há outro nome de peso para suceder Roberto de Andrade. A tendência é de que Sanchez apoie Paulo Garcia, candidato a vice de Antônio Roque Citadini pela oposição na eleição passada, no pleito de 2018.

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