‘Devolve o meu dinheiro’. Xarás de políticos da Lava-jato sofrem com piadas

EXTRA/JN

A cena é frequente. O paciente aguarda na antessala do consultório, quando o médico aparece na porta e anuncia: “Senhor Eduardo Cunha, é a sua vez”. O chamado é seguido por um coro de gargalhadas e algumas piadinhas do tipo: “Devolve o meu dinheiro!”; “Você não estava preso?”; “Olha o parente do deputado aí”. Reações como essas estão se tornando cada vez mais frequentes aos brasileiros com os nomes iguais aos dos políticos envolvidos nos inquéritos da Lava-Jato.

Morador de Botafogo, na Zona Sul do Rio, Eduardo Veiga Cunha, de 34 anos, já se acostumou com as gozações por ter o mesmo nome do ex-deputado Foto: Aquivo pessoal

Morador de Botafogo, na Zona Sul, o administrador de empresas Eduardo Veiga Cunha, de 34 anos, nunca conviveu com piadinhas relacionadas ao seu nome, nem mesmo nos tempos de escola. Mas a história mudou a partir de 2015, quando os holofotes da Justiça e da imprensa passaram a ficar voltados para o seu homônimo, o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Uma das figuras centrais do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e condenado em um dos processos da operação Lava-Jato por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas o político está longe de ser motivo de orgulho para o seu xará.

O ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi condenado a 15 anos e 4 meses de prisão em um dos inquéritos da Lava-jato Foto: HEULER ANDREY / AFP

— Nunca imaginei que fosse ser tão sacaneado pelo meu nome. Mas depois que o ex-deputado Eduardo Cunha ganhou as páginas dos jornais, passei a ter que lidar com isso. Até médico me sacaneia. Já fui chamado até de filho dele — comenta o administrador.

As gozações também já viraram rotina na vida do pescador Sérgio Cabral, de 48, morador da Ilha da Madeira, em Itaguaí. Ele conta que as primeiras piadinhas vieram quando o político se tornou governador do Estado, mas que se intensificaram de forma negativa, após o nome dele aparecer nas investigações sobre casos de corrupção:

O pescador Sérgio Cabral, de 48 anos, diz que se arrepende de ter votado no xará, que está preso desde novembro do ano passado, e é suspeito de receber milhões em propinas Foto: Arquivo pessoal

— Já me falaram que comprei meu barco com dinheiro de propina e que sou irmão dele. Mesmo assim não tenho problemas de ele ser o meu xará. O pior de tudo é que votei nesse cara e ele ajudou a quebrar o nosso estado — reclama o pescador que costuma deixar o barco atracado em frete ao Porto Sudeste do Brasil, construído por uma das empresas do empresário Eike Batista, que também é investigado por corrupção.

O ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) está preso, desde o dia 17 de novembro, no Complexo Penitenciário de Gericinó (Bangu) Foto: Geraldo Bubniak / Geraldo Bubniak

Nem o juiz deixou escapar
Com habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal, no início deste mês, o ex-ministro José Dirceu voltou à boca do povo. E quem tem o nome igual ao dele também voltou a conviver com as piadinhas. Um desses xarás é o aposentado José Dirceu Alievi, 60 anos, morador de Londrina, no Paraná.

O paranaense José Dirceu já virou piada até em audiência, por ter o mesmo nome do ex-ministro, que está em liberdade, desde o início do mês. Foto: Reprodução / Facebook

— Às vezes, quando chamam meu nome numa consulta médica ou ao fazer uma compra com o cartão, alguém brinca: “Ué, o José Dirceu não está preso?”. Recentemente, em uma audiência trabalhista, o próprio juiz quebrou o protocolo ao ler meu nome. Ele falou: “Até o José Dirceu está presente!”. É assim mesmo, José Dirceu sofre — relembra o paranaense, que continua: — Não vai ser fácil me livrar dessa pauleira. Tem chumbo grosso em cima deles (dos investigados pela Lava-Jato). Dessa vez os políticos estão sentindo na pele.

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