Crise migratória evidencia contradições e erros históricos da Europa

Refugiados na Macedônia – Foto: Jornal do Brasil

As proporções alcançadas pela fuga de pessoas de países destruídos pela guerra em direção à Europa escancaram para o mundo as injustiças da ordem internacional estabelecida, apesar do discurso de paz promovido pelos países desenvolvidos, destacam especialistas. O fluxo de refugiados já vinha crescendo há anos, mas imagens simbólicas como a do menino morto na praia da Turquia e do caminhão com corpos de migrantes na Áustria ajudaram a sensibilizar o mundo e a gerar respostas como a do governo da Alemanha, que anunciou a disposição em receber mais refugiados. Medidas como esta são urgentes, mas atuam apenas na consequência, não na causa. Enquanto continuarem os ataques nos países de origem — guerra em que Europa, Estados Unidos e outros países têm corresponsabilidade –, o fluxo deve aumentar.

Somente neste ano, 2.600 pessoas morreram no mar Mediterrâneo tentando chegar à Europa e mais de 350 mil refugiados entraram na União Europeia. Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) mostram que no ano passado houve recorde de pessoas deslocadas por guerras no mundo, 59,5 milhões de pessoas — 19,5 milhões de refugiados, 38,2 milhões de deslocados internos e 1,8 milhão de solicitantes de refúgio. A Síria é o país que gerou o maior número, seguida de Afeganistão e Somália.

Se por um lado o governo da Alemanha tem se sensibilizado para receber maior número de refugiados, outros países como a Inglaterra ainda adotam posições conservadoras. A República Tcheca chegou a marcar refugiados com números na pele e, junto com a Hungria, a Polônia e a Eslováquia, rejeitou nesta sexta-feira (11) os planos da Comissão Europeia de distribuir entre os países-membros da UE 160 mil refugiados.

A Hungria, inclusive, é um dos países que têm demonstrado maior intolerância, vide o caso da cinegrafista que chutou duas crianças refugiadas e fez um homem com uma criança no colo cair enquanto corriam da polícia. Ela pediu desculpas e disse ter sido tomada pelo pânico naquele momento. A Promotoria húngara abriu um processo criminal contra ela.

Marcia Motta, professora de História Moderna e Contemporânea da UFF , explica que esta crise coloca em jogo o nacionalismo como uma fronteira ideal, e que uma das marcas deste nacionalismo é justamente identificar no outro, em geral o pobre, um não-ser humano, um invasor. Uma ação como a da cinegrafista, que parece e é absurda, neste contexto, é algo feito quase automaticamente, destaca a professora.

“Está tão naturalizado que as pessoas em volta não são seres humanos iguais, que em plena TV é possível ver alguém que vai passar a informação ser capaz de um ato tão bárbaro quanto esse. Essa ideia de cidadão de segunda e terceira categoria está muito enraizada na Europa, principalmente pelos países centrais”, diz Marcia Motta.

Mais uma vez a História nos dá a oportunidade de rever crenças e operar sociedade mais justa
A República Tcheca, ao marcar as pessoas na pele, ainda traz à tona experiências que o nazismo já havia colocado e que pareciam ter oferecido uma lição ao mundo. “A despeito de toda a tragédia que se envolve, com a morte de milhares de crianças, idosos, homens e mulheres, eu acho que mais uma vez a História nos dá a oportunidade de rever as nossas crenças e operar numa sociedade mais justa”, completa Marcia Motta.

Para o cientista político Eurico Figueiredo, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF, essa crise revela, por um lado, a incapacidade das potências centrais de lidarem com as suas próprias contradições. Elas exerceram papéis na África, no caso do Norte da África, e no Oriente Médio, no caso da Síria, por exemplo, e agora há o “efeito reverso”, pois não se mostraram capazes de criar riquezas e segurança nessas regiões.

Por outro lado, a situação demonstra uma incapacidade dos europeus de receber esse fluxo em seus territórios e o comportamento discriminatório em relação à religião, etnia, entre outras questões, como o temor de que refugiados sirvam como reservas de recrutamento para interesses terroristas. Todavia, por ter uma responsabilidade humanitária, ética e também uma grande responsabilidade histórica, as nações europeias se veem obrigadas a gerar políticas públicas e tirar dinheiro da própria população para abrigar esses refugiados.

“É uma situação complexa, de difícil equacionamento e, a meu ver, tende muito mais a se agravar do que, ao contrário, mostrar capacidade de solução, pelo menos a médio prazo. É uma situação grave que eu acho que vai persistir e aumentar, na medida em que não se investe, em que se tem uma responsabilidade em proteger apenas militarmente esses países de origem dos refugiados, que são regiões de Estados falidos”, destaca Figueiredo.

“Nós estamos apenas começando a discutir isso, devido à grandeza, à dramaticidade dos números que estamos vendo, milhares de pessoas mortas, e aquela cena trágica de uma criança morta na praia, e toda uma família que morreu tentando escapar dessa situação na Síria. Isso mostra a injustiça da ordem internacional estabelecida”, completa Figueiredo.

Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor da UFRJ e da Escola Superior de Guerra, salienta que a primeira questão que fica clara é que se trata da maior crise humanitária vista nos últimos anos, que atinge o coração da Europa, justamente a região que sempre teve órgãos e entidades para agir em crises humanitárias e agora se mostra absolutamente incapaz de lidar com a situação, de proporções “verdadeiramente gigantescas”. Países de longa tradição democrática como a Dinamarca simplesmente fecharam as estradas para esses refugiados, destaca o professor.

“A cinegrafista da Hungria, a burocracia do Canadá em recusar refúgio, sem dúvida nenhuma, são eventos que mostram o que verdadeiramente a nova extrema-direita pensa sobre a condição humana. Não era mais possível imaginar aquelas cenas da República Tcheca, que é dita como um paraíso democrático, onde pessoas foram numeradas no braço tal qual aconteceu no Terceiro Reich”, lamenta o professor.

Michael Mohallem, professor de Direitos Humanos da FGV, lembra que a questão pode ser vista de várias formas, do ponto de vista econômico ao demográfico, mas que a questão humanitária é a primeira a ser levada em conta. “O mundo que se reergueu depois da Segunda Guerra Mundial construiu tratados de direitos humanos, princípios, justamente para proteger pessoas em situações como esta. Não faz sentido se esquecer dessa trajetória.”

Mohallem chama a atenção ainda para o projeto de paz da União Europeia, como uma promessa vendida ao mundo, que agora precisa ser cumprida para o discurso de proteção não se tornar retórico, levando em conta ainda a responsabilidade histórica com os países em conflito e o compromisso com o conceito de refúgio.

“Quando a gente observa fluxos grandes de pessoas chegando a fronteira de um país tendo a entrada recusada e sendo mandadas de volta aos países de origem, isso remonta a um período pré-Segunda Guerra Mundial, em que judeus começavam a sair da Alemanha para procurar abrigo, por exemplo, como relatos de que navios carregados de judeus tentavam entrar na Inglaterra e a entrada era negada”, ressalta Mohallem.

Atuação da Europa nos países de origem dos refugiados

Williams Gonçalves, chefe do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, lembra que esses imigrantes só existem como tais porque seus países foram destruídos pela guerra, provocada e incentivada pelos Estados Unidos e pelos países aliados da Otan. “A Síria tem sido bombardeada, destruída pelos Estados Unidos e seus aliados. A Líbia foi destruída, o Iraque foi destruído. Destroem em nome da democracia, para restaurar a democracia, e o resultado é esse, trágico. Os imigrantes não caem do céu, são produto de uma determinada política executada pelo Ocidente.”
Marcia Motta também destaca a responsabilidade da Europa, principalmente da Alemanha, da Inglaterra e da França, os três países mais ricos, pela história de beligerância em relação aos países africanos, em especial. “Os países europeus fazem muito discurso em relação à questão da paz mas, na prática, historicamente, eles têm permitido que essas milhares de pessoas morram de fome. Os governos europeus, principalmente os alemães, os ingleses, são corresponsáveis, sim, pela crise. E talvez por isso eles estejam hoje surpresos diante da quantidade de pessoas que não mais aceitam essa subordinação”, reforça a historiadora.

Teixeira da Silva reforça o debate, destacando que não há dúvida de que a responsabilidade é da Europa, e também do Canadá e dos Estados Unidos, que destruíram os regimes árabes principalmente na Líbia e na Síria, de onde está vindo o grande fluxo de imigrantes, sem conseguir implantar nenhum outro regime minimamente aceito pela população. “Assad na Síria ou Muamar Kadafi na Líbia poderiam e podem ser ditadores autoritários e cruéis, mas eles tinham um exercício capaz de controlar a região, manter essas populações acomodadas e com o mínimo de bem-estar”, reforça.

Ele destaca que Kadafi, por exemplo, era conhecido na África por um longo programa de ajuda aos países de onde estão saindo a maior parte dessas populações, como o Mali, o Chade e o Níger. As consequências da destruição desses regimes e a imediata retirada da Europa dessas regiões sem fazer nenhum state-building foi algo advertido pelo próprio Kadafi antes de ser morto, inclusive, de que a Europa ia ser invadida por levas de imigrantes. A crise de agora confirma a irresponsabilidade do cálculo da estratégia dos políticos europeus, alerta.

Não é posar ao lado de um refugiado em Berlim que resolve a questão, é parar de destruir o país de origem
O discurso de abertura da Europa a refugiados, então, lida com a consequência e não com a causa do problema. “Eles [europeus e norte-americanos] destroem e não colocam nada no lugar. Sem dúvida nenhuma, os regimes que eles destruíram na Líbia e estão destruindo na Síria são cruéis, mas não causaram o número de mortos que estão causando agora”, diz. “Não é posar ao lado de um refugiado em Berlim que resolve a questão, é parar de destruir o país de origem.”

Eurico Figueiredo acrescenta que o Oriente Médio só surge como ator importante no sistema internacional com a questão do petróleo. Antes, era relegado a segundo plano. Após a Segunda Guerra Mundial, quando novas fronteiras foram delimitadas na região, não se teve o cuidado de construir Estados baseados em nações. Eles foram construídos com base nos interesses europeus, como já havia acontecido na África.

“Sunitas e xiitas conviveram durante o governo de Saddam devido a um poder despótico. A decisão de tirar Saddam jogou combustível. Em vez de melhorar, piorou. O Iraque é um Estado falido, que vive em confronto, uma guerra civil, que não tem solução à vista. No caso da Síria também. Tem o poder do Bashar al-Assad que, mesmo sendo um ditador sanguinolento, não teve mais condições de apoio que tinha devido à crise russa. Aconteceu a expansão de uma reação muçulmana que também tem questões étnicas envolvidas, o que levou a essa revolução civil, que também está longe de chegar a um final”, comenta Eurico Figueiredo.

Williams Gonçalves analisa a situação dos refugiados na Europa como muito delicada, porque ao mesmo tempo que reflete destruições de sociedades do Oriente, com a fuga desesperada de pessoas pela vida, se arriscando e vivendo situações dramáticas, os governos europeus temem criar uma situação muito confortável, que acabe por estimular os que permaneceram em seus países a fazer a mesma travessia. Por outro lado, se rejeitam esses refugiados de maneira muito radical, sofrem a condenação moral mundial, como já acontece.

“É uma situação muito delicada, de acolher numa medida que não incentive mais imigração”, diz o professor. “[A crise] tende a piorar, há uma relação de causa e consequência, e a causa é a guerra, a intervenção armada. Enquanto não cessarem, haverá sempre gente no desespero abandonando seus lares para salvar a própria vida. Enquanto não cessar a causa, não cessa a consequência”, alerta.

Fonte: Jornal do Brasil

Comentários

comentários