Correspondência revela relação ‘intensa’ de João Paulo 2º com filósofa

Centenas de cartas e fotos contam a história de uma relação próxima entre o papa João Paulo 2º e uma mulher casada, que durou mais de 30 anos.

O cardeal Wojtyla e Anna-Teresa Tymieniecka em um acampamento em 1978
O cardeal Wojtyla e Anna-Teresa Tymieniecka em um acampamento em 1978

A BBC teve acesso a parte da correspondência trocada entre o papa e a filósofa polonesa naturalizada americana Anna-Teresa Tymieniecka, que foram mantidas em segredo por anos pela Biblioteca Nacional da Polônia.

Anna-Teresa Tymieniecka na época em que conheceu o cardeal Wojtyla

Quando ambos se conheceram, em 1973, o então cardeal Karol Wojtyla era arcebispo de Cracóvia. Como ele, Tymieniecka era polonesa e tinha vivido a ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Após a guerra ela foi estudar no exterior e veio a desenvolver carreira como filósofa nos Estados Unidos, onde se casou e teve três filhos.

Tymieniecka contatou o futuro papa sobre um livro de filosofia que ele havia escrito. Ela então viajou dos EUA até a Polônia para discutir o trabalho.

A troca de cartas começou pouco depois. As cartas do cardeal eram formais no começo, mas se tornaram mais íntimas à medida que a amizade crescia.

A dupla decidiu trabalhar em uma versão ampliada do livro do cardeal The Acting Person (Pessoa em ação, em tradução livre). Eles se encontraram por muitas vezes – às vezes com a secretária de Wojtyla presente, às vezes a sós – e se corresponderam frequentemente.

Em 1974, ele escreveu que estava relendo quatro cartas de Tymienkiecka escritas em um mês porque eram “significativas e profundamente pessoais”.

 

Anna-Teresa Tymieniecka e o então cardeal Wojtyla em 1977
Anna-Teresa Tymieniecka e o então cardeal Wojtyla em 1977

No verão de 1976, o cardeal Wojtyla liderou uma delegação de bispos poloneses em um grande encontro católico nos EUA, e Anna-Teresa Tymieniecka o convidou a ficar na casa de campo da família na pequena cidade de Pomfret, em Vermont. Era o tipo de vida na natureza que o papa adorava, e as fotos feitas à época mostram o futuro papa relaxado e descontraído.

Ela aparentemente revelou sentimentos fortes pelo papa porque as cartas escritas por Wojtyla logo depois sugerem um homem lutando para definir em termos cristãos a amizade que mantinham.

Em setembro de 1976, ele escreve: “Minha querida Teresa, recebi todas as três cartas. Você escreve sobre estar arrasada, mas não consegui encontrar resposta a essas palavras.”

Wojtyla gostava de atividades ao ar livre
Wojtyla gostava de atividades ao ar livre

Ele a descreve como um “presente de Deus”.

“Aqui temos uma das grandes figuras públicas transcendentais do século 20, o chefe da Igreja Católica, em uma relação intensa com uma mulher casada”, diz Eamon Duffy, professor de história do cristianismo na Universidade de Cambridge.

A BBC não teve acesso às cartas escritas por Tymienkiecka. Acredita-se que cópias tenham sido incluídas no arquivo da filósofa que foi vendido à Biblioteca Nacional da Polônia em 2008, seis anos após a morte dela. Mas elas não estavam lá quando a BBC consultou o arquivo. A biblioteca não confirmou a posse das cartas de Tymienkiecka.

Marsha Malinowski, uma comerciante de manuscritos raros que negociou a venda das cartas, diz acreditar que Tymienkiecka tenha se apaixonado pelo cardeal Wojtyla logo no começo do relacionamento entre os dois. “Acho que isso se reflete completamente na correspondência”, afirmou à BBC.

O escapulário dado pelo pontífice a Tymieniecka

As cartas revelam que o cardeal deu a Tymienkiecka um de seus objetos mais preciosos, um escapulário – um colar de devoção com dois quadrados pequenos, geralmente de pano.

Em uma carta de 10 de setembro de 1976, ele escreveu: “No ano passado já estava buscando uma resposta a essas palavras: ‘Eu pertenço a você’, e finalmente, antes de partir da Polônia, encontrei uma maneira, um escapulário. A dimensão na qual aceito e sinto você em todo lugar em todos os tipos de situações, quando você está perto e quando está distante.”

Após tornar-se papa, ele escreveu: “Estou escrevendo após o evento, para que a correspondência entre nós continue. Prometo que me lembrarei de tudo nesse novo estágio da minha jornada”.

O cardeal Wojtyla tinha várias amigas, entre elas Wanda Poltawska, psiquiatra com quem trocou cartas por décadas.

Mas suas mensagens a Tymienkiecka às vezes são muito mais intensas, e em alguns pontos lutavam com o sentido da relação que mantinham.

Canonização

João Paulo 2º foi diagnosticado com mal de Parkinson no começo dos anos 1990, e passou a ficar cada vez mais isolado no Vaticano. Anna-Teresa Tymieniecka o visitava com frequência, e mandava flores e fotos de sua casa em Pomfret.

Após a última visita dele à Polônia, ele escreveu: “Nosso lar comum; tantos lugares onde nos encontramos, onde tivemos conversas tão importantes para nós, onde vivenciamos a beleza da presença de Deus”.

O marido de Tymienkiecka, Hendrik Houthakker, era um conhecido economista de Harvard. Após a queda do comunismo, ele aconselhou João Paulo 2º sobre a economia dos países do leste europeu, e o papa o homenageou pelos serviços prestados.

O papa no Vaticano com Anna-Teresa Tymieniecka
O papa no Vaticano com Anna-Teresa Tymieniecka

O papa João Paulo 2º morreu em 2005, depois de um pontificado de quase 27 anos. Em 2014 ele foi declarado santo.

O processo de canonização costuma ser longo e custoso, mas o de Wojtyla levou apenas nove anos.

Normalmente o Vaticano requisita todos os escritos públicos e privados quando avalia um candidato a santo, mas a BBC não conseguiu confirmar se a correspondência com Tymieniecka foi examinada.

A Congregação para as Causas dos Santos, órgão do Vaticano responsável pelas canonizações, disse que cabe aos fieis católicos decidir sobre o envio de documentos úteis aos processos.

“Todas nossas tarefas foram cumpridas”, informou o órgão, em nota. “Todos os documentos privados enviados por fieis e documentos localizados em importantes arquivos foram estudados.”

Para a Biblioteca Nacional da Polônia, não foi uma relação única. A instituição diz que foi apenas uma entre várias amizades próximas que o papa teve durante sua vida. (BBC Brasil)

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