Caso Adriano: Julgamento de PRF é travado em mais de um mês, após jurado passar mal

Lúcio Borges

Foto: Jaqueline Naujorks/G1 MS

O julgamento do policial rodoviário federal Ricardo Su Moon, 49 anos, que iniciou na manhã desta quinta-feira (11), pelo homicídio do empresário Adriano Correia do Nascimento, e que corria a mais de quatro horas no Fórum de Campo Grande, foi travado por mais de um mês, após um dos jurados passar mal na sessão. O Juri Popular que após adiamentos em protelações da defesa, veio hoje após dois anos e quatro meses do crime. Moon que é réu a mais de ano, desde novembro de 2017, ficará ainda até o próximo dia 30 de maio sob suspeita, sem a definição de sua culpabilidade ou não em ter matado a tiros o empresário em 31 de dezembro de 2016, durante briga de trânsito.

Veja abaixo, o que já havia ocorrido na sessão, que prevista para reiniciar no começo da tarde foi adiada e justificada por um acontecido da saúde com um, entre sete jurados, que são ‘cidadãos comuns’ escolhidos para um Juri Popular. Conforme anunciado, por volta do meio-dia, um dos jurados passou mal, não se recuperou e a substituição não seria possível porque todos os outros seis já haviam sido instruídos. Assim, de acordo com a assessoria do Fórum, o julgamento recomeça do zero e todo o rito será feito novamente, com novos jurados e depoimentos, tanto do acusado quanto das testemunhas.

O Juri Popular, como o Página Brazil noticiou ontem, teve inicio as 8 horas, e pela manhã de hoje, Moon e mais duas testemunhas foram ouvidas, Agnaldo Spinosa da Silva e Vinicius Ortiz. Os dois -pai e filho- também são vitimas e quase morreram naquele dia, pois estavam no carro com Adriano. Após ser baleado, segundo as testemunhas, Adriano perdeu o controle da caminhonete que acelerou, quase ainda caiu dentro do córrego Anhanduizinho e parou ao bater em um poste.

Moon responde por três crimes: homicídio doloso e duas tentativas de homicídio, contra Vinícius e Agnaldo, que hoje mencionou que disseram e podem afirmar que eles – Adriano-  estariam bêbados. Questionado pela defesa, Agnaldo disse que naquela noite os três haviam bebido na boate da qual saíram na madrugada: “Nós bebemos todos a mesma quantidade, mas não estávamos embriagados”, declarou a testemunha, que ainda afirmou que não sabia que Adriano fazia uso de ansiolíticos ou que usava drogas.

Adriano atiraria carro no PRF ? Sim e não

Com Agnaldo ainda sendo ‘interrogado’, o juiz Carlos Alberto Garcete exibiu o trecho de um vídeo gravado em audiência, em que Moon explica o momento em que atirou, dizendo ou afirmando que Adriano iria atropelá-lo.

Assim, o magistrado questionou Agnaldo sobre esse momento, ao que a testemunha afirmou que a posição em que Moon estava seria transversal, portanto, não estaria na direção do carro para ser atropelado. Moon alegou no vídeo que “o ronco da caminhonete somado ao movimento feito por Vinícius no banco de trás como se ele estivesse pegando algo no assoalho”, lhe representou perigo de vida. Agnaldo afirmou em declaração que “Adriano acelerava e freava a caminhonete, fazendo barulho”.

Neste momento, o juiz dirigiu-se aos jurados: “Peço que os senhores prestem muita atenção nisso porque essa será a questão sobre a qual irão decidir neste júri, a alegação do réu de que atirou em legítima defesa”.

Em seguida, Vinícius Cauã Ortiz, à época com 17 anos, deu sua declaração. O rapaz é filho de Agnaldo, e disse que naquela noite consumiu bebida alcoólica em companhia do pai e da vítima. Questionado pelo advogado de defesa, o jovem afirmou que antes de irem à boate, beberam em uma lanchonete. “Eu bebi uns seis copos de vodca e duas cervejas de garrafa naquela noite”, declarou.

Vinícius declarou que na abordagem do PRF, que disse ter chegado com uma lanterna pedindo que ele mostrasse as mãos, porque dormia no banco de trás. Uma das juradas questionou o rapaz sobre, como ele poderia descrever o momento da abordagem se estava dormindo. Vinícius afirmou que acordo na hora em que Moon aproximou-se do carro dirigindo-se a ele.

O que diz o réu

Em seguida, descreveu o momento em que, segundo ele, foi o motivo de ter atirado no motorista: “De repente, o Adriano avançou com a caminhonete contra mim, bateu na altura do meu joelho, eu já estava com a arma fora do coldre e atirei pulando. Aí a caminhonete avançou, passou por mim e foi em frente até bater em uma árvore. Pedi uma ambulância, fui até o carro, Agnaldo estava no chão e Vinícius saindo pela janela. A PM chegou, eu expliquei o que aconteceu e fui recolhido à viatura”, declarou.

Moon afirmou que atirou em legítima defesa porque sentiu “perigo de vida” quando a caminhonete avançou.

Relato de Moon

Antes do que disse o réu acima, Moon iniciou a pedido do juiz, a contar “do começo”, sua versão dos fatos. Ele falou por mais tempo que as duas testemunhas, pelo menos 20 minutos. Moon afirmou que naquela madrugada caminho do trabalho em torno de 5h30 da manhã, teria sido fechado no trânsito por Adriano, que em dado momento, em um sinal fechado, posicionou-se atrás do carro que ele dirigia.  “Estava escuro, deserto, com a via vazia, não havia motivo para ele entrar na faixa da direita, e ficar atrás do meu carro, imaginei que pudesse ser uma abordagem criminosa” declarou.

O réu afirmou que, ao observar atitudes dos ocupantes do carro, percebeu que não se tratava de um atentado. “Vi que o Adriano estava embriagado, e como já expliquei em audiência, eu não tinha carteirinha profissional, só uma folha de papel com meu termo de posse dobrada na carteira”.

Conforme Moon fazia suas declarações, o juiz Garcete pedia que os jurados acompanhassem as imagens da reconstituição do crime que constam no processo.

Moon seguiu descrevendo sua versão: “Eu perguntei de novo, vocês beberam? E liguei para a PM [Polícia Militar], me identifiquei como policial e avisei que eles tinham bebido, enquanto Agnaldo dizia que era eu quem tinha bebido, que eu era louco. A um certo ponto eles quiseram ir embora e eu pedi que ficassem, que eles seriam identificados de qualquer maneira se fossem embora porque a polícia os encontraria pela placa do veículo, foi quando percebi que não tinha anotado a placa e fui para a frente da caminhonete com o celular para fotografar”.

Mas precisava atirar? 

O juiz questionou sobre ele estar em posição transversal, e o réu disse que estava à esquerda da caminhonete porém ainda à frente. “Aí você me pergunta ‘Pôxa, mas precisava atirar?’, mas naquela hora o perigo imediato para mim era o atropelamento. O Adriano estava armado com aquela caminhonete, estava armado com um objeto letal. Meu objetivo não era matar, era não morrer”.

O juiz Garcete perguntou à Moon sobre sua habilidade com a arma, por ter condecorações em campeonatos de tiro. O réu afirmou que na hora foi movido por instinto. Foram disparados de 8 a 10 tiros, dois deles atingiram o peito da vítima. Moon afirmou ainda ter posse de três pistolas, um revólver, uma carabina de precisão e um rifle, mas que na ocasião estava com sua arma funcional.

Por fim, Garcete questionou a tese de legítima defesa em dois pontos: se Moon pensou que o comportamento de Adriano no trânsito pudesse ser uma abordagem criminosa, ou se defendeu-se do atropelamento.

O réu afirmou que, a princípio, pensou tratar-se de uma tentativa de atentado, por já ter recebido ameaças de traficantes e membros de facções criminosas enquanto atuava na Polícia Civil. Depois, ao perceber que não era, viu que os ocupantes do carro estavam embriagados e chamou a polícia: “Eu não poderia simplesmente deixar eles irem embora, correndo o risco de haver alguma morte no trânsito, tinha a obrigatoriedade legal de agir como agente de segurança pública”, declarou.

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