Cartunista campo-grandense planeja lançamento de HQ inédita em feiras nacionais

Emmanuel Merlotti e o processo digitalizado de produção de sua primeira HQ "digital, mas nem por isso menos braçal - Foto: Silvio Ferreira
Emmanuel Merlotti e o processo digitalizado de produção de sua primeira HQ em seu ateliê de desenho: “digital, mas nem por isso menos artesanal, menos braçal” – Foto: Silvio Ferreira

Emmanuel Merlotti, 37 anos, é um cartunista sul-mato-grossense, natural de Campo Grande. Filho de artista plástico, mas autodidata, viu surgir a paixão pelo desenho na infância, assistindo desenhos animados populares na TV brasileira nas décadas de 80 e 90, como He-Man, Thundercats e Caverna do Dragão e logo teve o interesse despertado pelas HQs: as histórias em quadrinhos. “Conan, de Robert E.Howard foi o primeiro. Depois, os trabalhos de cartunistas como John Byrne, John Buscema e Alan Davis; Frank Frazetta, Will Eisner e Can Kennedy entre outros”, revela o cartunista em sua primeira publicação.

A medida em que aperfeiçoou o traço, Emmanuel passou a fazer charges para jornais e revistas do estado, mas a paixão sempre foram as HQs. Via de regra, os cartunistas de boa parte do país têm dificuldades para viver somente de suas produções. Um desafio ainda maior em Mato Grosso do Sul, onde a produção dessa modalidade de arte gráfica, tipicamente urbana, é bastante incipiente.

Um pouco do trabalho do cartunista para jornais e revistas: "Indiana Jones", personagem de Harrison Ford; o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; "Edward Mãos-de-Tesoura", personagem interpretado por Johnny Depp e o Dr. Peter Venkman, papel de Bill Murray em "Os Caça-Fantasmas". Fotos Silvio Ferreira
Um pouco do trabalho como chargista para jornais e revistas: “Indiana Jones”, personagem de Harrison Ford; o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; “Edward Mãos-de-Tesoura”, personagem interpretado por Johnny Depp e o Dr. Peter Venkman, papel de Bill Murray em “Os Caça-Fantasmas”. Fotos Silvio Ferreira

Enquanto nos Estados Unidos, o mercado movimenta milhões de dólares, principalmente com as gigantes DC Comics e Marvel, a produção de HQs no Brasil, principalmente no Interior do país, sobrevive através dos “universos paralelos” dos fanzines comercializados em pequenas lojas especializadas ou associadas ao comércio “underground” e alternativo das capitais e cidades maiores.

Em Campo Grande, mais de uma loja já chegou a dedicar-se às HQs, mas hoje, praticamente, os fãs do gênero garimpam as novas publicações entre o acervo de grandes livrarias e das maiores bancas de jornais e revistas, ou garimpam publicações antigas em bancas e sebos de livros, na região central.

A entrevista ao Página Brazil registrou um divisor de águas na produção do cartunista. Emmanuel contou, enquanto mostrava alguns trabalhos de seu portfólio, que os originais de sua primeira publicação completa – a HQ “Lázaros Hunter, o Sacrifício” -, podem ter sido o último trabalho em que empregou apenas tinta direto no papel:

Reproduções estão entre os hobbys de Emmanuel Goku, de Dragon Ball Z e Darth Vader e Darth Maul, de Guerra nas Estrelas Produção no papel deve ser página virada
Emmanuel mostra reproduções de personagens famosos dos animes e da ficção científica: Goku, de Dragon Ball Z e Darth Vader e Darth Maul, de Guerra nas Estrelas. Trabalho no papel deve se tornar uma ‘página virada’. Foto: Silvio Ferreira

“Eu comprei os equipamentos como tablet [especifíco para desenho] há algum tempo, mas achei que não ia me adaptar, por força do hábito. Mas com a dificuldade de fazer os originais no formato ideal e depois ter que digitalizar os desenhos em uma gráfica, por não ter um scanner profissional, acabei cedendo à necessidade de fazer o trabalho todo no computador, via tablet. E acho que agora, não devo mais fazer de outra forma”.

Aos que não conhecem como uma história em quadrinhos é produzida, Emmanuel afasta qualquer ilusão romântica de que a produção feita via tablet e computador possa ser menos artesanal: “Continua sendo um trabalho braçal. A única diferença entre desenhar no papel ou pelo tablet é a possibilidade de usar o Control+Z desfazendo a última ação, com que ganho tempo. Fora isso é tudo traço por traço”, comparou.

“Lázaros Hunter – O Sacrifício”, primeira publicação própria de Emmanuel, sai por editora própria, com patrocínio de uma empresa de transporte de passageiros: “Sem este apoio teria sido impossível bancar a publicação” – Foto: Silvio Ferreira

Lázaros Hunter, o Sacrifício – Nas palavras do cartunista: “a minha primeira publicação completa é um ‘preview’ do protagonista ‘Lázaros’, um caçador de recompensas que acaba agindo como um justiceiro”. Ou seja, aparentemente, o protagonista não guarda semelhança nenhuma – além do nome – com a pacífica personagem bíblica, um discípulo de Jesus ressuscitado por seu mestre e amigo, que passa a ser odiado e perseguido pelos religiosos corruptos de seu tempo por causa disso. Mas o elemento religioso não fica completamente fora da história: em sua primeira aventura publicada, Lázaros precisa resgatar a vítima de um psicopata fanático-religioso.

Um ícone das HQs, Frank Miller, nos anos 80, na Marvel Comics. Foto: Wikipedia

Pergunto a Emmanuel se ele acredita que o tema recorrente nos quadrinhos da justiça pelas próprias mãos, de alguma forma retrata a indignação da sociedade com a violência do crime e a impunidade, ou é apenas um desejo primitivo e sempre latente do ser humano. Emmanuel concorda apenas em parte: “Não concordo e não sou a favor da justiça pelas próprias mãos, mas o universo das HQs aborda o tema da violência, principalmente nos grandes centros, cenário da maioria das histórias. Espero apresentar nas próximas publicações, mais características da personagem e as consequências – inclusive espirituais – de suas ações violentas.”

“O Sacrifício” é uma espécie de “trailer” de 12 páginas do que devem ser as histórias deste caçador de recompensas. Nele, não é revelada a origem ou as motivações da personagem. Não é apresentado um perfil psicológico, mas sim a “praxis” sumária do justiceiro, um tema que se tornou explícito e recorrente nas HQs adultas na era pós-Frank Miller – cartunista nascido nos Estados Unidos, que se tornou um verdadeiro ícone da arte na Marvel Comics a partir da década de 1980. Miller é uma das influências confessas de Emmanuel, mas o cartunista não fala muito sobre elas, mesmo depois de mostrar a estante repleta de quadrinhos de diversos autores. Prefere falar da conquista do primeiro lançamento próprio.

Abordando temas recorrentes nas HQs da era pós-Frank Miller, como violência urbana, psicopatas, assassinos seriais e justiceiros, cartunista diz ‘não concordar com justiça pelas próprias mãos’ e garante que história completa abordará as ‘consequências espirituais’ para o caçador de recompensas. Foto: Silvio Ferreira

Emmanuel explica que “a edição número 1 de Lázaros Hunter, colorida, com papel de qualidade, teve custo elevado e a publicação da revista contou com o patrocínio de uma empresa privada, a Expresso Queiroz. Sem este apoio não teria sido possível”.

O cartunista pretende lançar em breve – via editora própria, a “Redação Comics” -, a história completa de Lázaros: “Esta primeira revista é apenas uma prévia da história completa, que espero levar, em uma publicação posterior, às próximas edições de feiras e congressos nacionais voltados para HQs e mangás (estilo de histórias em quadrinhos originado no Japão e que hoje é produzido em vários lugares do mundo, que deram origem a uma indústria de produção de animes, os desenhos animados baseados ou inspirados nos mangás).

“Hoje, a imensa maioria do público-alvo da HQ está fora do estado. Por isso devo apresentar o ‘Lázaros Hunter’ nas próximas feiras de HQs do país, em Curitiba e Belo Horizonte, ainda este ano. Mesmo assim, não deixo de disponibilizar a revista em duas bancas de jornal na Capital. Para os apaixonados por HQ mesmo”, finalizou. (Silvio Ferreira)

Serviço:

www.redaaocomics.blogspot.com – www.facebook.com/emmanuelmerlottihq – emmanuemerlotti/deviantart.com – [email protected]

Telefone – 67 9233 7327

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