Caravana: Idosos voltam a enxergar depois de dez anos com dificuldades

A origem do nome é o latim e o significado não poderia representar melhor dona Valentina Silvéria Toledo, de 90 anos e de uma lucidez impressionante. O significado de Valentina é forte, valente, vigorosa, exatamente como ela. Nascida em Corumbá, ela perdeu a visão completamente há um ano e é extremamente dependente para realizar as atividades mais simples, menos tomar banho, segundo a neta Andréa Toledo. “Isso ela faz questão de fazer sozinha”.

Valentina perdeu a visão completamente há um ano
Valentina perdeu a visão completamente há um ano

Há oito anos com catarata e há cinco na fila SUS, dona Valentina está muito perto de voltar a trabalhar, passar roupa, cozinhar, pois para ela o sentimento de inutilidade é tamanho. Ela lá até ‘anda’ com os braços. “Quero voltar a trabalhar, eu costurei muito quando morava em Corumbá e logo que casei e tive a primeira filha, comecei a costurar a noite. Fazia calça, blusa, só não fazia paletó e quero ajudar minha filha. Essa é a coisa mais triste que aconteceu comigo até hoje, então qualquer coisa que eu puder fazer está bom”, contou emocionada.

A dona ‘Valente’ trabalhou a vida inteira, quando era criança puxava madeira na fazenda e aos 10 anos, quando foi para a cidade estudar e morar com a madrinha, ela continuou. Mas dona Valentina não quer só estudar, apesar de achar que ‘badalar’ cansa, ela quer ver homens bonitos “E ir num baile dançar e aproveitar o restinho da vida”.

Dona Gertrudes tem vergonha de revelar a idade e quer trabalhar na horta do Asilo.
Dona Gertrudes tem vergonha de revelar a idade e quer trabalhar na horta do Asilo.

Gertrudes Araújo e seu Lino Lima, moradores do Asilo São João Bosco, entidade que tem enviado pacientes para consultas e cirurgias da Caravana, também estavam aguardando por uma cirurgia na manhã de hoje (20). Dona Gertrudes disse que preferia não revelar a idade, pois tinha vergonha. Seu Lino, é de 1950.

Dona Gertrudes nunca teve filhos, nem marido e foi para o asilo porque os parentes trabalhavam muito e não tinham tempo para ela. Enxergando pouco, mais vultos cinzas que coisas, há dois anos ela descobriu a catarata. De Minha Gerais, dos arredores de Belo Horizonte, ela também não quis revelar o nome da cidade de origem, apenas contou que sempre trabalhou na fazenda e que tem um gosto particular pelo plantio de hortaliças. “Quando eu voltar a enxergar bem, quero muito trabalhar na horta do Asilo”.

Seu Lino, coloca Deus em primeiro lugar, depois quer namorar bastante.
Seu Lino, coloca Deus em primeiro lugar, depois quer namorar bastante.

Já o seu Lino descobriu no ano passado a catarata e ainda enxerga um pouco com os óculos. Nascido em Amambai e sempre trabalhando na área rural, após uma consulta ele foi encaminhado para o asilo. “Disseram  que eu tinha um problema que precisava de tratamento longo e me mandaram pra lá”. Viúvo, seis filhos, Lino ainda é vigoroso. “Primeiro de tudo vou agradecer a Deus e depois quero voltar a namorar”.

O seu Francisco dos Santos, de 74 anos, pode ser considerado um homem de poucas palavras. Levado por um amigo, nunca esteve na fila do SUS e enxergava pouco. Ele só sabia de uma coisa, que se  voltasse  a enxergar bem, queria dirigir um carro.

A boa cozinheira Aracy Pereira precisa muito fazer a cirurgia dos dois olhos porque tem medo de ficar zarolha. Com 85 anos, viúva, sem filhos, ela mora com Deus e tem a ajuda de uma sobrinha. “Sem os meus óculos fica tudo cinzento e é ele que tem resolvido minha vida”, disse. Sobre a especialidade na cozinha ela foi enfática “todas”, a ponto de arrancar comentários e risos dos demais pacientes da fila. Há sete anos esperando a cirurgia pelo SUS ela se sente esquecida, mas se voltar a enxergar bem ela quer volta a ser nova. “Passear bastante, viajar e colocar de vez os  óculos na gaveta”, concluiu sorrindo.

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