Camila Pitanga fala sobre acidente que tirou a vida de Domingos Montagner

A atriz Camila Pitanga fez um relato emocionante sobre a morte do colega Domingos Montagner. À repórter Sônia Bridi, em entrevista para o Fantástico, ela contou detalhes de como foi o trágico acidente no rio São Francisco, que tirou a vida do ator, na última quinta-feira (15).

Camila Pitanga: – Domingos subiu nas pedras e falou: “Ca, aqui tá lindo, aqui tá ótimo. Vamos mergulhar aqui”. Isso já nos afastava do litoral, da faixa de areia onde dava pé. Quando a gente mergulhou, Domingos mergulhou já de cabeça. Eu, mais ‘cabrera’, sou um pouco medrosa com essa coisa de saltar, eu fui devagarinho. E eu notei que tinha uma pedra, com uma marolinha batendo. Aí tem um detalhe: a gente tava nadando a favor de uma correnteza muito perene, muito suave, que a gente não percebeu. Então, a gente mergulhou já num lugar que tinha profundidade, mas o olhar, para qualquer pessoa, era de tudo parado.

Domingos Montagner como o personagem Santo, da novela 'Velho Chico' (Foto: Pedro Curi/TV Globo)
Domingos Montagner como o personagem Santo, da novela ‘Velho Chico’ (Foto: Pedro Curi/TV Globo)

Sônia Bridi: – Você sentiu uma mudança na corrente?

Camila Pitanga: – Não! Qual era o meu medo? “A gente pode se machucar na pedra”. Não foi ali ‘pânico’. Foi ”vamos voltar”. E ele: “claro, vamos voltar”. E fomos, nadando. O Domingos estava mais à minha frente, eu tava um pouco mais próxima da faixa de areia. A gente perdia sempre [para a correnteza]. Por mais que ela fosse suave, a gente nadava, nadava e ficava [no mesmo lugar]. Mas isso não se estendeu por muito tempo. Nisso, eu notei que, na nossa lateral, tinham pedras. Três, quatro metros [distante]. Eu falei: “vamos pra lá, se segurar na pedra”. Porque voltar, a gente não tava conseguindo. A pedra não era um paredão. Então, quando eu cheguei ali, a correnteza não tinha nenhuma força, porque a água continuava, ela seguia. Aí, eu [pensei]: “ai, tá tudo bem”. Ali, de fato eu me acalmei, falei “tá tudo certo, vem Domingos, aqui tá tudo certo”. E eu estava notando que o Domingos, ele não conseguia, ele não nadava e estava assustado. Então eu falei: “ele tá assustado, eu vou ajudar”. Eu não tinha noção do que estava acontecendo, não sou heroína, nada disso. Para mim, tava tudo tranquilo. Então, naturalmente, se foi tão fácil eu chegar até lá, é fácil eu voltar e ajudar meu amigo, que tá com medo. Então eu saí e fui ajudar meu amigo. Peguei no antebraço dele e falava “calma, tá tudo bem”. E ele não vinha. Soltei o braço dele, fui para a pedra, para mostrar pra ele que tava tudo bem. Falei: “Domingos, estou te dizendo, aqui tá tranquilo”. Ele não saía do lugar e não falava nada.

Sônia Bridi: – Mas ele estava paralisado, ou ele estava tentando sair do lugar?

Camila Pitanga: – Foi muito estranho porque, pra mim, o natural seria fazer isso com o braço [nadar]. Ele aparentava estar paralisado. Então eu voltei de novo, peguei de novo no braço dele e vim puxando, vim puxando e ele não saía do lugar. E ele falava “eu não tô conseguindo. Ca, eu não tô conseguindo”.

Sônia Bridi: – Quantas vezes você viu ele subindo e descendo?

Camila Pitanga: – Foram só duas vezes. Quando ele submergiu e foi a segunda vez que ele submergiu, aí eu entendi o problema que a gente tava vivendo. Aí ele submergiu, eu entendi que eu não podia ir lá. Porque tinha alguma coisa que era maior do que aquilo que eu tava imaginando, não era ele assustado! Eu não sei o que era. Era uma coisa que eu não sabia o que era. E era um desespero de “eu vou” e alguma coisa que dizia “não vai!”. Eu comecei a gritar e eu me arranhava e me batia e chamava e chamava, porque não tinha ninguém. Tinham dois barcos naquela lateral, não tinha ninguém. E eu gritava “é grave, é grave, tem alguém ali dentro da água”. E eu sabia que eu não podia ir.

Sônia Bridi: – Você acha que, quando ele tava ali, ele tinha noção que seria perigoso para você se ele tentasse te agarrar?

Camila Pitanga: – Acho. Em nenhum momento ele me pegou, me agarrou. Ele tava tentando, na verdade, se segurar. Por isso que ele não nadava. Ele me salvou. Eu acho que ele sabia o que tava acontecendo e ele me deu oportunidade de viver.

Sônia Bridi: – É uma coisa muito, muito generosa.

Camila Pitanga: – Muito generosa! Muito generosa. Ele só dizia “eu não tô conseguindo. Eu não tô conseguindo”. E eu vi o último olhar dele.

Sônia Bridi: – Você disse que você renasceu! Você acha que é uma segunda chance?

Camila Pitanga: – É uma segunda chance! É… uma segunda chance de poder estar com meus amigos, de estar com a minha filha. De viver… é, uma segunda chance! E eu vou honrar isso.

Sônia Bridi: – Você vai voltar a gravar a novela?

Camila Pitanga: – Vou. Vamos todos… uma parte já voltou. E a gente tá fazendo uma homenagem a ele. Ele vai estar presente, Santo está ali.

Globo

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