Calero agora acusa Temer de ter agido em favor de Geddel

Em depoimento à PF, ex-ministro diz que presidente ‘o enquadrou’ no caso

Rio – A novela da briga entre Marcelo Calero e Geddel Vieira Lima ganhou drama e um personagem de peso. Segundo o ex-ministro da Cultura, o presidente da República, Michel Temer, o “enquadrou” dias antes de receber dele o pedido de demissão. Teria exigido dele uma “saída” para o impasse no Iphan que paralisava controversa obra, em Salvador, de interesse do intocável chefe da Secretaria de Governo. A acusação consta de depoimento à Polícia Federal.

Temer e Calero na posse do ministro, em maio: o próprio presidente teria ficado ao lado de Geddel antes de receber o pedido de demissão Agência Brasil
Temer e Calero na posse do ministro, em maio: o próprio presidente teria ficado ao lado de Geddel antes de receber o pedido de demissão
Agência Brasil

O Ministério da Justiça recebeu da Polícia Federal a informação de que Marcelo Calero entregou gravações de conversas com Temer.

Semana passada, Calero se demitiu e acusou Geddel de “pressioná-lo” para o que o órgão de patrimônio vinculado ao Ministério da Cultura liberasse o projeto imobiliário, onde o ministro admitiu ter adquirido uma unidade. No depoimento, Calero afirmou que Temer “disse que a decisão do Iphan havia criado ‘dificuldades operacionais’, posto que Geddel estava ‘bastante irritado’”.

“O presidente disse ao depoente para que construísse uma ‘saída’ para que o processo fosse encaminhado à Advocacia-Geral da União, porque a ministra Grace Mendonça teria uma solução”, acusou Calero. “A política tinha dessas coisas, esse tipo de pressão”, teria encerrado Temer, na transcrição. Esta teria sido a gota d’água para ele entregar o cargo.

Outros integrantes do núcleo duro do Planalto intervieram em favor de Geddel na contenda: Eliseu Padilha, chefe da Casa Civil, e Gustavo Rocha, subchefe para Assuntos Jurídicos.

O Supremo Tribunal Federal encaminhou à Procuradoria-Geral da República o depoimento do ex-ministro Marcelo Calero. A equipe do procurador-geral Rodrigo Janot vai se debruçar sobre as informações prestadas à PF. A tendência é pela abertura de inquérito, assim Geddel passa a ser investigado.

Nesta quinta-feira, a Justiça Federal determinou a imediata paralisação das obras e a suspensão da comercialização das unidades habitacionais do edifício La Vue, em Salvador, sob pena de multa no valor de R$ 10 mil por dia em caso de descumprimento.

De acordo com parecer do MPF, os 100 metros de altura do prédio de luxo comprometeriam a visibilidade de pelo menos três bens históricos tombados na capital baiana — a Igreja e o Outeiro de Santo Antônio e o Forte de Santa Maria.

Oposição cobra responsabilidade

Líder da oposição no Senado, Lindbergh Farias afirmou que a assessoria jurídica da bancada vai verificar que medida poderá tomar contra a declaração do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero. “É o presidente da República usando o cargo para pressionar um ministro por interesses particulares. Ele agiu como um sócio de Geddel. Foi um depoimento na Polícia Federal, não tem conversa de ‘ouvi dizer’, afirmou. Um pedido de impeachment não está descartado.

Líder da Rede na Câmara, Alessandro Molon sugeriu a convocação de Calero para confirmar a denúncia contra Temer. Se Calero repetir o que disse à Polícia Federal, o deputado defenderá a criação de uma CPI. “Se ele confirmar, a denúncia é extremamente grave”, classificou Molon.

Temer nega tomar lado

Temer escalou o porta-voz Alexandre Parola para dar explicações sobre as novas denúncias e rechaçou qualquer irregularidade no caso. “O presidente trata todos seus ministros como iguais. E jamais induziu algum deles a tomar decisão que ferisse normas internas ou suas convicções”, disse o porta-voz.

Parola disse ainda que “surpreendem boatos de que o ex-ministro teria solicitado segunda audiência, dia 17, somente com o intuito de gravar clandestinamente conversa com o presidente da República para posterior divulgação”.

A mensagem — escrita após reunião de emergência — diz ainda que o presidente buscou resolver o conflito “sugerindo a avaliação da AGU, que tem competência legal para solucionar dúvidas entre órgãos”.

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