Atrizes ‘fora de esteriótipo’ ganham protagonismo na TV e no cinema

Portal G1

Melissa McCarthy no Globo de Ouro 2019 — Foto: REUTERS/Mike Blake

Até agora relegados a papéis cômicos secundários, ou simplesmente ausentes das telas, atores com o peso acima dos padrões estéticos estão lentamente interpretando personagens mais importantes, tanto na televisão quanto no cinema, um sinal de mudança na sociedade.

Adaptada do best-seller autobiográfico de Lindy West, a série “Shrill”, que estreou na sexta-feira (15) passada na plataforma Hulu, é o mais recente exemplo da abertura dos estúdios a padrões físicos diferentes daqueles que imperavam nos meios audiovisuais.

Há uma década algumas atrizes negras corpulentas já interpretaram personagens principais na televisão e no cinema, como as vencedoras do Oscar Octavia Spencer e Mo’Nique e a estrela do rap Queen Latifah.

Em "A Cabana", Octavia Spencer vive Papai, uma personificação de Deus — Foto: Divulgação
Em “A Cabana”, Octavia Spencer vive Papai, uma personificação de Deus — Foto: Divulgação

Já nos últimos anos, Chrissy Metz, da série “This Is Us”, Danielle Macdonald, do telefilme da Netflix “Dumplin”, Rebel Wilson, de “A Escolha Perfeita”, e Melissa McCarthy, de “A Espiã Que Sabia de Menos” e “Caça-Fantasmas”, ocupam o primeiro escalão das estrelas.

“Creio que o público americano e provavelmente o público em geral não está acostumado a ver gordos nas telas”, declarou à revista Elle Aidy Bryant, a heroína de “Shrill”, que integra também o elenco do popular programa “Saturday Night Live”.

Aidy Bryant durante o lançamento da série 'Shrill' — Foto: Jack Plunkett/Invision/AP
Aidy Bryant durante o lançamento da série ‘Shrill’ — Foto: Jack Plunkett/Invision/AP

“Estamos assistindo a uma mudança”, reconhece Rebecca Puhl, professora e diretora adjunta do Centro de Política Nutricional e Obesidade da Universidade de Connecticut. “Começamos a ver pessoas de forte corpulência em papéis principais na televisão e no cinema”.

Novos personagens

Além de maior presença nas produções, esses atores estão interpretando personagens diferentes.

“Até agora os atores e atrizes obesos eram contratados para interpretar papéis cômicos”, destaca James Zervios, vice-presidente da organização Obesity Action Coalition, que tem como uma de suas missões lutar contra a discriminação relacionada ao peso, a gordofobia.

“Há pouco tempo”, acrescenta, “começamos a ver pessoas obesas, como Chrissy Metz (indicada aos prêmios Emmy e Globo de Ouro), nos papéis mais dramáticos”.

Contudo, James Zervios considera que os homens corpulentos, ao contrário das mulheres, seguem aparecendo principalmente em comédias.

Até agora os relatórios do centro de Rebecca Puhl mostravam que os personagens obesos eram “ridicularizados, executando comportamentos caricatos e comilões (…) e tinham menos interações positivas com os outros”, destaca a especialista.

Este aspecto está muito presente nos programas para jovens, que nos últimos anos evoluíram menos neste tema do que as séries e filmes para o público adulto.

“Os personagens corpulentos são apresentados de forma muito mais negativa, (…) como agressivos, antissociais ou antipáticos”, destaca Rebecca Puhl.

Ainda há muito a fazer

Este fenômeno pode ser inclusive prejudicial, já que a representação tende a validar a discriminação na vida diária, ponto que o movimento contra a gordofobia trabalha para combater.

Atualmente, Melissa McCarthy é a única atriz americana do primeiro escalão que recebe convites para papéis em que seu peso ou aparência física não são centrais.

Para outras, como Chrissy Metz em “This Is Us” ou Danielle Macdonald em “Dumplin'”, a referência física continua sendo um aspecto importante, apesar de não ser dominante. “A obesidade é uma parte importante do papel” de Chrissy Metz, afirma James Zervios, “mas é mostrada sob uma ótica respeitosa e realista”.

“Não creio que a batalha foi vencida”, diz Rebecca Puhl. “A diversidade dos corpos teria que ser algo comum nos meios de comunicação”.

“Sabemos que dois terços dos americanos têm sobrepeso ou são obesos (71,5% segundo o Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças, CDC)”, explica, “assim, já está na hora de mostrar essas pessoas na tela”.

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