Análise: com 4-4-2 e Jesus na ponta, Brasil mostra repertório contra o México

Desde que montou um Corinthians envolvente e campeão, em 2015, e levou o sistema de jogo à seleção brasileira com êxito surpreendente, no ano seguinte, Tite virou sinônimo do 4-1-4-1. O grande lance da equipe na Copa do Mundo, portanto, foi ter precisado recorrer a uma variação para conseguir vencer o México e avançar às quartas de final.

Ao adotar o 4-4-2, lá pelos 30 minutos do primeiro tempo, o Brasil assumiu o controle e indicou um repertório ainda escondido no trabalho de Tite e sua comissão técnica.

Como numa movimentação de tabuleiro, a Seleção neutralizou os pontos fortes do rival, que até então pressionava quase de maneira sufocante, embora não conseguisse traduzir em finalizações.

Três efeitos da migração do 4-1-4-1 para o 4-4-2:

  1. Neymar saiu da esquerda e se aproximou de Gabriel Jesus, como um segundo atacante, com liberdade e área de atuação maiores. Além disso, ao arrastar o lateral-direito mexicano para marcá-lo, abriu um corredor aproveitado em investidas de Filipe Luís, Coutinho e até Willian, no lance do gol marcado pelo próprio Neymar, como um 9.
  2. Lozano e Vela, os pontas mexicanos, não mais ficaram no mano a mano com Fagner e Filipe Luís, que passaram a ter uma cobertura mais próxima de Casemiro e Paulinho, alinhados.
  3. Willian passou a fazer flutuação, nome dado ao movimento de quem sai da ponta para o meio. Isso o colocou no jogo, e o posicionamento dos meio-campistas deu proximidade para que as jogadas fossem criadas.

Nos primeiros 23 minutos de partida, o México havia finalizado quatro vezes, contra apenas uma do Brasil. No restante da etapa inicial, o Brasil chutou nove vezes a gol. O México, uma.

Osorio também jogou xadrez. Inverteu os perigosos Lozano e Vela de lado e, no intervalo, tirou Alvarez, com cartão amarelo, da marcação de Neymar. Mas sua equipe, agressiva no bom sentido, não mais conseguiu causar perigo. Aliás, se Alisson continua sendo pouco exigido na Copa deve à quantidade de finalizações e cruzamentos que os defensores do Brasil cortam em direção ao gol. Fagner, Thiago Silva, Miranda, Filipe Luís e Casemiro: aplausos.

Outro duelo interessante: o dos escanteios a favor do Brasil. O México marcava só com quatro jogadores na área – Osorio sempre fez isso, inclusive no São Paulo – e inibia o avanço de um dos zagueiros brasileiros. Thiago Silva ou Miranda não podiam ir à área para cuidar de um possível contra-ataque.

A resposta de Tite: escanteios curtos, que, em razão do posicionamento mexicano, deixaram o Brasil em superioridade numérica à frente. Coutinho quase abriu o placar assim.

Depois de fazer 1×0, o Brasil seguiu no 4-4-2 com uma familiaridade espantosa para quem pouco atua com essa formação. Até mesmo as mudanças seguintes de posicionamento sugeriram um conhecimento grande.

Na principal delas, Tite e seus auxiliares inverteram os posicionamentos de Coutinho e Gabriel Jesus. O meia virou segundo atacante, ao lado de Neymar, um estímulo à criação de ambos nos contra-ataques. E o centroavante passou a atuar na segunda linha de marcação, pela esquerda, num respaldo a Filipe Luís, que havia recebido cartão amarelo.

O segundo gol acabou sendo resultado da imposição física e técnica do Brasil, com gás novo – Fernandinho na construção do lance e Firmino na conclusão.

A grande notícia para o Brasil em Samara foi ter ampliado seu repertório sem perder aspectos fundamentais: força defensiva e agressividade perto da área adversária. Os próximos adversários tendem a exigir novos ajustes.

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