Amazônia teve maior perda de floresta desde 2008, diz estudo

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Marizilda Cruppe / Agência O Globo

As queimadas que arderam na Amazônia este ano, as piores desde 2010, são o lado mais visível da maior taxa anual de desmatamento registrada desde 2008. Os dados estão num estudo recém-publicado. Ele estima que mais de 10 mil quilômetros quadrados de floresta foram derrubados de agosto de 2018 a julho de 2019. O trabalho mostra que o desmatamento foi a principal causa das queimadas e que estas transformaram as matas incendiadas em prisioneiras do fogo, num ciclo vicioso que as torna mais vulneráveis a novos incêndios.

Publicado no periódico internacional “Global Change Biology” , o trabalho avaliou alegações do governo brasileiro sobre as queimadas na Amazônia em agosto de 2019, as quais foram consideradas como dentro de uma situação normal e “abaixo da média dos últimos anos”. Para fazer a análise que refuta essas alegações, os cientistas estimaram a área desmatada de agosto de 2018 a julho de 2019. Eles fizeram o cálculo baseados no fato de que o Prodes, programa do Inpe que mede a taxa anual de desmatamento e cujo número deste ano deverá ser anunciado amanhã, é, em média, 1,54 maior que as taxas de desmatamento medidas em tempo quase real a partir do sistema Deter-b .

Os dois sistemas são do Inpe. O Prodes mede o desmatamento anual, considerando o período de agosto de um ano a julho do ano seguinte. Já o Deter-b tem como finalidade principal dar alertas, mas indica tendências de área perdida. O Prodes costuma apresentar números maiores do que o Deter-b porque tem melhor resolução. Faz observações de 30 metros de resolução contra 250 metros do segundo, que não pega as derrubadas em áreas menores. Fontes que trabalham com análise de desmatamento afirmam que a metodologia do novo estudo oferece um retrato razoável do que acontece na Amazônia.

Confirmado o número amanhã, será a primeira vez desde 2008 que a área derrubada na Amazônia será superior a 10 mil quilômetros quadrados. A ecóloga das universidades de Oxford e Lancaster Erika Berenguer, uma das maiores especialistas em efeitos das queimadas na Amazônia e coautora da pesquisa, salienta que a área desmatada equivale a oito vezes o tamanho do município do Rio de Janeiro.

— Estimamos uma perda de 1,2 bilhão de árvores devido ao desmatamento. Ou seis árvores para cada brasileiro — diz ela.

O líder do trabalho, Jos Barlow, das universidades de Lavras (MG) e de Lancaster (Inlgaterra), explica que a alta taxa anual reflete o aumento acentuado no desmatamento mensal detectado pelo Deter-b. A área desmatada na Amazônia em julho de 2019 foi quase quatro vezes maior que a média do mesmo período entre 2016 e 2018. Já o número de incêndios em agosto de 2019 foi quase três vezes maior que em 2018 e o mais alto desde 2010, segundo o Inpe.

— Há fortes evidências de que o aumento das queimadas está ligado à elevação do desmatamento a patamares que não se via há mais de dez anos. É um retrocesso para o Brasil, que havia controlado a derrubada da Amazônia — diz ele.

O trabalho analisa os tipos de incêndio e descarta que fogo associado a práticas tradicionais de agricultura e pecuária tenha relação com o aumento. Tampouco incêndios florestais associados a fatores climáticos, já que este ano foi úmido dentro na normalidade. As queimadas são usadas tanto para induzir a degradação da floresta justificando sua derrubada posteriormente como para limpar as áreas onde a floresta já foi derrubada. O fogo transforma as árvores mortas caídas em cinzas e abre caminho para o gado e o homem. Está associado à invasão de terras públicas não destinadas e de unidades de conservação.

Prisioneiras do fogo

Um exemplo é a Floresta Nacional (Flona) de Jamanxim, no Pará, onde as queimadas aumentaram em 355% entre 2018 e 2019 — 44% acima da média de longo prazo. De acordo com o Deter, a Flona de Jamanxim é a unidade de conservação mais desmatada da Amazônia de 1 janeiro a 7 de novembro (data da última atualização). Ela perdeu 117,02 Km2.

— O crescimento do desmatamento, marcadamente em maio, junho e julho, é a causa do aumento das queimadas — afirma Jos Barlow.

Ele acrescenta que o desmatamento continuou a crescer em agosto, setembro e outubro, segundo o Deter. Para os pesquisadores, isso é um indicador de que 2020 estará sujeito a mais queimadas.

Os cientistas analisam também o que acontece com as florestas atingidas pelo fogo. Eles estudam unidades de conservação no Oeste do Pará que pegaram fogo em 2015. Naquele ano um intenso El Niño causou uma seca devastadora que facilitou a propagação de incêndios. Passados quatro anos, as matas estão verdes. Mas as cores enganam. A composição da floresta mudou. Grandes árvores deram lugar a um emaranhado de vegetação. A mata pós-fogo não tem a mesma biodiversidade e não oferece os mesmos serviços ecológicos que a floresta original. Também ainda é mais vulnerável a incêndios, pois o fogo se propaga com mais facilidade numa vegetação mais fina, seca e densa do que a floresta úmida.

— É até difícil chamar as matas queimadas de Floresta Amazônica, embora ainda assim contenham mais diversidade do que uma área desmatada. É uma mata aprisionada pelo fogo, à mercê de um ciclo vicioso que a faz queimar mais de uma vez — diz Berenguer.

Com a mata prisioneira, sofrem as pessoas que dependem dela. A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, diz que os extrativistas têm menos o que coletar. O fogo destrói a estrutura da floresta e ameaça a segurança alimentar das populações tradicionais da Amazônia.

Erika Berenguer lembra que a fórmula para combater o desmatamento é bem conhecida. O país chegou a reduzir a taxa em 80%. Em seu estudo ela, Barlow e os coautores Rachel Carmenta e Filipe França agradecem a contribuição de alguns cientistas que preferiram manter o anonimato. “Alguns colaboradores recusaram a coautoria neste trabalho para manterem-se no anonimato. Lamentamos que isso fosse necessário”, escreveram.

— O Brasil vive um retrocesso ambiental — destaca Berenguer.

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