Acidente nuclear de Fukushima completa oito anos

SILVIO MORI – JAPÃO AQUI

O dia 11 de março e uma data histórica para o Japão, principalmente, relacionada a tragedias naturais. Neste dia em 2011, um forte terremoto de 9 graus na escala Richter atingiu o Japão e provocou um tsunami na Ásia, cidades situadas no nordeste do País foram atingidas por ondas com 10 metros, destruindo tudo que aparecia pela frente.

Fukushima, além da destruição sofreu ainda mais com o acidente nuclear na usina Fukushima Daiichi, três dos seis reatores foram destruídos e liberam material radioativo, sendo o maior desastre nuclear desde o acidente de Chernobil.

O tsunami de 2011 fez mais de 15800 vítimas fatais e o acidente nuclear provocou uma evacuação de Fukushima. Após oito anos, a região que já foi forte na produção de arroz, verdura e frutas, além do potencial turístico, tenta se reerguer com dificuldades.

O dia 11 de março  não passa despercebido pelos japoneses e nem pelos brasileiros, principalmente por aqueles que se solidarizaram na época da tragédia e como voluntários ajudaram nos resgates de vítimas e sobreviventes na região.

Walter Saito, 51 a os, morava na época no Japão e companhou o ocorrido pela televisão, após assistir uma reportagem na rede de tv NHK,tomou iniciativa de ajudar.

“Liguei para a província de Miyagui e perguntei o que mais precisavam, eles disseram que precisavam de arroz”, relata.

O brasileiro então  deu início a uma campanha de arrecadação, em poucas horas conseguiu o suficiente para a primeira ida até a região afetada pelo tsunami. Form inúmeras idas, cada vez em que seguiam para o local, voltavam trazendo brasileiros que não conseguiam sair das áreas atingidas.

“Nos tínhamos dificuldades na época, não tínhamos combustível, era uma quantidade certa por pessoa e o veículo. E as estradas paralisadas, tinha que dar uma volta muito grande”, conta.

O canário de destruição visto por Saito estão presente em sua mente, a cena marcante segundo o brasileiro, era ter visto crianças procurando alimentos próximos a lojas de conveniências.

“O Japão sempre foi um país sem problemas financeiros, não é normal ver crianças procurando comida em destroços, me chocou e ficou na minha memória”, relata.

Mais ajuda de brasileiros

O empresário brasileiro Noberto Shinji Mogi, esta no Japão desde 1990, decidiu que precisava fazer alguma coisa desde que viu as imagens pela tv. “Em março as temperaturas na região era negativa e ainda tinha neve em cima das casas. Imaginei que se houvessem sobreviventes, morreriam naquele ritmo de trabalho”, disse.

Atuando no país na área da construção civil, Mogi estava decidido em ir para a região atingida pelo tsunami no dia seguinte, juntamente com mais dois funcionários, levando um trato e um caminhão. A primeira barreira encontrada foi a não autorização de ida pela polícia de Kanagawa, província em que reside até hoje.

“As vias de acesso estavam interditadas, toda destruídas e a minha ida podia causar mais transtornos às autoridades do que ajuda-las”, essa foi a justificativa da polícia para o ter o pedido negado.

A contra gosto, o brasileiro decidiu esperar a liberação das estradas. Os dias foram passando e Mogi não suportou apenas acompanhar pela tv, decidiu partir para a região com os dois funcionários por conta própria.

Mogi encontrou todo tipo de barreiras que não imaginava, as estradas realmente estavam interditadas. A viagem que levaria seis horas durou 30 horas. O frio não permitiu aos brasileiros dormirem, a falta de energia na região dificultou ver o que havia pela frente e a verdadeira destruição  causada pelo. Mesmo diante da tragédia, a burocracia chocou quem estava ali como voluntário disposto a encontrar sobreviventes.

” O responsável da prefeitura de Natori, disse que não poderíamos usar o trator sem autorização. Indignado, perguntei a ele como poderia estar preocupado com burocracias enquanto pessoas morriam fora dali. Disse que iria para a cidade ajudar, virei as costas e deixei ele falando sozinho”, comenta.

A imagem real do local era totalmente diferente do que se via na TV. A comoção e o desejo de ajudar foi por instante substituído pelo medo.

“Senti medo, pois parecia que todo aquele entulho de casas estava se movendo e vindo em nossa direção Naquele momento desejei não ao estar ali e pensei, o que estou fazendo aqui ?” , conta Mogi.

Durante o trabalho voluntário em encontrar sobreviventes o brasileiro  lembra que encontrou um senhor de aproximadamente 60 anos, mexendo nos destroços de uma casa. ele procurava pela esposa, nora e neto. O grupo de brasileiros ofereceu ajuda e o senhor disse que não teria como pagar, ate que Mogi explicou que era voluntário.

Durante três dias de buscas incansáveis pelos familiares do senhor que se chamava Hiratsuka, ninguém foi encontrado. Apenas pertences pessoais e uma vida salva, a do próprio senhor Hiratsuka.

” Ele disse que estava pensando em sem matar naquele dia, chorando disse que o nosso encontro e a forma de como trabalhamos para encontrar seus familiares deu-lhe forças para continuar a viver”, relembra Mogi.

Nesta segunda feira, 11 de marco de 2019, o desastre é o assunto mais comentado na imprensa japonesa, mas para quem esteve no local e viu tudo de perto, não precisa ser no mesmo dia da tragédia para ter lembranças. As imagens vistas no local, estão marcadas para sempre na memória de quem passou por lá, na esperança de salvar vidas.

Mogi esteve por dois anos visitando a região, sempre de forma voluntaria e tentando ajudar. Foi na segunda ida a Tohoku que teve a imagem marcante e que não ao sai de sua mente. Ao descarregar donativos arrecadados junto a comunidade brasileira no Japão, próximo a um abrigo em Ishinomaki, ele avistou uma menina de aproximadamente 5 anos, sentada em uma pedra, olhando para a cidade destruída. O voluntário perguntou para o responsável pelo abrigo a respeito da criança e soube que ela perdera toda a família, ficava ali todos os dias, esperando a volta dos seus pais e irmão.

Ao saber do porque da garota na pedra, o brasileiro foi para atrás do abrigo e chorou.

“A imagem desta menina sentada na pedra esta na minha memória para o resto da minha vida. Ela define a vida para mim. A inocência, a esperança, a fé e o futuro”, afirma.

O tsunami que atingiu Japão mudou a vida dos japoneses e dos brasileiros, momentos que marcam até hoje e estão presente na memoria de quem viu a destruição de perto. Para Mogi, tudo que passou nos seis dias em que esteve trabalhando na escavadeira, tentado retirar os entulhos mudou sua forma de encara a vida.

” Muitos dizem que ajudei as pessoas de la, mas creio que elas me ajudaram muito mais, me deram um novo rumo a uma nova concepção do que realmente vale a pena nesta vida”, finalizou.

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