A VIDA AO AR LIVRE, UMA MERDA

Pedro

Pedro Mattar

Não me convidem pra pescar. Ou acampar no mato. Nada contra a minha admiração pela natureza e interesse por sua preservação. Amo a natureza, amo sua existência e reconheço a necessidade de que seja mantida intacta com todos os seus acessórios e personagens. Só que tem o seguinte: gosto da natureza lá, com seus mosquitos, cobras e suas feras e, eu por aqui, admirando seus detalhes em filmes e fotografias.

Já andei mato adentro, sempre obrigado por trabalho ou algum outro dever. Jamais por opção. Existe alguma coisa mais primitiva que acampar no mato? Ficar o tempo todo espantando mosquito, dormindo no mesmo chão por onde as cobras fazem footing, na residência de onças, jacarés e a bicharada, sem ser convidado? Do mesmo modo que não gosto deles na minha cidade, respeito o espaço onde moram. Peixe, se quiser, compro na peixaria.

Senhores, senhoritas e autoridades presentes: nada é mais bloqueante que fazer cocô no mato preocupado de onde virá o bote. E nada é mais indigno que ser picado por cobra na bunda. E morrer com ela mais inchada do que já é. Acampar no mato é masoquismo ambiental de alto risco, além de extenuante. Há uma falsa sensação de liberdade nessa missão de acampar. O trabalho de desencaixotar as tralhas e preparar o que comer, me tira a fome só de imaginar. Que liberdade existe em passar o tempo dedicado à arrumação da barraca, que acaba quando é hora de voltar? Mais fácil é acampar no quintal de cada um, com a vantagem da geladeira, da cama de sempre e do disk-entrega.

Ar livre, pra mim, é escolher o ar condicionado por perto. Porque a única forma de desfrutar o calor é quando faz frio. Só ai ele é bem-vindo. De resto prefiro a temperatura fria e civilizadora, que preserva e nos obriga a ser disciplinados. Nos países sob clima frio a indolência não sobrevive, eles são obrigados a planejar a sobrevivência. Vai dai….

Meu trauma ecológico teve inicio quando prestei o serviço militar obrigatório em 1959, na aeronáutica. Tinha dezoito anos e me designaram, junto a um companheiro, pra pernoitar na selva da Serra do Mar, cuidando dos destroços de um avião que tinha caido ali. Mato puro, nenhum sinal de civilização e bicho pra todo lado. Eramos PA e portávamos metralhadora e Colt 45. A minha pergunta de soldado idiota era a seguinte: quem roubaria os destroços de um avião, um caça T-6 da segunda guerra, já furibundo e sem nada que pudesse interessar a alguém ?

Detalhe: quem nos levou até lá esqueceu da gente por três dias, sem água, sem comida, sem apetrecho pra dormir ou coisa parecida. Mato denso e perigoso. De qualquer forma, não dormimos. Ficavamos um de costa pro outro prontos pra atirar em quaisquer olhinhos que brilhassem no escuro. Deitar por ali, nem pensar. Depois de dois dias esquecidos e esfomeados, saimos pela redondeza e encontramos uma barraca onde um fulano vivia (não sei fazendo oquê), e nos deu o fundinho de uma panela com restos de feijão. Antes disso a gente estava roendo casca de árvore como se fosse ova de esturjão.

A natureza é maravilhosa se a gente não se meter a encher o saco dela. Já afirmei aqui neste espaço que incluimos todos os tipos de bichos em nosso cardápio cotidiano, mas ficamos escandalizados quando um desses bichos resolve colocar um de nós no cardápio deles. Tô fora.

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