27-05 – ATENTO ÀS DESIMPORTÂNCIAS

Pedro

Pedro Mattar

Confesso ser um observador pentelho. Quando olho uma moça bonita, não me limito a observar sua beleza, gosto de avaliar seus detalhes sob rigorosos termos. Atrás daqueles olhos verdes, da pele perfeita, do narizinho arrebitado e a boca bem desenhada, imagino, sempre, se esconder ali uma caveira horrivel. Imediatamente imagino a caveira dela. Me fixo nisso até sua beleza deixar de ser tão marcante. Completo meu raio X enxergando o interior daquele corpo maravilhoso, onde move-se um esqueleto assustador… E assim vai. Vou destruindo na fonte, tudo o que jamais podereis desfrutar. Quando tinha (faz tempo) alguma chance de conquistar alguém, nada disso acontecia.

Esse sistema de neutralizar coisas que me fogem do alcance (ou possibilidades), foi a forma que achei pra justificar minha incompetência. Ou feiura. Mas acontece que sempre fui um observador de coisas inusitadas. Toda minha vida prestei atenção em nuvens vadias e enxerguei nelas figuras que passavam quase despercebidas no céu. Costumo prestar atenção no que poucos reparam e olho para o lado oposto ao que todos olham. Só um pentelho faz isso.

Sob esse enfoque, já observei passarinhos voltando a pé pra casa, já flagrei cachorro piscando pra cadela – sem que ela devolve-se a paquera. Enquanto um cara dá entrevista pra TV, flagro o sujeitinho no meio de uma multidão, bem atrás, levantando o dedo médio para a câmera. Aquele sinal que desejamos a alguém que não gostamos. Essa mania de olhar onde poucos olham me faz surpreender motoristas prospectando nariz, mulheres ajustando soutien em jantares, outras tirando calcinha enfiada entre as nádegas em bailes de gala e cidadãos tentando disfarçar ereções depois de dançar juntinho. Eu atraio banalidades.

Não devo ser o único que faz isso, mas sou o único que eu conheço pessoalmente. O fato é que todo olhar oferece dois ângulos de interpretação. E a interpretação faz muita diferença. Se você estiver à procura de um amor que preencha sua vida insípida e solitária, seu olhar na direção de qualquer mulher (se você for homem) irá fantasiá-la conforme pede o seu imaginário ou interpretação. Nada de caveira, nenhuma estrutura esquelética, apenas a suavidade dos gestose e a maciez da pele. Se você for mulher e estiver um busca do seu amado, só irá enxergar o vigoroso potro inquieto que cavalgará suas noites de amor e de romance pelo resto da vida.

Por outro lado, se você estiver com alguma raiva armazenada, seja qual for o motivo, ao olhar alguém nesses momentos cruciais, enxergará um recepiente prontinho onde despejar todos os seus dejetos represados.

Dois olhares a partir de um mesmo ponto de vista (ou fuga), jamais serão iguais em suas interpretações finais. Podem até coincidir em vários pontos, mas na soma total sempre existirão discordâncias. Por acreditar que essa divergência é concreta, presto mais atenção no que se esconde, do que ao próprio foco do olhar.

Coisas banais exercem um atração avassaladora sobre mim. Devo ser um brega conceitual em busca de argumentos que alimentem minha fome de coisas comuns. Não consigo enxergar alguém sem despojá-lo(a) das poses que porventura carregue. E fico imaginando que a minha missão neste planeta tanto pode ser de um polidor de vaidades, enxugador de sonhos, limpador de pretensões ou fabricante de papo furado. Como agora.

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