24-02 – ECOS DE UMA MORTE

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Umberto Eco acaba de receber honras fúnebres no Castelo Sforzesco, em Milão, pertinho da casa dele, onde morreu, cercado por 30 mil livros. No Castelo, último abrigo de seu corpo antes da cremação, estão obras eternas de outros gênios italianos, como Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarroti. O funeral foi transmitido pela TV para toda a Itália. A morte de Umberto Eco foi registrada nos principais jornais do mundo. Aqui, Miriam Leitão escreveu que O Nome da Rosa fez companhia a ela, no início dos anos 80, quando   estava numa crise de tristeza. Número Zero, lançado no ano passado, foi o último romance do genial italiano.

Intelectual de esquerda, nunca fez concessões à ignorância. É dele a seguinte crítica: “As redes sociais deram o direito à palavra a imbecis que antes só falavam em bares, após um copo, e não causavam mal à coletividade. Agora é a invasão dos imbecis.” No dia da morte de Umberto Eco, depois da notícia na internet, li o seguinte comentário de internauta: “Mais um Zé-Ninguém que ninguém conhece”. A manifestação de estupidez confirma a crítica de Umberto Eco. É a voz dos imbecis que antes só tinham voz depois de um copo no bar. O comentário está assinado, significativamente por “Torcedor Fanático”. Nada mais fácil de entender.

Por que a pessoa tem orgulho de sua ignorância e a expõe com arrogância? É uma defesa, diria o Velho Freud. Mas, certamente se tivesse tristeza e vergonha de sua situação, iria buscar no conhecimento a alegria de aprender. Venho aprendendo a cada dia há mais de 75 anos. Por exemplo, no sábado em minha casa, uma inglesinha que brilha no The Phantom of the Opera de Londres, ensinou-me a pronunciar certo a marca do chá Twinnings que tomo todos os fins-de-tarde. Pena que vivemos no país que não dá importância ao conhecimento e ao ensino, porque mais vale o pistolão ou a cor da pele que o mérito e a capacidade pessoal.

Acabo de rever uma entrevista de Lula – então candidato – a dizer que tem preguiça de ler  “eu não gosto de ler”. O ex-ministro Almir Pazzianotto contou-me que, quando era advogado do Sindicato dos Metalúrgicos, sofria com Lula, que ironizava com desprezo os detentores de curso superior. Num país em que um líder tem essa postura, o que esperar de um povo que descobre que para ser Presidente da República não é preciso ler nem estudar? Quanto a mim, fico feliz em ter um pouco de Umberto Eco na cabeça. O chapéu de feltro que uso é feito na lombarda Alexandria, onde o genial escritor nasceu, há 84 anos.

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