16-07 – TRÁFICO DE BOBAGENS

Pedro
Pedro Mattar

Perdi muito tempo procurando a verdade antes de descobrir que ela não existe. Aquelas que ainda teimam em se apresentar como tal, só servem para alimentar os medos que teimam sobrevoar minha cabeça. Tanto a verdade como a mentira são variações óticas, proporcionais ao critério de quem as inventa.

Essas conclusões ai em cima me condicionam ocupar a vida fazendo coisas que não exigem compromisso. Me tornei uma espécie de contrabandista de absurdos. Escrever abobrinhas, por exemplo, é um dos meus artifícios pra enganar a realidade. Você que me lê deve ter percebido, na ausência de coisas consistentes, me dedico inteiramente a bobagens.

Cansado de buscar as origens e tentar explicar o inexplicável minha única alternativa foi adotar a bobagem como fertilizante de conversas fiadas. Você planta uma bobagenzinha numa esquina qualquer e ela prolifera igual casais de coelhos.

Meus sentimentos estão fora desse contexto. Deixei de escrever o que sinto – porque nunca soube exatamente o que sinto. Meu inconsciente talvez saiba, mas com ele não mantenho contato .

Tendo nascido no hemisfério sul da minha mãe e sem contribuir com alguma opinião ou decisão pessoal, me tornei metade do que imagino, um terço do que dizem e o resto do que sobrou. Acabei exilado de mim e deixado à deriva, como é fácil perceber. Não existe sentido no que eu falo ou escrevo. Não me escuto, também.

Por conveniência finjo acreditar na sensibilidade como referência poética. Mas ela some toda vez que me sinto fragilizado. Nessas horas fico disposto a entregar os pontos e me refugiar em algumas oferta de embarque, seja lá para onde for. Mesmo sabendo fingir, me agarro no puta merda no assento do carona quando busco respostas inexplicáveis.

Pratico exercícios no terreno das hipóteses, mas não me deixo levar por elas. Acredito firmemente nos meus mêdos, são eles que determinam meu rumo. São os mesmos que se divertem me assustando, enquanto caminho no cemitério das conjecturas.

Já o meu sentir não tem censura, deve ser meu setor mais autêntico, como nenhum outro dentro de mim.

Quando não sinto a lógica, me deixo levar pela inspiração. Acredito fanaticamente nas coisas que existem e me mandam recados, sem que eu os tenha pedido. Mas o instinto continua como referência da realidade que me convém, Se existe algum lugar para continuar minhas buscas, elejo meu interior como o mais próximo do que procuro.

Se eu desvendasse, por acaso, todos os segredos, teria descoberto a finalidade do mundo e da vida. Se um dia acontecer, terei obtido a serenidade premiada por essa busca sem fim. E que no final não servirá pra porra nenhuma.

Eu avisei no título, você é que insistiu em continuar lendo.

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