05-08 – EXCLUSÃO É ISSO AI

Pedro
Pedro Mattar

Não faço ideia da idade de vocês, leitores, mas posso assegurar que vivi um período em que poucos entre vocês já tinham nascido. Nesse tempo os telefones eram todos pretos e de galalite, as geladeiras eram obrigatóriamente brancas, sapatos eram pretos e marrons e era impensável carros coloridos com as cores de hoje. Havia uma limitada ousadia e adotavam-se esses padrões por entender que era essa a preferência dos consumidores e usuários na época. Ninguém se atrevia a colorir produtos, além da conta.

Mas tudo muda, nada é definitivo, hoje até as araras estão desgovernadas. Na trajetória que percorri registrei diferentes mudanças desse tipo. Antes de citar o telefone e a geladeira, havia andado em carros movidos à gasogênio, nos anos que marcaram a Segunda Guerra e que impunham economia de combustível. Usei telefones de paredes, com manivela, nos quais uma telefonista completava a ligação para números de dois dígitos. Ou seja, eu sou velho pra caralho.

Em 1948 começaram a produzir as “moderníssimas” vitrolas, mas persistiu em algumas casas, o famigerado gramofone, aquele reprodutor de discos com um cone que amplificava o som, coisas do tempo da onça. Funcionava à manivela e emitia um som arranhado, a agulha do bicho era grossa e serviria para ralar queijo.

As mudanças vieram me acompanhando – ou vim na cola delas – até os dias atuais. Uma coisa é certa, as comunicações assumiram uma velocidade dificil de imaginar. Na medida em que ocorrem, as mudanças vão excluindo você, na proporção que você perde a energia pra acompanhá-las. Nada contra as mudanças, elas são fundamentais, mas enche um pouco o saco algumas alterações que são incorporadas no seu dia a dia. Tira você da zona de conforto e do acomodamento, muda o seu ritmo.

Enquanto dependiamos do sistema de enviar cartas pelo correio, a gente ficava impressionado com a eficiência da remessa: três dias, quatro dias e a carta chegava onde quisesse. Depois o Sedex, depois o fax, depois a puta que o pariu. O fax foi meu primeiro impacto com a tecnologia, êita fax. Vieram o telefone sem fio, depois o computador, depois os celulares e depois a casa do catso.. Hoje os carinhas levam a lanterna, a câmera, o fax, a máquina fotográfica, o gravador e o telefone no bolso, tudo num tréco só.

Agora os carinhas fotografam o que estão comendo (antes de comer), em Paris, e mandam a fotografia do prato pros amigos do mundo inteiro. O nenê todo lambuzado de placenta , tem sua foto de boas vindas publicada pro mundo ver, no facebook, dois minutos depois de sair do anonimato uterino. Cartas, nem pensar. O correio está com dias contados, vai virar empresa de transporte de carga, não de mensagens

Fulano descobriu uma birosca na Catânia (sul da Itália), e o mundo inteiro fica sabendo, também, que hoje é aniversário de 72 anos de dona Jacira, moradora em Jaguatirica da Serra. Vem com a foto dela, a família e a vizinhança. Acabaram-se as intimidades, que agora parecem fraturas expostas na vitrine da vida moderna.

Isso tudo irá virar histórias de museu dentro de pouco tempo. Registre suas observações atuais e prepare-se para contar a mesma história que conto agora, quando lá na frente você se lembrar das coisas velhas do seu tempo. Saudações tecnológicas de museu.

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