Van atropela fiéis diante de mesquita em Londres

Jackson Nogueira com /AFP, REUTERS e WASHINGTON POST

A polícia de Londres, no Reino Unido, trata como atentado terrorista o atropelamento de pessoas em frente a uma mesquita na madrugada desta segunda-feira (0h20 no horário local, 20h20 em Brasília), 19, na região do Finsbury Park, no norte da capital britânica. Uma pessoa morreu e dez ficaram feridas, segundo a Scotland Yard. Um homem suspeito de ter conduzido a van em direção aos pedestres, na Avenida Seven Sisters, foi preso. Todas as vítimas fazem parte da comunidade muçulmana.

Polícia fecha rua no norte de Londres após uma van atropelar pedrestres em Finsbury Park Foto: REUTERS/Ritvik Carvalho

“Uma pessoa foi presa. O caso está sendo tratado como um ataque terrorista”, afirmou o coordenador de contraterrorismo da Scotland Yard, Neil Basu, que também disse ser cedo para determinar a motivação do ato. O Conselho Muçulmano Britânico afirmou, por meio do Twitter, que se tratou de “um violento ato de islamofobia”.

A primeira-ministra Theresa May anunciou que participará de uma reunião de emergência na manhã desta segunda para analisar o caso. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, disse que o crime foi um “ataque contra todos os valores de tolerância, liberdade e respeito”. Ele garantiu que equipes policiais já estavam reforçando a segurança de comunidades, em especial aquelas que aderem ao Ramadã.

A polícia foi acionada 0h20 e as ruas próximas ao Finsbury Park foram fechadas. Segundo a Scotland Yard, oito pessoas feridas foram levadas a três hospitais diferentes na capital e outras duas pessoas foram tratadas no local em razão de ferimentos leves.

Os pedestres atropelados eram fiéis que estavam saindo da Mesquita Finsbury Park após a última oração no mês sagrado do Ramadã. Segundo relatos à rádio BBC, uma van se aproximou devagar da mesquita e, em seguida, acelerou propositalmente. Testemunhas disseram que havia três pessoas dentro da van, duas conseguiram fugir e uma foi dominada pelos pedestres. De acordo com as placas do veículo, ele seria de Gales e teria sido alugado.

Mohammed Kozbar, imã da mesquita, manifestou-se pelo Twitter. “Nossos pensamentos e orações estão com aqueles que ficaram feridos ou foram afetados por esse ataque covarde na região de Finsbury Park”.

Histórico
Em 2005, o epicentro do jihadismo em Londres ficava no distrito de Finsbury Park, mais precisamente na mesquita de Finsbury Park, à época controlada pelo imã extremista Abu Hamza al-Masri, condenado à prisão perpétua nos EUA após ser extraditado por envolvimento com a Al-Qaeda.

Al-Masri foi, ao lado do advogado Anjem Choudary, fundador do grupo jihadista Al-Muhajiroun – “Os Emigrantes” –, uma das personalidades mais controvertidas do Reino Unido por pregar abertamente a guerra santa e o terrorismo.

Al-Masri se tornou imã da mesquista de Finsbury Park em 1997, quando ela ganha a reputação de um centro de islamismo radical em Londres. Al-Masri fazia praticamente todos os sermões. No primeiro aniversário dos ataques de 11 de setembro, ele foi um dos organizadores de uma palestra na mesquita elogiando a ação dos sequestradores.

Cinco anos depois, soube-se, durante o julgamento dos homens posteriormente condenados pelos atentados fracassados em 21 de julho de 2005 em Londres, que vários dos autores haviam frequentado a mesquita de Abu Hamza.

Medo
Esse atropelamento revive o sentimento de medo na capital britânica, que viveu dois recentes ataques com o uso de veículos. No dia 22 de março, um britânico de 52 anos jogou um carro contra pedestres na Ponte de Westminster, matando quatro. Em seguida, o homem esfaqueou um policial – que também morreu – e foi morto pela polícia.

No dia 3 de junho, em um ataque terrorista, uma van atropelou diversas pessoas na Ponte de Londres e, em seguida, três homens desceram e esfaquearam pessoas perto do Mercado Borough e num restaurante na Rua Stoney. Os três terroristas foram mortos pela polícia logo em seguida. Pelo menos oito pessoas foram mortas no atentado, com outras 48 ficando feridas.

O ataque, ocorrido dias antes das eleições legislativas no Reino Unido, levou à perda de maioria absoluta no Parlamento do Partido Conservador da primeira-ministra Theresa May.

Estudos de diferentes universidades e centros de pesquisas na Europa e EUA revelam que ataques terroristas têm impacto em votações. Na base de todos os estudos está a capacidade de o terrorismo causar pânico em um grande número de pessoas, principalmente em centros urbanos. O impacto, segundo psicólogos, vai além dos que foram alvos do ataque e pode ser registrado também numa comunidade inteira que se sente ameaçada. É essa insegurança que levaria a uma atitude que fugiria da lógica partidária.

Em estudo do ano passado, do departamento de psicologia política da Universidade de Maryland, pesquisadores mostraram que o impacto seria mais complexo do que a mera mudança de voto, mas os eleitores estariam mais dispostos a adotar posições mais extremistas. No estudo, foi constatado ainda que, ao sofrer um ataque, uma comunidade estaria mais propensa a aceitar regras não democráticas, em especial contra minorias vistas como ameaça.

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