Stédile critica governo Dilma: “Ninguém torce para time que faz gol contra”

Líder do MST críticas governo petista de Dilma Rousseff: “Ninguém torce para time que faz gol contra”

O fundador do Movimento dos Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, atacou duramente a política econômica do governo em entrevista concedida quinta-feira (12), ao jornalista Mário Sérgio Conte, da GloboNews.

Veja as declarações de Stédile:

“Nós votamos na Dilma [Rousseff] para poder derrotar a ameaça que havia do retorno do neoliberalismo na proposta do Aécio [Neves], e votamos num programa que a Dilma se comprometeu ao longo de sua campanha. Fizemos uma reunião com ela logo depois da eleição, no início de dezembro, onde ela firmou uma série de compromissos relacionados com a agricultura e com a reforma agrária. Infelizmente, eu acho que ela cometeu muitos erros. Ela montou um governo medíocre, conservador, não sei por quais influências. Não foi esse o recado das urnas. As urnas, como ela mesmo diz, queriam mais mudanças, mas não para trás. Mudanças para frente”, destacou Stedile.

O fundador do MST prosseguiu: “Ela cometeu erros em botar o [Joaquim] Levy [ministro da Fazenda], que poderia ter sido ministro do Aécio. Cometeu erros ao aplicar uma política econômica que é míope, porque todos nós estamos conscientes que o Brasil está vivendo uma grave crise econômica, que é parte inclusive da lógica do capitalismo internacional. Ninguém é burro de ficar dizendo que a culpa é do governo por essa crise econômica.”

Stédile acrescenta: “No entanto é responsabilidade do governo, identificando um diagnóstico de uma economia que está em crise, agir com instrumentos de politica econômica que ajudem essa economia a sair mais rápido da crise. Portanto o governo tem que ajudar com investimentos, tem que aplicar nos dois setores que podem gerar mais produção, que é a indústria e a agricultura, para o mercado interno. Já que a agricultura de exportação também bateu no teto. E a política econômica do governo reduziu essa visão de que a crise é apenas um problema de orçamento da União. O orçamento é consequência da crise. Então você não resolve a crise mexendo só no orçamento. Então o Levy, agindo como um contador de um sindicato qualquer, pegou a planilha e disse para a presidente: ‘A receita vai ser 100 e nós vamos gastar 130. Então, nós temos que cortar’. A economia brasileira é muito mais complexa e a crise é diferente do que isso. E aí, o erro que ela cometeu como governo foi aumentar taxa de juros, achando que isso seria suficiente para conter a inflação. Na verdade, a taxa de juros é um mecanismo perverso de concentração da riqueza porque ela tira dinheiro do orçamento da União, que poderia se reverter em investimentos sociais e produtivos, e joga tudo para o banco. E ao mesmo tempo induz os capitalistas, que apenas querem ganhar dinheiro, a irem para o rentismo, em vez de continuarem investindo na economia.”

Ele declara que é, sem dúvida, oposição à política econômica do governo hoje: “Esta politica econômica vai fazer com que a presidenta vá perdendo cada vez mais a base social que votou nela. Por isso eu tenho dito publicamente que é uma política burra. nem tira a economia da crise nem dá sustentação social para o governo dela. Ninguém torce para time que faz gol contra.”

Perguntado no programa sobre sua opinião a respeito dos escândalos de corrupção que hoje envolvem inúmeros políticos brasileiros, Stédile criticou enfaticamente o sistema eleitoral do país: “Assim como nós termos uma grave crise econômica, nós temos uma grave crise política no Brasil. E qual é a origem? A origem é que o sistema eleitoral está falido, pois foi sequestrado por um modo de fazer campanha em que as empresas financiam campanhas milionárias. O sistema todo é corrupto. O que a Lava Jato jogou na nossa cara todos os dias na televisão é a ponta do sistema. Todos os partidos aplicaram lava jato, todos eles vão lá bater na porta das empresas.”

Ele continua: “É uma hipocrisia dizer simplesmente que o PT é corrupto. Nós poderíamos dizer com os mesmos argumentos que os tucanos são corruptos. O sistema eleitoral é corrupto. Não adianta botar preso dois ou três [políticos]. Claro que no episódio da Petrobras você tinha dois, três diretores que roubaram pra eles. Tem que devolver o dinheiro e colocar na cadeia. Agora, não é aí que está o problema. Corrupção nas empresas, qualquer investigação aí vai achar. Nós temos que fazer mudanças radicais no sistema político. O STF, envergonhadamente e corretamente, deu o primeiro passo, o de proibir [o financiamento privado de campanhas], mas é insuficiente, porque permite ainda que o candidato rico use dinheiro da sua empresa. Então, diminui mas não resolve, porque os candidatos aí serão os empresários.”

“Qual é a saída? Há várias saídas. No curto prazo, há um Projeto de Lei que foi apresentado por 60 entidades, encabeçadas pela CNBB e a OAB. A deputada Luiza Erundina [deputada federal pelo PSB] foi quem o escreveu no Congresso. Mas está lá parado, o Cunha engavetou. Poderia ser uma forma de fazer mudanças que melhorassem”, analisa o fundador do MST. “A nossa expectativa é que a sociedade jogue na cara deles [dos parlamentares conservadores], os pressione, para que eles se sintam no mínimo constrangidos.”

Sobre o futuro do PT, ele opinou: “Eu acho que todos esses partidos de esquerda que estão aí são reféns desse sistema eleitoral perverso. Então se você olhar pra eles só como partidos eleitorais, eles vão continuar, mas eles vão estar reféns deste modus operandi que é corrupto. Portanto, a força deles vai minguar cada vez mais se nós não tivermos uma mudança de reforma política. Agora, o PT como partido de esquerda, eu acho que ele tem futuro. Mas futuro pra quê? Se for só pra eleger deputados, ele pode se transformar no PMDB, ou no partido socialista espanhol, que tem uma boa base parlamentar, mas já não quer mudanças. O que nós, como movimento popular, temos como expectativa, é que a esquerda, e não só o PT, precisa ser refundada, no sentido de seus objetivos. Existe a necessidade dos partidos de esquerda de prepararem sua militância, de atuarem na sociedade em busca da criação de uma hegemonia de ideias socialistas, ideias justas, ideias da igualdade. Porque você pode ter até uma maioria no parlamento, mas se a sociedade continuar conservadora, individualista, e egoísta, ela vai querer pena de morte como se isso fosse resolver os problemas das desigualdades sociais que nós temos.”

Fonte: Jornal do Brasil

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