Se a baleia azul foi embora, o que fica é a necessidade de falar sobre depressão e suicídio infantil

Michael Franco

A cerca de dois meses atrás vinha à tona o jogo da ‘Baleia Azul’, que ganhou fama por seu caráter psicologicamente violento e mórbido. Para quem não lembra, ele era praticado principalmente por adolescentes e consistia em uma série de cinquenta desafios, cujo o último deles era o de tirar a própria vida. Resumindo, era um jogo suicida. O assunto tomou conta das redes sociais e redações jornalísticas. No entanto, assim como a maioria das temáticas que “explodem”, com o passar do tempo, o jogo foi esquecido.

Além da comoção em decorrência do suicídio de jovens, a possível influência do jogo em crianças e adolescentes com depressão também tomou conta dos debates acerca da ‘Baleia Azul’. Mesmo com o natural esquecimento, a discussão é necessária e deve acontecer. O Página Brazil conversou com uma psicóloga e com uma mãe que tem uma filha com depressão infantil, na tentativa de ajudar a sociedade a entender o assunto e fomentar novamente o debate.

Um pouco mais de histórico

As discussões a respeito da ‘Baleia Azul’ tinham duas vertentes. A primeira delas era o induzimento ao suicídio, característica principal do jogo; a outra era a motivação que o jogo produzia em jovens em situação de risco, como depressão. Esta última temática se fortificou com a estreia da série da Netflix “Thirteen Reasons Why”, que gira em torno de uma estudante que se mata após uma série de falhas culminantes, provocadas por indivíduos selecionados dentro de sua escola. Muito se discutiu também sobre o tratamento que a mídia dá ao suicídio.

No dia 4 de junho, um jovem de 23 anos se suicidou na semana passada e parece ter replicado a ideia de deixar mensagens para os “culpados” como no polêmico seriado 13 Reasons Why.

Franco Alonso Lazo Medrano era engenheiro industrial, que segundo a imprensa peruana ele disse “não suportar uma desilusão amorosa e se jogou do quarto andar de seu apartamento em Arequipa, diante de sua mãe”.

Vamos entender

A psicóloga Thamyres Ribeiro, nos ajuda a entender o tema

A psicóloga Thamyres Ribeiro explica que crianças com depressão estão em situação de vulnerabilidade e podem ser influenciadas por fatores externos. “É possível que algumas dessas crianças acabem vendo aquilo [o seriado, ou relato relacionado ao suicídio] e pensem ‘se para aquela pessoa não tem solução, se ela não achou um meio é talvez porque não tenha um meio’. Quando um caso desse é muito exposto, dependendo da pessoa que está olhando ela pode acreditar que não tenha outros meios de sair dessa situação”.

Ainda sobre a exposição da temática de suicídio e depressão na mídia, a psicóloga acredita que somente o aspecto da morte é abordado. Para ela, a apresentação das soluções existentes para amenizar os casos de depressão ainda é negligenciado. “Não se vê uma reportagem falando da terapia grupal ou individual, de todo um processo e de uma acolhida que pode ajudar esse tipo de população. Isso teria que estar bem relacionado para que ao mesmo tempo que aquela pessoa veja o que está acontecendo e se identifique com aquele sofrimento, ela vê que têm saídas e que tem gente tentando ajudar esse tipo de situação”.

É doença e ponto final

Antes de qualquer explanação, é necessário compreender o que é a depressão. Ela é uma doença, sem mais, e toda doença exige atenção e tratamento. De acordo com o médico Drauzio Varella, “é uma doença psiquiátrica, crônica e recorrente, que produz uma alteração do humor caracterizada por uma tristeza profunda, sem fim, associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto”.

Thamyres Ribeiro conta que a proporção de casos de depressão em adultos é muito maior do que a taxa de incidência em crianças. Segundo ela, mais de 300 milhões de adultos sofrem de depressão, enquanto cerca de 1% a 3% de crianças são atingidas pela doença. As causas para a depressão infantil estão associadas a variáveis biopsicossociais. Biologicamente, a genética é o principal fator de risco. De acordo com Thamyres “se um dos pais tem a doença, há 43% de chance do filho também desenvolver a doença”.

Outra variável é a imitação de comportamento dos pais. Como ocorreu com a vendedora Rosa Cristina Maia (39), que foi diagnosticada com depressão no ano de 2006, época em que sua filha, Maria Eduarda*, tinha quatro anos de idade. Rosa lembra que a tristeza causada pela doença a deixava isolada, sem desejo de se comunicar. Como ela trabalhava em casa, ficava com a filha e ao passar do tempo, Maria imitava o comportamento da mãe. “Eu sempre fiz minhas vendas daqui de casa, então passava o dia todo com a Maria, brincava muito com ela. Depois da doença, tinha dias que eu ficava meio isolada, só no meu computador e deixava ela sozinha com os brinquedos. Aí eu fui percebendo que ela também começou a ficar triste, parou de brincar, só queria ficar deitada, então levei ela no psicólogo”.

Como a mãe já tinha depressão, Maria tinha tendência a também ser atingida pela doença, e assim foi diagnosticada, depressão infantil. “Eu fiquei muito preocupada, porque eu tomava remédios pra depressão, mas não queria que minha filha tomasse”. Maria não precisou fazer tratamento com medicamentos antidepressivos, pois a mãe percebeu a mudança de comportamento precocemente e procurou averiguar a situação.

A psicóloga afirma que esta atitude contribui para o tratamento e que em casos como estes, onde há presença da doença nos pais, a atenção nas crianças deve ser redobrada. “Cada caso é um caso, mas se os pais têm depressão é bom já ir olhando o comportamento dessa criança para ver se ela vai desenvolver a doença. Porque quanto mais breve o pai percebe a mudança de comportamento, mais fácil será o tratamento”.

Depressão Infantil e suicidio

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a cartilha anual de recomendação para a prevenção do suicídio. Nela, são apontadas 15 causas frequentes que influenciam na retirada da própria vida, como o uso de álcool e drogas, perda ou luto e outros transtornos mentais, como a esquizofrenia. A maior parte dos casos são executados por pessoas com depressão, independente de sexo, faixa etária ou qualquer outra característica.

Ilustrativa

De acordo com a OMS, estima-se que cerca de 90% dos indivíduos que puseram fim às suas vidas cometendo suicídio tinham alguma perturbação mental e que, na altura, 60% deles estavam deprimidos. Na verdade, todos os tipos de perturbações do humor têm sido claramente associados aos comportamentos suicidas. A depressão e os seus sintomas (como, por exemplo, tristeza, letargia, ansiedade, irritabilidade, perturbações do sono e da alimentação) devem alertar todos os conselheiros para o potencial risco de suicídio.

Crianças com depressão tendem a ter comportamentos de risco, chegando ao ponto máximo da tentativa de suicído. Thamyres explica que tais atitudes são basicamente um pedido de socorro. “A partir do momento que a criança está doente, conflitos inconscientes fazem com que ela se envolva nessas situações de risco para chamar atenção. Às vezes ela sabe dos riscos mas, mesmo assim, uma força inconsciente faz com que ela entre nessas situações”.

Família eh, Família ah

“A sociedade está cada vez mais individualista por causa do micro-ondas, ninguém mais almoça junto, cada um chega em casa, esquenta sua comida na hora que quer e almoça em qualquer lugar”. Ouvi a frase em de um padre que participava de um congresso sobre família, diálogo e depressão. Talvez o micro-ondas não seja o principal vilão, porém a sociedade individualizada tem alta influência nos casos de depressão e suicídio infantil.

O diálogo no núcleo familiar é de extrema importância para percepção dos casos de depressão e até para evita-los, uma vez  que o isolamento é um sintoma da doença, a conversa pode ser o antídoto. Thamyres Ribeiro confirma a importância de um ambiente familiar bem estruturado. “A família propiciar para essa criança, um ambiente acolhedor, afetuoso e seguro faz com que a criança tenha uma liberdade e um conforto maior para se desenvolver. Hoje é necessário que os pais saibam ensinar seus filhos a ter tolerância a frustração. As crianças têm que entender que na vida a gente se decepciona”.

Os sintomas da depressão estão principalmente ligados às mudanças de comportamento, então, atenção e diálogo podem evitar agravamento nos casos.

Mitos

  • ‘Quem fala, não faz’ – Não é verdade. Muitas vezes, a pessoa que diz que vai se matar não quer “chamar a atenção”, mas apenas dar um último sinal para pedir ajuda. Por isso, os especialistas pedem que um aviso de suicídio seja levado a sério.
  • ‘Não se deve perguntar se a pessoa vai se matar’ – É importante, caso a pessoa esteja com sintomas da depressão, ter uma conversa para entender o que se passa e ajudar. Não tocar no assunto só piora a situação.
  • ‘Só os depressivos clássicos se matam’ – Não. Existe o depressivo mais conhecido, aquele que fica deitado na cama e não consegue levantar. Mas outras reações podem ser previsões de um comportamento suicida, como alta agressividade e nível extremo de impulsividade. Os médicos, inclusive, pedem para a família ficar atenta ao momento em que um depressivo sem tratamento diz estar bem: muitas vezes ele pode já ter decidido se matar e tem o assunto como resolvido.
  • ‘Quando a pessoa tenta uma vez, tenta sempre’ – A maior parte dos pacientes que levam a sério o tratamento com medicamentos e terapia não chegam a tentar se matar uma segunda vez. O importante é buscar a ajuda.

Vamos evitar e tratar

Soluções concretas sempre são difíceis de serem dadas, no entanto, podemos evitar muitas coisas ruins se pararmos de preconceito e olharmos com carinho e atenção a doença.

  • Vá ao psicólogo/psiquiatra: Está se sentindo mal, diferente, triste? Vá! Você não é louco por procurar ajuda de especialistas. Você não é louco por tentar entender a si mesmo. Louco é quem acha isso. O profissional vai te apresentar tratamentos específicos para seu caso.
  • Família, exista: Simples assim. Já se falou muito nesta reportagem, se você chegou até aqui já sabe que deve ter diálogo com seus pais, irmãos e todos do seu núcleo familiar. O ser humano é o único animal com um sistema comunicacional tão avançado, não desperdice isso.
  • Preconceito, sério mesmo? Não é frescura, não é só tristeza, é doença. Pare de contestar, comece a conversar e auxiliar.
  • Tem saída: Depressão tem tratamento e cura. Comece seguindo os passos acima. Com tratamento médico e psicológico a pessoa pode voltar a ter uma vida normal.

*identidade alterada a pedido da fonte.

 

 

 

 

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