“Responsabilidade na luta contra epidemias é de toda sociedade”, alerta infectologista

Falando sobre a “tríplice epidemia de dengue, zika e chikungunya” enfrentada pelo país, durante entrevista ao programa Tribuna Livre, da Capital FM, e ao portal Página Brazil, o médico infectologista Rivaldo Venâncio Da Cunha, declarou que “o zika vírus com esse comportamento recentemente observado, a capacidade de produzir alterações congênitas nas crianças cujas mães tiveram zika durante a gravidez, esse problema está se transformando talvez no pior problemas de saúde pública nos últimos 50, 100 anos no Brasil.”

O infectologista destacou: “quando comparamos a transmissão do vírus da mãe para a criança, nós chegaremos à conclusão que a microcefalia e as outras alterações congênitas decorrentes da ação do vírus zika já estão sendo mais graves do que a transmissão do HIV, na sua descoberta”. Comparando a velocidade com que o zika vírus tem se disseminado, o especialista considerou: “Durante 30 anos foram notificados cerca de 30 mil casos de HIV em crianças, que adquiriram a doença das mães. Hoje, no Brasil, nós já temos notificados como suspeitos, cerca de 5 mil casos, só de microcefalia, sem contar as outras alterações congênitas. Ou seja, em um ano aproximadamente, o zika fez aquilo que o HIV levou sete, oito anos para fazer e está se mostrando, tanto do ponto de vista númerico, quanto de gravidade, pior do que o HIV”.

Rivaldo Venâncio durante entrevista ao programa Tribuna Livre Foto Silvio Ferreira
Rivaldo Venâncio durante entrevista ao programa Tribuna Livre Foto Silvio Ferreira

Diante deste quatro, o especialista defendeu a busca de “alternativas para amenizar a situação que estamos vivendo. A primeira solução é garantir o direito, tanto da mulher grávida, quanto de qualquer cidadão, de saber se aquele quadro clínico que ele está vivenciando – com um pouco de febre, com manchas no corpo, com coceira, com conjuntivite – ter certeza se aquilo é zika ou não. Isso também alivia também a angústia do próprio profissional de saúde, que terá uma segurança maior para conduzir aquele quadro, em especial, se tratar-se de uma mulher grávida.”

Neste sentido, o especialista anunciou que “a Fundação Oswaldo Cruz vai colocar no mercado nos próximos dias, nas próximas semanas, um kit que vai diagnosticar se aquele quadro clínico é dengue, zika ou chikungunya, em uma única amostra de sangue. Isso já será uma contribuição gigantesca, inclusive para nós possamos ter uma real dimensão da gravidade do problema”.

Controle biológico do Aedes Aegypti e outras estratégias

Na cidade paulista de Bebedouro, um inseticida biológico composto pela bactéria Bacillus Thuringiensis Israelensis (BTI) – a partir de um comprimido dissolvido em uma porção de 50 litros de água aplicado em criadouros do mosquito transmissor da dengue, chikungunya, do zika vírus e da febre amarela (entre outras doenças), demonstrou a capacidade de matar as larvas do Aedes Aegypti em 24 horas e continuar atuando no meio-ambiente por 21 dias. A cidade de Bebedouro (SP), conseguiu reduzir em quase 100% o número de casos de dengue – de 500 casos em 2015, para 2 em 2016 -, com o uso da nova tecnologia.

Questionado sobre a possibilidade de adotar a mesma estratégia em todo o país, o infectologista lembrou que “durante 30 anos, nós aplicamos um modelo de controle que foi excelente há em 1903, 1905, com Oswaldo Cruz, sobretudo no Rio de Janeiro. Esse modelo, excelente há 110 anos atrás, está se mostrando insuficiente para resolver o problema nos últimos 30 anos. Tanto que nas últimas três décadas, temos epidemia de dengue praticamente todo ano. Neste sentido, toda nova tecnologia que surgir, como por exemplo o controle biológico, do larvicida biológico, é bem-vindo. Neste momento, não há a capacidade de produção em escala desse biolarvicida para todo país, mas nós temos que apostar como uma ferramente a mais – e inovadora -, em relação a aquilo que utilizamos nos últimos 30 anos”.

Apesar da expectativa positiva, o infectologista foi categórico: “Nenhuma dessas ferramentas irá substituir a ação do ser humano. Nós temos que entender que estamos diante de uma tríplice epidemia – dengue, zika e chikungunya – um gravíssimo problema de saúde, criada pela própria sociedade, que criou esse problema”, destacou.

Para o especialista: “Se nós, como cidadãos não mudarmos a nossa relação com o meio-ambiente, de descarte desses objetos sólidos (garrafas, copos, pneus, todos esses objetos que podem acumular água); se o poder público não intensificar ações que são de sua esfera; se não entendermos que o problema dessas epidemias é de toda a sociedade, não apenas do poder público. A dimensão e complexidade do problema exige a participação de outros atores para sua solução”.

E finalizou: “Raramente nós observamos – durante as epidemias de dengue -, por exemplo, os responsáveis pelo fornecimento de água, dando entrevista, explicando porque o fornecimento de água em algumas cidades brasileira continua sendo deficiente. Muito raramente, observamos os responsáveis pela coleta dos resíduos sólidos, pela coleta do lixo urbano, dando explicação durante epidemias. Toda essa carga, geralmente, fica sobre a área de saúde. Isso é um equívoco. A solução do problema está em outras esferas. Nós precisamos entender, de uma vez por todas, que o problema é multissetorial, que deve envolver toda a sociedade e todo o poder público”.

Silvio Ferreira

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