Pesquisa questiona proibição de homossexuais de doarem sangue

Pesquisa realizada pela Cruz Vermelha Belga contesta a proibição de homens que fazem sexo com homens de doarem sangue – regra que vale em cerca de 50 países. O Centro de Prática Baseada em Evidências da entidade realizou um tipo de revisão da literatura sobre o assunto e concluiu que, apesar de haver uma ligação entre doadores de sangue homossexuais e infecção pelo HIV, é muito precipitada a aplicação de uma política de proibição da prática.

Os autores coletaram todas as evidências disponíveis a partir de estudos que pudessem responder à seguinte pergunta: “Os homens que fazem sexo com outros homens e são doadores de sangue representam um risco em termos de infecções transmissíveis por transfusão em países ocidentais?”.

Dos 18.987 artigos retirados de cinco bases de dados científicos diferentes, apenas 14 passaram para análise posterior. Os outros foram excluídos por dois motivos: ou não puderam responder a questão de pesquisa ou continham artigos de opinião, em vez de evidências científicas. Os 14 textos incluídos pela equipe da Cruz Vermelha são estudos observacionais, ou seja, as pesquisas apenas observaram os participantes sem que eles fossem ativamente colocados em um grupo de tratamento ou controle (como seria no caso de um estudo experimental).

As pesquisas analisaram a incidência de infecções transmissíveis por transfusão de sangue de homens que fazem sexo com homens e dos doadores que não fazem sexo com homens, além disso, os estudos também buscaram o perfil de risco dos doadores de sangue infectados contra não-infectados.

Dentro dos 14 estudos analisados, 11 foram incapazes de demonstrar efeitos significativos porque a precisão dos resultados foi prejudicada pelo baixo número de doadores dentro do perfil “Homens que fazem sexo com homens”.

A única evidência disponível a partir das três pesquisas restantes apenas prevê uma ligação entre doadores de sangue no perfil pesquisado e infecção pelo vírus do HIV.

Uma dessas três pesquisas sugere que homens que fazem sexo com homens sejam proibidos de doar sangue por, pelo menos, um ano. Por outro lado, os outros dois mostram que o sangue de doadores no perfil da pesquisa é tão seguro quanto o de doadores que não tem relação sexual com outros homens. Portanto, em geral, nenhuma evidência convincente foi encontrada para apoiar a proibição.

No entanto, um dos autores da pesquisa, Dr. Philippe Vandekerckhove, pondera que a falta de evidência na pesquisa realizada pela equipe não significa a exclusão da ideia de que a doação de sangue feita por homens que fazem sexo com homens seja um risco na transmissão de doenças. “Nós simplesmente mostramos que a pesquisa de alta qualidade não documenta o risco”, disse.

Discussão na Europa

O Tribunal de Justiça da União Europeia emitiu no dia 29 de abril uma sentença que permite excluir os homossexuais da doação de sangue. Com a decisão o Órgão permite que um Estado membro da União Europeia possa proibir permanentemente a doação feita por homens que tenham mantido relações sexuais com outros homens pelo “alto risco” de contrair doenças infecciosas.

O tribunal, contudo, deixa nas mãos da justiça francesa – que levou a questão às instâncias europeias – decidir se as leis desse país são proporcionais ao risco e se a evidência científica disponível basta para justificar a medida.

por Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBM)

Comentários

comentários