Papa Francisco denuncia ataques contra os povos indígenas em encíclica sobre ecologia

No documento, o papa Francisco cobrou uma ação rápida dos líderes mundiais para salvar o planeta Foto: Max Rossi/Reuters

O Vaticano divulgou nesta quinta-feira (18), a nova encíclica do Papa Francisco intitulada ‘Laudato Si. Sobre o cuidado com a casa comum’. No texto, o Sumo Pontífice da Igreja Católica trata da deterioração ecológica promovida pelo capitalismo, afetando de forma trágica os mais pobres, e criticou com firmeza os ataques sofridos pelos povos indígenas e o consequente cerceamento dos direitos ancestrais, legais e humanos imposto a estas populações.

“Não são uma simples minoria, entre outras, e devem ser os principais interlocutores a todo momento em que se avançar sobre suas terras os grandes empreendimentos*”, afirma Papa Francisco na encíclica. No Brasil, a consulta prévia é um direito conquistado que os povos indígenas ainda lutam para garantir na prática – e na Justiça. Na opinião de Francisco, os países em desenvolvimento possuem grandes reservas de biosfera, mas seguem alimentando os países mais ricos em detrimento de suas populações.

Conforme o Papa destaca na encíclica, “para os indígenas a terra não é um bem econômico, mas sim um dom de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual necessitam interagir para sustentar a identidade e os valores”. No texto, Francisco afirma que são os povos indígenas que melhor cuidam do meio ambiente quando são mantidos em seus territórios.

O agronegócio não passou despercebido pela encíclica papal. Francisco criticou a retirada forçada dos povos indígenas de suas terras para dar lugar aos monocultivos que depredam o meio ambiente e a pluralidade de nações. “Sem embargo, em toda parte do mundo, são alvos de pressão para que abandonem suas terras a fim de deixá-las livres para projetos extrativistas e agropecuários que não prestam atenção a degradação da natureza e da cultura”, diz Francisco.

Para o Sumo Pontífice, falta coragem na política internacional para enfrentar tais ataques. “A submissão da política à tecnologia e à finança demonstra-se no falhanço das cimeiras mundiais sobre o meio ambiente”, escreve o Papa na encíclica. Antes mesmo do documento ser divulgado, a imprensa mundial já noticiava que Francisco seria duro com os países mais ricos, o modo de produção capitalista e o consumo em demasia. A defesa dos povos indígenas, nesse cenário, não poderia ficar de fora.

Na opinião do assessor teológico do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Paulo Suess, o Papa, quando trata dos povos indígenas, respalda os princípios da pastoral indigenista no Brasil. Desde os anos 1960, sobretudo depois da Conferência de Barbados, em 1971, a pastoral passou a ter um papel destacado na luta dos povos indígenas por seus territórios e autodeterminação, indo de encontro aos anseios capitalistas de consumo desenfreado do meio ambiente para o ciclo do mercado e da especulação. Na encíclica, Francisco faz referências de agradecimento a organizações que promovem a defesa do meio ambiente e dos povos indígenas.

Perspectiva social

Conforme a agência de notícias católica Ecclesia, baseada no Vaticano, Francisco recorda na encíclica que milhões de seres humanos se “arrastam numa miséria degradante”, enquanto outros “não sabem sequer que fazer ao que têm”, concluindo, por isso, que “o crescimento nos últimos dois séculos não significou, em todos os seus aspetos, um verdadeiro progresso integral”.

Na encíclica, o Papa ressalta: “Uma verdadeira abordagem ecológica torna-se sempre uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”. O texto, por fim, liga a degradação ambiental à “degradação moral” e a uma “alegre superficialidade” que destruiu os fundamentos da vida social e provocou “o despertar de novas formas de violência e crueldade”.

*Os trechos do texto em que Francisco aborda a questão indígena foram traduzidos de forma livre da versão em espanhol, pois até a publicação deste texto não havia uma versão da encíclica disponível em português.

CIMI

Comentários

comentários