Odebrecht, Lula e a campanha de US$ 50 milhões: o ‘quebra-cabeça’ de João Santana em Angola

O depoimento à Polícia Federal (PF) da publicitária Mônica Moura – mulher e sócia de João Santana, principal marqueteiro do PT – voltou a pôr em evidência a atuação do casal na campanha à reeleição do presidente angolano, José Eduardo dos Santos, em 2012 e os laços do publicitário com a construtora Odebrecht.

Detida com Santana na terça-feira na Operação Lava Jato – que investiga denúncias de corrupção envolvendo políticos, construtoras e a Petrobras –, Moura disse à PF na quinta-feira que a campanha em Angola custou US$ 50 milhões, dos quais US$ 20 milhões teriam sido recebidos por “contratos de gaveta”, não declarados.

Segundo Moura, os US$ 50 milhões englobavam uma pré-campanha, a campanha e uma consultoria para os pronunciamentos do presidente angolano, no poder desde 1979.

Odebrecht está presente em cinco dos seis países onde Santana trabalhou como marqueteiro Foto Reuters
Odebrecht está presente em cinco dos seis países onde Santana trabalhou como marqueteiro Foto Reuter

Santana, que também depôs nesta quinta-feira, confirmou ter recebido US$ 50 milhões pela campanha em Angola e atribuiu o valor ao “custo extremamente alto do país”, causado por problemas de infraestrutura e riscos envolvendo “conflitos étnicos”, entre outros fatores.

Pelo câmbio de 2012, a eleição em Angola rendeu cerca de R$ 100 milhões a Santana. No Brasil, país sete vezes maior que Angola, o publicitário recebeu R$ 70 milhões pela campanha à reeleição de Dilma Rousseff, segundo assessores do PT.

Santana levou a Angola uma equipe com cerca de 75 brasileiros

Santana levou a Angola uma equipe com cerca de 75 brasileiros, muitos dos quais permaneceram no país por ao menos seis meses.
Santana levou a Angola uma equipe com cerca de 75 brasileiros. Campanha em país sete vezes menor que o Brasil (que aqui custou U, custou .

A equipe se hospedou em dois dos hotéis mais caros da capital, Luanda – o HCTA (à época com diárias de US$ 575 para quartos individuais) e o Alvalade (US$ 407) –, e usou aviões em várias viagens pelo interior do país.

O valor que agora Santana diz ter recebido pelos serviços em Angola difere do que ele apresentou em maio de 2015, quando a Lava Jato investigava se ele havia transferido US$ 16 milhões do país para o Brasil para quitar dívidas de campanha do prefeito de São Paulo,
Fernando Haddad (PT), em 2012.

Na época, Santana afirmou que a campanha em Angola havia custado US$ 20 milhões e que ele pagara US$ 6,29 milhões em impostos para enviar o dinheiro legalmente ao Brasil. O publicitário negou que o dinheiro tenha sido usado na campanha de Haddad.

No depoimento na quinta, Moura disse acreditar que o casal tenha recebido no exterior entre US$ 3 milhões e US$ 4 milhões da Odebrecht por campanhas realizadas fora do Brasil.

A Odebrecht tem presença expressiva em cinco dos seis países onde Santana já trabalhou como marqueteiro: Argentina, Venezuela, República Dominicana, Panamá e Angola.

Em Angola, a companhia é a maior empregadora privada do país, com negócios nos setores de supermercados, construção civil, agronegócio e diamantes, entre outros.

Em 2012, ao fazer uma reportagem em Angola sobre a participação de João Santana na eleição local, a BBC Brasil ouviu de pessoas próximas à cúpula do MPLA, o partido do presidente angolano, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi decisivo para a sua escolha como chefe da campanha.

Lula esteve no país em junho de 2011, quando se reuniu no mesmo dia com o presidente angolano e com o então presidente da Odebrecht, Emílio Odebrecht. Naquela viagem, paga pela Odebrecht, Lula ainda visitou uma obra da empresa e discursou a parlamentares e estudantes.

Em nota à BBC Brasil, o Instituto Lula afirmou que “o ex-presidente Lula não intermedeia contratações”.

Pagamentos de lobista

Mônica Moura confirmou ter recebido US$ 4,5 milhões do engenheiro Zwi Skornicki
Mônica Moura confirmou ter recebido US$ 4,5 milhões do engenheiro Zwi Skornicki

No depoimento de quinta-feira, Mônica Moura confirmou ter recebido US$ 4,5 milhões do engenheiro Zwi Skornicki, que teria lhe sido indicado por “uma mulher responsável pela área financeira da campanha presidencial de Angola”, não nomeada. Skornicki foi preso preventivamente na segunda-feira, acusado de envolvimento nos desvios na Petrobras.

Moura afirmou ainda que a campanha de Santana pela reeleição de Hugo Chávez na Venezuela em 2012 custou cerca de US$ 35 milhões e que grande parte do valor não foi declarada. Ela disse que, ao enfrentar dificuldades para receber pagamentos pela campanha, foi orientada a procurar o então executivo da Odebrecht Fernando Migliaccio, que teria lhe ajudado a solucionar o problema.

Em nota, a Odebrecht disse desconhecer “as tratativas mencionadas por Mônica Moura e João Santana em seus depoimentos”.

Em seu depoimento, Santana negou ter qualquer relação comercial com a empresa e disse que Moura é quem cuida da contabilidade da agência.

Ele disse ter estado com o presidente da companhia, Marcelo Odebrecht, uma só vez num “evento social”, e que no exterior só teve contato com funcionários da empresa para o “acesso a obras e apoio logístico”.

lula-odebrechetA BBC Brasil questionou os advogados de João Santana e Mônica Moura sobre a participação do ex-presidente Lula e da Odebrecht em negociações sobre campanhas no exterior, mas não obteve resposta.

O MPLA tampouco respondeu perguntas sobre o processo de escolha do marqueteiro, mas afirmou que “Angola não tem nenhum problema com o senhor João Santana”. (BBC Brasil)

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