Mostra Cinema e Imprensa começou nesta segunda com filme sobre jornalismo policial sensacionalista

Foto Divulgação
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Foi aberta na noite desta segunda-feira (17), a Mostra Cinema e Imprensa, que vai exibir durante esta semana, no Museu da Imagem e do Som, com entrada franca, filmes que tenham a imprensa e a mídia como tema principal. Após todas as exibições haverá debates sobre o tema do filme com profissionais da área.

A Mostra, promovida pelo MIS em parceira com o Sindicato dos Jornalistas de MS, foi iniciada com o filme “O Abutre”, que trata do jornalismo policial sensacionalista. A debatedora convidada foi a jornalista Ellen Genaro, da TV Record.

Antes da exibição, o jornalista Clayton Sales, curador da Mostra, disse que a ideia era um sonho que ele tinha de promover uma exibição pública com filmes que abordam o mundo da comunicação, com seus inúmeros, problemas, vícios e qualidades. “A gente fez uma seleção em que a imprensa seja protagonista. Neste aspecto admiro o cinema americano, que não tem pudores em abordar essa relação da imprensa com o cinema, que não tem muito no cinema nacional. A parceria com o sindicato foi para proporcionar o debate com pessoas de peso no mercado daqui relacionado ao tema dos filmes. Desejo a todos um bom evento até sexta-feira”.

A coordenadora do MIS, Marinete Pinheiro, disse ser fundamental promover o debate sobre o papel da imprensa, com uma abordagem voltada para a nossa realidade, ver como os profissionais lidam com essas situações. “Os debates são bem diversificados. O papel da imprensa é fundamental para a formação da opinião pública. É a primeira vez que realizamos essa Mostra. Precisamos discutir os meios de comunicação e sua influência na sociedade. As pessoas são muito ligadas à televisão e site de notícias, que são referência na formação de opinião. Os filmes trazem uma provocação de como a imprensa traz esses temas para a sociedade”.

Após a exibição de “O Abutre”, que trata do jornalismo policial sensacionalista, a presidente do Sindicato dos Jornalistas de MS, Marta Ferreira, disse que a atual gestão tem um projeto chamado “Ocupa Sindjor”, “uma proposta nova, com gestão horizontal, em que convidamos a ‘moçada’ e também os jornalistas mais antigos para participar, para que a gente pense o jornalismo com ética e seriedade. Por meio do cinema vamos proporcionar o debate sobre temas importantes, como o sensacionalismo”.

A jornalista Ellen Genaro, da TV Record, iniciou o debate falando um pouco de sua história profissional. “Trabalho em TV desde o segundo ano da faculdade, era estagiária na TV Morena. De pauteira a editora chefe e apresentadora. Estou há cinco anos na Record. A TV Morena não tinha preocupação com audiência. Eu não fui treinada a pensar eu audiência, desenvolvia meu trabalho com base na técnica. Na Record me deparei com esse cenário, de ter que atrair o telespectador o tempo inteiro. Os casos policiais tinham resposta imediata. Sempre a gente experimentava novos modelos. A gente tinha uma equipe ‘full time’ me casos policiais. Há dois anos esses modelos se esgotaram. Comecei a observar jornais nacionais da Record com repórteres falando de suas viagens e do novo corte de cabelo. Sentia angústia e me perguntei para onde vou. Resolvi fazer mestrado para estudar e para fazer jornalismo com ética e sob o ponto de vista do telespectador”.

Em seu Mestrado, Ellen desenvolveu dissertação sobre jornalismo popular e sensacionalismo. Foi um trabalho de história da TV Campo Grande e uma pesquisa sobre o programa “O povo na TV”. “Fiz várias descobertas. O texto sensacional tem mais adjetivos. Hoje a Justiça proíbe o sanguinário, não pode mostrar essas imagens. Esse modelo se foi um pouco. Jornalismo popular é saber o que acontece nos bairros, porque as pessoas gostam desse tipo de material, elas tiram das suas emoções e as veem na tela. Sentem raiva e alívio. A psicologia explica esse jornalismo das sensações. O jornalismo policial continua, mas não tão sensacionalista como antes. Hoje se trabalha mais as sensações. Aquele modelo tradicional, quadradão, teve que ser banido porque o telespectador quer interagir, quer se sentir privilegiado”.

O estudante de Jornalismo e Ciências Sociais, Ariel Dorneles, foi com sua amiga, a estudante de Filosofia Rebeca Beatriz Lopes Cruz. Eles vieram por causa do debate. “Achei interessante. Gosto do jornalismo impresso e pretendo atuar numa área menos formal, como cultura ou esportes. O jornalista tem que ter muita fonte, estar na correria. O que me atraiu na profissão é que eu gosto de escrever. Cheguei a fazer quatro semestres de Letras, mas me decidi pelo jornalismo porque gosto da edição”, diz Ariel.

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Rebeca disse que há muito tempo não vinha ao MIS e achou interessante o tema do filme. “Para ser jornalista não pode ter medo de morrer. Eu gosto de jornalismo, mas é uma área na qual não me arrisco. Acho que o sensacionalismo, gostar de matérias policiais, é da natureza humana. Nós temos uma natureza que tende para o mal, mas nós dominamos isso. Tem muita violência nos filmes, livros, não tem como fugir disso”.

A jornalista Cristina Gomes é assessora no Conselho Regional de Representantes Comerciais e considera o jornalismo sensacionalista algo “deprimente”. “Às vezes você passa o olho porque não pode estar desinformada, mas eles bombardeiam muito. Quando dá um feriado você só vê isso, e tudo nos detalhes. Infelizmente vende, dá bastante audiência. A violência já está banalizada. Antes era uma coisa trágica hoje está banalizada justamente pela atuação da imprensa. Acho que uma Mostra como essa é uma maneira de unir os profissionais, com abordagens de especialistas sobre o tema. Deveria ter mais como essa, aqui deveria ser só o início”.

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O ativista digital Orlando Silvestre Filho afirma que a sociedade está migrando do sistema antigo de meios de comunicação de massa para o novo sistema P2P, pessoa para pessoa. “Essa transformação na produção da notícia supera toda a produção feita antigamente. Nós vivemos hoje a nanoaudiência, cada um tem sua pequena audiência. O cinema era um para todos, ou seja, grandes estúdios produzindo para atingir o mundo inteiro. Hoje já existe o cinema para móbile. Os meus filhos não sabem o que são os meios de comunicação tradicionais. Eles têm os canais deles, já conhecem outra plataforma. É outro mundo, outra realidade totalmente diferente”.

As exibições e debates continuam até a próxima sexta-feira. Hoje será exibido “Todos os homens do presidente”. A debatedora será Lígia Sabka, da TV Assembleia. A entrada, como sempre, é franca.

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