Lideranças de partidos avaliam mudanças com fim do financiamento privado de campanha

O fim do financiamento privado de campanha, já nas eleições de 2016, gera expectativas positivas em lideranças de partidos grandes e pequenos em Mato Grosso do Sul, mas algumas perguntas, principalmente sobre a efetividade da medida no combate ao tráfico de influência e à corrupção, ainda geram dúvidas.

A história tem demonstrado que na impossibilidade de dar uma aparência de legalidade ao financiamento de campanhas eleitorais, empresários interessados em depois exigir o “retorno do investimento” dos políticos que ajudaram a eleger, sempre criaram novos caminhos escusos para viabilizar o famigerado “caixa 2”.


Enxugando gelo

Para o vereador Prof.João Rocha (PSDB), presidente da Câmara Municipal de Campo Grande “O fim do financiamento privado de campanha é complexo. Como se explica? Qual é o objetivo real?”

Sobre a efetividade da medida para combater à corrupção e os caminhos de crimes como tráfico de influência do setor privado junto aos políticos, Rocha declarou, fazendo questão de frisar que dava sua opinião pessoal e não falava em nome do PSDB: “Nós precisamos melhorar a nossa cultura política no sentido de sermos verdadeiros, transparentes. Não podemos ficar ‘enxugando gelo’. É por isso que muitas vezes a classe política cai em descrédito”, lamentou o presidente da Câmara Municipal de Campo Grande.

“O que dá musculatura política a um representante eleito é praticar aquilo que prega. Eu acredito que o financiamento precisa ser transparente e que os meios pelos quais ele ocorre – sejam eles privados ou públicos – têm que ser conhecidos, para que se resgate a credibilidade daqueles que são eleitos e para que os detentores de mandatos deixem bem claro a que vieram”, em uma referência aos lobbys que políticos realizariam legitimamente pelos segmentos da sociedade que os elegem e aos quais representam.

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Biffi defende o financiamento público de camapnha

Discurso x Prática
Para o presidente estadual do Partido do Trabalhadores, Antônio Carlos Biffi: “O financiamento privado de campanha é a fonte de toda a corrupção eleitoral. Ele já existia no passado na figura do caixa 2, inclusive, com recursos de origem escusa. Depois que foi ‘regularizado’ no processo eleitoral gerou todo esse desequilíbrio que vemos na política nacional. Nós do PT defendemos o financiamento público da campanha, para que o eleitor saiba de onde veio o dinheiro. Agora, é ilusão achar que não haverá financiamento privado da campanha. As empresas voltarão a fazer o caixa 2, com o intuito de garantir seus interesses”.

Baseado nesta declaração, questionamos o presidente estadual do PT se o fim do financiamento privado de campanhas não seria uma medida inócua. Para Biffi, não: “O que tem que haver é celeridade na investigação e julgamento dos casos de caixa 2 e a punição exemplar dos condenados”, defendeu.

Questionamos ao presidente do partido se a retórica do fim do financiamento privado de campanha – defendida, entre outros partidos, pelo PT -, não demonstrou com a chegada do partido ao poder, ser diametralmente oposta à prática da legenda, que tem vários integrantes de sua cúpula investigados por corrupção em esquemas de financiamento ilegal de campanha. Para Biffi:

“O jogo até então, determinava que para se entrar em uma disputa [eleitoral], você tinha que ir atrás de financiamento privado e alguns integrantes do partido acabaram cometendo o mesmo erro. Mas se fala apenas do PT. Por que não se fala do DEM, do PSDB e do PMDB, que sempre fizeram a mesma coisa? Por que não se fala disso? Porque o PT não é o partido da grande mídia! Todo mundo fala do amigo do Lula [referindo-se veladamente à José Carlos Bumlai, pecuarista amigo de Lula, preso pela Operação Lava-Jato], mas ninguém fala dos amigos do Aécio. Por quê? Porque o PT está sendo massacrado. Evidentemente, nós tivemos integrantes do partido que incorreram nesse erro, mas o PT não foi o único partido”, considerou.

“Então, defendemos que o fim do financiamento privado de campanha é um início para combatermos esse tipo de corrupção. Depois tem que haver celeridade na investigação, julgamento e punição dos envolvidos em casos de corrupção e financiamento público de campanha”, propôs o presidente estadual do PT.


Fundo partidário e a nova corrida do ouro

Para o presidente do diretório estadual do PSOL, Lucien Rezende, o fim do financiamento privado de campanhas é positivo. “O fim do financiamento privado de campanhas sempre foi uma das bandeiras do PSOL, para colocar todos em igualdade de condições nas disputas eleitorais e também para combater a corrupção.”

Questionado se a regra não fará apenas com que empresas interessadas em tráfico de influência junto aos partidos políticos encontrem novos meios de mascarar o financiamento, pulverizando-o através de centenas de pessoas físicas que ‘subitamente se engajarão no financiamento de campanhas eleitorais’, o presidente do PSOL lembrou:

“Na forma como a regra foi aprovada a nova regra, pessoas físicas poderão doar somente dentro do limite de 10% da renda declarada no imposto de renda do ano anterior”, o que segundo Lizian, “deve dificultar esse tipo de manobra.”

Segundo o presidente do PSOL, “Nós defendemos que o financiamento seja feito apenas pela militância e pelo fundo partidário. Quando lutávamos pelo financiamento público de campanha, que não foi aprovado, não queríamos criar mais um imposto; mas agora, não se assuste: com o fim do financiamento privado nós veremos os grandes partidos correrem para aprovar o aumento do fundo partidário e até multiplicá-lo duas, três vezes ou mais”, ironizou.

Silvio Ferreira

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