Indústria de bebidas aposta na combinação de álcool e maconha nos EUA

Cerveja Corona: marca pode ter versão com maconha (Foto: Reprodução )
Cerveja Corona: marca pode ter versão com maconha (Foto: Reprodução )

Gigante do álcool que vende a cerveja Corona e a vodca Svedka, a Constellation Brands, está avaliando incluir cannabis, componente encontrado na maconha, em determinadas bebidas, num momento em que a legalização da erva avança nos EUA e, para analistas, é uma questão de tempo até cobrir todo o território. Algumas bebidas alcoólicas também vão conter cannabis”, disse Rob Sands, diretor executivo da Constellation, às Bloomberg News. “Estamos analisando isso.”

Na última terça-feira, os eleitores aprovaram o uso recreativo da maconha na Califórnia, no Maine, em Massachusetts e em Nevada. Assim, o número de estados onde está legalizada chega a oito, além de Washington D.C.. Agora, um em cada cinco adultos americanos (20%) mora em uma área onde se pode usar a erva de forma recreativa. A porcentagem aumenta para 58% se forem somados os estados onde o uso medicinal está legalizado e para 66% se somados os estados que descriminalizaram a droga.

Com a nuvem se espalhando de costa a costa, a projeção é de que o setor crescerá mais de oito vezes nos próximos dez anos, de USS$ 6 bilhões em 2015 para US$ 50 bilhões em 2026, segundo dados da consultoria Cowen & Co. É o tamanho aproximado do mercado americano de salgadinhos.

“Por que as grandes empresas não estariam, digamos, intensamente interessadas em uma categoria dessa magnitude?”, disse Sands, da Constellation Brands. “Se houver muito dinheiro envolvido, isso não vai ficar para pequenas empresas familiares.”

Gigantes de outros ramos também estariam de olho no segmento. A indústria do tabaco, por exemplo, já sabe como ganhar dinheiro com cigarros. E não é segredo que os cigarros eletrônicos e os produtos que esquentam o tabaco, em vez de queimá-lo, também são utilizados por usuários de maconha. Há quem estime em US$ 45 bilhões em potencial a demanda anual no uso recreativo de maconha nos EUA.

Há ainda todo o processo produtivo. A Scotts Miracle-Gro vem comprando, nos últimos 18 meses, empresas que fabricam fertilizantes, luzes e outros equipamentos para os produtores. A unidade de hidropônicos da empresa agora gera US$ 250 milhões em vendas anuais. Também estão se beneficiando as lojas que vendem produtos para casa e jardim e as lojas de ferragens, como Home Depot e True Value, cujas vendas nessa área dispararam nos últimos 12 meses.

Concorrência

Mas onde a Constellation Brands vê uma oportunidade nesse ramo de negócio, algumas companhias veem uma ameaça. Outras do setor de bebidas destiladas estão menos entusiasmados com a legalização da maconha porque temem que ela canibalize as vendas de bebidas alcoólicas. No estado de Massachusetts, algumas associações profissionais do setor de álcool doaram US$ 75 mil à Campanha por um Massachusetts Saudável e Seguro, que se opõe à medida. No estado do Arizona, onde os eleitores decidiram que a maconha continue sendo legal só com receita, a Associação de Vinhos e Destilados doou US$ 10 mil para o lado contrário.

“As pessoas que usam maconha talvez não queiram beber tanto quanto beberiam em outra situação, mas pode ser que elas não fossem beber mesmo e depois acabem bebendo algo”, disse Sands. “Talvez tudo se dê de forma sinérgica”.

Segundo dados da Cowen e da Pesquisa Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde, o número de consumidores de álcool que também fumam maconha aumentou nos últimos dez anos, ao passo que o número de usuários de maconha que também bebem álcool diminuiu. Além disso, as vendas de álcool não caíram no Colorado nem em Washington desde a legalização nesses estados.

Também há resistências na indústria farmacêutica. Companhias do setor, temendo a concorrência para seus ansiolíticos e outros remédios, também financiaram medidas contrárias à maconha. Elas conquistaram uma vitória na terça-feira quando o Arizona optou na votação por não legalizar o uso recreativo da maconha. O uso medicinal está legalizado neste estado desde 1996.

A chegada do empresário Donald Trump deixa o cenário um pouco mais confuso. Ele declarou apoio ao uso medicinal da erva, mas seu vice, Mike Pence, se mostrou contrário.

Além disso, no caso específico da Constellation, há o “fator México”. Trump prometeu uma revisão no acordo de livre comércio, que permite que 80% das exportações do país latino sejam direcionadas ao vizinho do norte. E as importações do México representam mais da metade das vendas líquidas da empresa da Constellation, que tem sede em Victor, Nova York. Entre os consumidores da companhia, 40% são hispânicos. Mas o diretor executivo da Constellation minimizou essas preocupações e disse que há muita distância entre as promessas de campanha e a legislação de verdade.

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