Indígenas ocupam Funai em Campo Grande contra nomeação de militar

Cacíques reunidos na mesa da Diretoria da Funai (Foto: Lúcio Borges)
Caciques reunidos na mesa da Diretoria da Funai (Foto: Lúcio Borges)

Indígenas de Mato Grosso do Sul estão ocupando o prédio da coordenação regional da Funai (Fundação Nacional do Índio) em Campo Grande, desde o fim da tarde desta quinta-feira (10), em protesto principal contra nomeação de um militar para o cargo no Estado. A tomada da sede da entidade é também contra medidas do governo federal pelos ajustes econômico e administrativo, que levaram ontem entre as medidas, sem aviso qualquer, a exoneração dos então coordenadores regionais da entidade na Capital e em Dourados. E para piorar a relação com os índios do Estado, foi nomeado ao cargo alguém fora da área e contrario a causa indígena, sendo ainda um coronel reformado do Exército, Renato Vida Sant’Anna.

Os indígenas dos povos Terena, que iniciaram a ocupação, dizem que foram pegos de surpresa tanto pela retirada do então coordenador, Evair Borges, quanto pela ‘absurda’ nomeação, que alegam além da condição de militar de Sant’Anna, que ele é proprietário de terras. O coronel reformado teve a nomeação publicada na edição de ontem, do Diário Oficial da União (DOU). A notícia do novo nomeado gerou revolta entre os indígenas do MS.
Assim, dezenas de indígenas de cinco municípios de MS, entre acadêmicos indígenas e lideranças de diversas aldeias ocuparam o prédio da Funai, onde pedem uma resposta de Brasília sobre a exoneração do coordenador regional e o e retorno da nomeação do coronel reformado do Exército. Os indígenas afirmam que não vão deixar o prédio e que a invasão é pacífica.

“Já vinhamos pleiteando nossas demandas que continuam no caminho para melhorar ou mesmo acontecer. E somos pegos de surpresa com a exoneração do coordenador de nosso meio, por alguém que é totalmente ao contrario da Funai. Não passou pela Fundação em Brasília e foi indicação política do deputado Marun – Carlos Marun (PMDB) – Estão tentando acabar com Funai e trocaram sem nem avisar que o coordenador seria outro, aqui em CG e em Dourados. E ainda colocam um fazendeiro para comandar a função e nossa causa. Fomos obrigado a estar aqui e não estamos fazendo baderna, estamos pacificamente para exigir está retificação do que foi feito”, disse o cacique Olicio.

Prédio tomado

(Foto: Lúcio Borges)
(Foto: Lúcio Borges)

Por conta da invasão ocorrida ontem (10), o coordenador-adjunto da Funai Campo Grande, José Resina, pediu autorização em Brasília para liberar os 25 funcionários que não puderam entrar para trabalhar e permaneceram na frente do prédio até às 10h. “Nós fomos impedidos de entrar e pedi autorização para liberar eles hoje. Na segunda-feira nós voltamos e se tiver assim de novo eu continuo liberando”.

A coordenação de Campo Grande representa índios da Capital, Nioaque, Miranda, Aquidauana, Sidrolândia, Dois Irmãos e Anastácio. Cerca de 44 lideranças estão vindo para continuar a invasão, ao todo são esperados 90 indígenas.

O cacique Marcos da Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, declarou que duas lideranças estão em Brasília e devem chegar ainda hoje, com uma posição do Governo. “Eles foram no Ministério da Justiça e estamos aguardando, se vim uma posição favorável ao nosso pedido podemos desocupar ainda hoje. Caso contrário vamos ficar aqui. Exigimos a retirada desta nomeação, que foi feita sem nenhuma consulta e colocam alguém ao contrário, a verso a situação, militar, ruralista em uma área desta. O que ele fará. É impensável que não fará nada ou será a favor de sua classe”, afirmou.

Experiência declarada questionada

A indicação do coronel foi assumida à imprensa pelo deputado Carlos Marun, que afirmou que a indicação se deu pela “vasta história de trabalho nessa área” do coronel e também “por uma questão histórica de amizade entre militares e os índios”.

O cacique Lindomar Terena, da Terra Indígena Cachoeirinha, apontou que a experiência do coronel Sant’Anna com a questão indígena, e sua “vasta história de trabalho nessa área” é no comando do 23º Batalhão Logístico de Selva, com sede em Marabá, no Pará. Todavia, não há nada que o coloque em trabalho direto com as demandas dos povos indígenas. Peternelli também alegou ter experiência: pilotou aviões do Exército locomovendo, inclusive, indígenas.

“Não vamos aceitar essa mudança. É um retrocesso muito grande: um coronel indicado pelos ruralistas? Querem acabar com a gente mesmo, mas vamos resistir e não vamos aceitar isso”, diz Lindomar.

Diversos caciques no prédio pedem a volta de Evair Borges e também a consulta deles todas vez que for nomear um novo coordenador para o órgão. “Desde 1980 somos consultados e algum indígenas que assume. E ainda a bandeira do movimento é a garantia dos direitos indígenas e dos territórios. Se ficar na mão de um militar é um retrocesso, voltar para a ditadura”, ressaltou.

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